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A reinvenção da economia política

Thomas Piketty, economista francês, é reconhecido mundialmente por suas pesquisas sobre economia da desigualdade e redistribuição da renda.

Partindo de uma fórmula simples, constatou que não há como escapar do aumento da desigualdade, visto que a renda sobre o capital avança em ritmo mais acelerado do que o crescimento econômico. Em seu livro mais recente, Às urnas, cidadãos, lançado no Brasil em 2017, faz um balanço dos mandatos de Nicolas Sarkozy e François Hollande na França.

Autor mais vendido da história da economia, Piketty tem um pensamento difícil de ser enquadrado em velhas doutrinas e dicotomias -- e suas peculiaridades são analisadas neste artigo exclusivo do professor da UFRGS Flavio Comim, para a Revista Fronteiras do Pensamento. Confira abaixo.

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A reinvenção da economia política | Flavio Comim

Vivemos tempos de grandes embates econômicos e políticos. São tempos de contrastes, de antagonismos, de velhas teorias aplicadas a novos problemas. Vivemos tempos de extremos e de dicotomias: ou você é de esquerda ou é de direita; ou defende a justiça social ou a eficiência econômica; ou acredita no poder do Estado ou no dos mercados; ou se guia pelo bem comum ou pela liberdade; ou segue (estereotipicamente) Marx ou Von Mises.

A economia política, precursora da economia contemporânea, parece sepultada de um lado sob o véu da economia qua ciência e de outro sob a economia como uma coleção de dogmas de grandes pensadores. Nesse contexto, Thomas Piketty permanece uma incógnita, um OVNI acadêmico, para todos aqueles presos às suas velhas ideias. E a explicação para as dificuldades em classificá-lo é simples.

Piketty é um economista que tem luz própria. O seu pensamento é difícil de ser enquadrado dentro das velhas doutrinas. Não é por ter sido o autor do best-seller O Capital no Século XXI que ele é marxista. Não é por trabalhar com séries históricas e regressões que ele é um econometrista mainstream. Não é por defender investimentos pesados em educação e capital humano que ele é um liberal clássico. Não é por propor uma regulação de mercados financeiros especulativos que ele é keynesiano.

Ele é, antes de tudo, um economista extremamente preocupado com a democracia e com sua erosão por crescentes níveis de desigualdade social e econômica. Diferentemente dos economistas tradicionais, ele defende que “não existem leis econômicas", mas séries de “experiências históricas", com especificidades, aleatoriedades, imprevisibilidades e institucionalidades peculiares.

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O mundo visto por Piketty é caracterizado por profundas desigualdades de renda e de riqueza. É um mundo com estruturas tributárias arcaicas, ineficientes e injustas que penalizam os mais pobres, mas que são muito generosas com grandes fortunas e multinacionais (especialmente leniente com patrimônios privados em paraísos fiscais). É um mundo onde políticos são “inquilinos hipócritas do poder" excessivamente bem-remunerados; onde o socialismo é apenas “decorativo". É um mundo onde canais de notícia, controlados por bilionários, seguem com “seu fluxo incessante de informações emburrecedoras".

Piketty é moralmente sensível ao desperdício de dinheiro público com grupos privilegiados e ao “egoísmo míope" da política internacional de países europeus que envelhecem à espera dos resultados desastrosos do aquecimento climático. Para ele, as múltiplas faces da desigualdade não corroem apenas a democracia de países ocidentais, mas alimentam também o terrorismo, o nacionalismo, a islamofobia e demais conflitos religiosos no mundo.

Apesar de tudo isso, ele se define como um “otimista" e constrói seus argumentos na interface entre a economia e a filosofia política. Ele defende a progressividade tributária, o investimento pesado na educação, na formação profissional e na ciência e tecnologia. Engana-se, contudo, quem pensa que ele é um nacionalista. Para ele, não há a possibilidade de construirmos sociedades melhores sem a cooperação internacional.

Ele defende também um novo modelo de financiamento da proteção social para a França e a Europa que não seja todo em cima da massa salarial do setor privado (um ponto de vista interessante e original para tempos de debates sobre a reforma da previdência no Brasil). Outras soluções financeiras propostas por ele, como a mutualização de dívidas públicas, estão na raiz de uma refundação democrática da zona do euro.

Nas suas mãos assistimos a uma simbiose entre elementos políticos e econômicos cuja materialidade é dada por propostas de revisão da arquitetura tributária, orçamentária e financeira dos países que demandam a construção de novas instituições democráticas e parlamentares. Não existe hoje nenhum economista no mundo como Thomas Piketty. Temos muito a aprender com ele e a reinvenção da economia política para o século 21.