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Alberto Manguel e o jardim das bibliotecas que se bifurcam

“Para mim, as palavras numa página dão coerência ao mundo." Pode-se enxergar nessa frase em tom confessional, extraída de No bosque do espelho, uma espécie de motto da fecunda trajetória de Alberto Manguel no universo dos livros e da leitura.

Como sugere o próprio Manguel, talvez não seja exorbitante propor que sua melhor biografia (uma provável autobiografia, ainda a ser escrita) consistiria numa edição anotada do catálogo da formidável biblioteca que reuniu nos vários lugares onde viveu – Argentina Inglaterra, Itália, França, Taiti, Canadá. Esse grande livro, um grande mapa de seu percurso pessoal e intelectual, seria também seu retrato mais fiel.

A leitura e a escrita, essas atividades tão intimamente relacionadas na produção de Manguel, estão presentes desde muito cedo em sua vida. Entusiasta das palavras já na infância, o futuro autor de Uma história da leitura cresceu rodeado pelas lombadas das obras que marcaram os primórdios da formação de seu saber eclético e enciclopédico. Em A biblioteca à noite, ele se recorda de que, aos sete ou oito anos de idade, cerca de cem volumes sobre vários assuntos transbordavam de suas estantes. Uma versão em alemão das Mil e uma noites, uma coleção de histórias ilustradas sobre gatos, um atlas surrado pelo manuseio... O Brasil era representado pelo “grande Monteiro Lobato".

Décadas mais tarde, na esteira de uma carreira integralmente dedicada às palavras, alternada entre escrever para livros, jornais e revistas, editar, criticar, traduzir e organizar antologias, aquele núcleo primordial da biblioteca do pequeno Manguel se multiplicou e proliferou numa babel literária de mais de 30 mil volumes. Depois de morar e trabalhar em três continentes, em 2000 esse cidadão do mundo das letras nascido na Argentina escolheu o sul rural da França para se fixar – e, sobretudo, encontrar um lugar definitivo para seus livros: um celeiro do século XV reconstruído junto à antiga casa paroquial onde reside num vilarejo do Loire.

No entanto, para além das seduções bibliófilas, Manguel acredita que uma biblioteca constitui sobretudo um meio de transporte para a exploração do mundo. Navios de longa distância a singrar o espaço-tempo na experiência fundamental da leitura, para ele os livros são ferramentas de primeira necessidade que possibilitam o conhecimento das coisas por meio das palavras, e também, naturalmente, uma fonte inesgotável de prazer intelectual. Em sua atulhada Biblioteca de Alexandria particular, contudo, não resta espaço para a bibliofilia enclausurada de um Peter Kien (o fanático sinólogo de Auto-de-fé) ou o tédio ostentatório de um Des Esseintes (o dandy de Às avessas). Em seu prolífico laboratório bibliográfico, convivendo em democrática contiguidade nas estantes de carvalho, congregam-se velhas edições de bolso e raras primeiras edições; “muito Platão" e “pouco Aristóteles"; uma “minúscula" seção dedicada à teoria literária – o que não deixa de surpreender, pois Manguel é cada vez mais lido em cursos universitários de letras como um dos maiores críticos de nosso tempo – e uma “vasta" coleção de histórias de detetives; as Confissões de Santo Agostinho e literatura gay do século XX; livros sobre outras bibliotecas, sobre livros que foram destruídos e sobre livros que jamais existiram. Configurando uma genuína heterotopia nos termos de Michel Foucault, isto é, um lugar em que diferentes lugares e tempos convivem lado a lado, o diálogo constante entre os itens dessa portentosa, heterogênea e sempre crescente coleção pessoal orienta a narrativa biobibliográfica de Manguel, ele mesmo uma biblioteca movente de textos e imagens.

Naturalmente, essa narrativa deveria incluir a contrapelo, à maneira de Italo Calvino, os livros que, por diversas razões, não entraram na biblioteca ou nela não permaneceram, ou ainda não foram lidos ou sequer escritos, mas que já têm lugar reservado no celeiro literário do Loire. Na obra de Manguel, a biblioteca é o espaço em que todas as virtualidades estão reunidas. Não por acaso, George Steiner certa vez lhe deu o epíteto de “Don Juan das bibliotecas". Reproduzindo a célebre sentença de Stéphane Mallarmé, o autor de A cidade das palavras acredita que “tudo, no mundo, existe para acabar num livro". Esse livro corresponde talvez ao mesmo Livro aludido por Guimarães Rosa no conto “Páramo", de Estas estórias, num eco de Borges e Plotino: um livro que contém todos os outros livros e, portanto, todo o universo. Deus e o diabo, tudo e nada cabem num único volume – o catálogo da Biblioteca. Seu texto seria no limite um símile do mundo e, portanto, numa espiral infinita de espelhamentos, também dos livros nele contidos.

