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A crise da ecologia psíquica

Giannetti sobe ao palco do Fronteiras em junho, com Gilles Lipovetsky
Giannetti sobe ao palco do Fronteiras em junho, com Gilles Lipovetsky

Eduardo Giannetti é considerado um dos economistas mais respeitados do país e atua como professor e cientista social. É autor de 11 livros de ficção e de não ficção e foi agraciado com o Prêmio Jabuti em duas ocasiões.

Entre seus livros estão Felicidade, O valor do amanhã e A ilusão da alma. Sua obra mais recente, Trópicos utópicos (2016), examina os dilemas brasileiros a partir da crise civilizatória que acomete o mundo.

No início de junho, Giannetti retorna ao palco do Fronteiras do Pensamento para um debate especial com o filósofo francês Gilles Lipovetsky. Em Porto Alegre e São Paulo, a dupla de pensadores discute, a partir de seus diferentes campos e pontos de vista, a sociedade do consumo, o individualismo e, é claro, o império do efêmero.

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revista fronteiras do pensamento lipovetsky giannettiEm texto inédito e exclusivo, escrito para a Revista Fronteiras do Pensamento 2017, Giannetti comenta as novas lógicas de consumo a partir da obra de seu colega de palco, Lipovetsky. “O ideal de vida da leveza e da “civilização sem peso", como propõe Gilles Lipovetsky, pressupõe a conquista de uma relação menos hostil e arrogante não só com a natureza externa, mas com a natureza interna ao ser humano."

A Revista Fronteiras do Pensamento está encartada na superedição do jornal Zero Hora deste fim de semana e disponível online. Ao longo de 20 páginas, o conteúdo discute as contribuições da física, reflete sobre a moralidade, o consumo, a imigração, a cultura, a história, a literatura e a economia , que contam com textos de articulistas convidados e também produções dos próprios conferencistas que estarão no palco do Fronteiras 2017.

>> ACESSE A REVISTA ONLINE e leia abaixo A CRISE DA ECOLOGIA PSÍQUICA, por Eduardo Giannetti:

O mundo moderno nasceu embalado por três ilusões poderosas:

I) a de que o progresso da ciência permitiria banir o mistério do mundo e elucidar o sentido da existência;

II) a de que o projeto de explorar e submeter a natureza ao controle da tecnologia poderia prosseguir indefinidamente sem atiçar a ameaça de grave descontrole da biosfera;

III) a de que o processo civilizatório promoveria o aprimoramento ético e intelectual da humanidade, tornando nossas vidas mais felizes, plenas e dignas de serem vividas.

O moderno Ocidente trouxe fabulosas conquistas, mas as suas promessas não se cumpriram. Se é verdade que uma era termina quando suas ilusões fundadoras estão exauridas, então o veredicto é claro: a era moderna caducou.

Na encruzilhada do século 21 , como enuncia com lapidar clareza a encíclica Laudato si' do papa Francisco, “os desertos externos estão aumentando no mundo porque os desertos internos se tornaram tão vastos".

A degradação do mundo natural que nos cerca tem um correlato em nosso mundo interno. Assim como o metabolismo entre sociedade e natureza no mundo moderno produziu a crise ambiental, de igual modo a nossa natureza interna vem sofrendo as consequências inadvertidas e indesejadas de um processo civilizatório em guerra com o psiquismo arcaico do animal humano e calcado no culto fanatizado da tecnologia e da máxima eficiência em tudo.

A crise da ecologia psíquica é fruto da severidade da renúncia instintual imposta por um processo civilizatório agressivamente calculista e cerebral: uma forma de vida em que a convenção e a hipocrisia permeiam os vínculos erótico-afetivos enquanto a competição feroz, a ansiedade e a ambição irrestrita dominam o mundo da produção e do consumo.

Daí o fardo do viver civilizado. O ideal de vida da leveza e da “civilização sem peso", como propõe Gilles Lipovetsky, pressupõe a conquista de uma relação menos hostil e arrogante não só com a natureza externa, mas com a natureza interna ao ser humano.

E o Brasil com isso? Será desvairadamente utópico imaginar que temos tudo para não capitular à opressiva industriosidade geradora de objetos demais e alegria de menos do tecnoconsumismo ocidental? Que o Brasil, embora modesto nos meios, mantém viva sua aptidão para a arte da vida e a capacidade de cultivá-la a uma perfeição mais plena? Que podemos ousar modelos de economia e convivência mais humanos e adequados ao que somos e sonhamos?


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