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A nova ordem da democracia iliberal

Conhece a Turning Points? Iniciativa do The New York Times, a revista convida personalidades para uma reflexão sobre os fatos de 2016 que mudarão 2017. Nomes como Kofi Annan, Ingrid Betancourt e Marie Kondo figuram na diversa lista do projeto.

O mais recente artigo da Turning Points é de Francis Fukuyama, que fala sobre a virada global da democracia liberal para a democracia iliberal -- e coloca Vladimir Putin como o grande “chefe" do movimento.

Fukuyama conceitua e explica as forças políticas que regiam o mundo até aqui: “os sistemas políticos modernos são chamados de democracias liberais, porque unem dois princípios díspares. Liberalismo é baseado na manutenção de um campo aberto para todos os cidadãos, principalmente quando se trata da propriedade privada, que é um fator crítico para o crescimento e para a prosperidade econômica. A parte democrática, a escolha política, é aquela que reforça as escolhas comuns e que vê todos os cidadãos como um único conjunto."

Porém, explica Fukuyama, nos últimos anos, vimos a parte democrática lutar contra a liberal, como no caso de Viktor Orbán, Primeiro-Ministro da Hungria, que afirmou que seu país buscava ser um “Estado Iliberal". O partido de Orbán, diz Fukuyama, começou a modificar a Constituição para centralizar o poder nas mãos do Primeiro-Ministro. O mesmo pode ser visto na figura de Putin, que, segundo Fukuyama, se coloca acima da lei e utiliza seu poder político para enriquecer e garantir ainda mais poder. Outro exemplo seria Erdogan, Presidente da Turquia, que utilizou um golpe de Estado como justificativa para perseguir milhares de jornalistas, estudantes e civis que estariam sendo desleais com o país.

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Fukuyama aponta estes exemplos para chegar a Donald Trump, Presidente eleito dos EUA. A divisão social que se viu entre os norte-americanos, nas eleições, é similar à que levou ao Brexit, na Inglaterra, compara o cientista político. E a onda “iliberal" não termina por aí, afirma. Índia e Japão elegeram líderes nacionalistas que parecem estar fomentando a intolerância entre seus apoiadores.

“Até onde vai esta onda em direção à democracia iliberal"?, pergunta Francis Fukuyama no artigo. “Estamos caminhando para um período como o início do século 20, em que a política mundial afundou em conflitos por um nacionalismo agressivo? O resultado dependerá de diversos fatores críticos, particularmente como as elites globais responderão ao contragolpe que elas promoveram. Na América e na Europa, as elites fizeram imensas besteiras que prejudicaram mais as pessoas comuns do que as próprias elites. A desregulação dos mercados financeiros criou o contexto para a crise nos EUA, enquanto um Euro mal projetado contribuiu para a crise na Grécia, e o sistema de fronteiras abertas do Acordo de Schengen dificultou o controle de refugiados na Europa. As elites precisam reconhecer seus papeis na criação destas situações.

O que é surpreendente não é que haja populismo hoje em dia, mas que o populismo tenha levado tanto tempo para se materializar. Agora, é a vez das elites consertarem as instituições arruinadas e reduzirem o impacto naqueles segmentos de suas próprias sociedades que não se beneficiaram da globalização tanto quanto elas.

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Acima de tudo,é importante manter em mente que reverter a ordem liberal global provavelmente pioraria as coisas para todos, inclusive para aqueles deixados de lado na globalização. A principal causa da perda de empregos no mundo desenvolvido, afinal de contas, não é a imigração ou o comércio, mas a mudança tecnológica. O setor manufatureiro norte-americano viu algo como um renascimento na última década, quando cortou empregos em suas indústrias altamente automatizadas.

Precisamos de sistemas melhores para minimizar o movimento da disrupção política, mesmo que saibamos que tal disrupção seja inevitável. A alternativa é ficarmos com o pior dos dois mundos, em que um sistema em colapso e fechado de trocas globais será ainda mais desigual."

(Leia o artigo "The Dangers of Disruption" na íntegra)


Não deixe de assistir ao vídeo com Francis Fukuyama, extraído de sua conferência ao Fronteiras do Pensamento 2016. O cientista político reflete sobre as definições de Estado moderno, Estado de Direito, Responsabilidade Democrática e Estado Patrimonial ou Neopatrimonial. Fukuyama também aponta as três bases do Estado Moderno e os dois principais desafios a serem superados para que as nações o alcancem: a corrupção e a exploração do poder político em benefício próprio.