(Parêntese sobre a biblioteca ideal de Manguel: atendendo a uma inevitável demanda de seus leitores, ele certa vez compilou uma lista com seus cem livros prediletos. Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas) e Fernando Pessoa (Livro do desassossego) são os únicos autores de língua portuguesa incluídos. No entanto, presume-se que o Brasil continua bem representado nas estantes de Manguel, colecionador de literatura de cordel e admirador de Aleijadinho, que mereceu um memorável ensaio em Lendo imagens).

Uma das metáforas que serve de leitmotiv ao livro mais recente de Manguel, The Traveler, The Tower, and The Worm (2013, inédito no Brasil), se refere à tendência de encastelamento na “torre de marfim" a que a atividade intelectual tem sido historicamente relegada no Ocidente. Por outro lado, satisfeito com os mágicos poderes da biblioteca, o intelectual pode ceder facilmente às delícias abstratas da cosa mentale e se retira do mundo conflagrado da realidade social. Manguel vem combatendo incessantemente essa tendência ao confinamento passivo da leitura – e, por extensão, do intelectual – numa posição subsidiária em meio à selva de simulacros audiovisuais que domina a cultura contemporânea. Contra esse devir-ilha da leitura, ele afirma em A biblioteca à noite que “a enciclopédia do mundo, a biblioteca universal, existe – e é o próprio mundo".

Grande autoridade sobre a história da leitura, dos livros e das bibliotecas, Manguel é um incansável apóstolo do poder de transformação da literatura e de sua função insubstituível como repositório perene da memória cultural da humanidade. A efemeridade dos arquivos digitais é justamente uma de suas principais críticas aos e-books e à decadência dos livros de papel. A formidável erudição desse intelectual militante (integralmente formada, a propósito, em livros de papel) não se contenta, pois, com a autorreflexão bibliófila e atravessa as paredes da biblioteca do Loire para servir a causa da leitura ao redor do mundo. Além de colaborador regular de veículos como The New York Times e El País, é diretor de dois festivais literários, integrante do júri de vários concursos e membro de academias e universidades na Europa, nos Estados Unidos e na Argentina. Entre outros prêmios e distinções que reconheceram sua obra, na França recebeu o prestigioso Prêmio Médicis de ensaio (1998, por Uma história da leitura) e foi nomeado cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras; na Inglaterra e na Bélgica, foi-lhe conferido o título de doutor honoris causa pelas universidades Anglia Ruskin e Liège.

As vertentes complementares de sua produção intelectual – ensaísta, crítico, conferencista, organizador de antologias e ficcionista – se iluminam mutuamente nos quase cinquenta títulos de seu currículo de autor. Exímio contador de histórias, capaz de conservar a fluida elegância do texto mesmo quando trata de temas complexos da filosofia ou da teoria literária, publicou cinco romances e treze livros de não ficção, entre ensaios e coletâneas de textos críticos. Como organizador, assina mais de trinta antologias de contos, totalizando um impressionante cânone mundial da ficção curta. Quinze desses livros já saíram no Brasil. Pela Companhia das Letras: Todos os homens são mentirosos (2010, romance); À mesa com o chapeleiro maluco (2009, coletânea de ensaios); A cidade das palavras (2008, ensaio); A biblioteca à noite (2006, ensaio); O amante detalhista (2005, romance); Os livros e os dias (2005, diário de leituras e crítica literária); Dicionário de lugares imaginários (2003, com Gianni Guadalupi); Lendo imagens (2001, ensaios sobre artes visuais); No bosque do espelho (2000, coletânea de ensaios); Stevenson sob as palmeiras (2000, romance); Uma história da leitura (1997, ensaio); e como organizador, Contos de amor do século XIX (2007) e Contos de horror do século XIX (2005). Pela Zahar, Ilíada e Odisseia de Homero (2008, ensaio). Pela Planeta, As aventuras do menino Jesus (antologia de contos, 2011). Ainda inéditos no País, destacam-se, entre outros, El regreso (2005, romance), News from a Foreign Country Came (1991, romance), With Borges (2004, biografia).

Entrementes, como deveria proceder um bibliotecário incumbido de classificar os livros de Manguel? Critérios cronológicos, temáticos ou linguísticos não se ajustam bem a essa produção desdobrada em múltiplas facetas. A metáfora da Torre de Babel, cara ao autor, ilustra o problema. Onde situar os romances de um escritor de ascendência judaica nascido na Argentina, naturalizado canadense e que reside na França, publicando em inglês e em espanhol? O clássico Uma história da leitura vai para a estante de crítica literária, filologia ou história? A biblioteca à noite é um ensaio histórico ou autobiográfico? Lendo imagens pertence aos domínios da estética ou da literatura? “Lys ce que voudra" [Lê o que quiseres]. A melhor resposta talvez seja essa frase de Rabelais que guarda uma das portas da biblioteca de Manguel no celeiro do Loire. Corolário do motto sobre as palavras com que este texto se inicia, trata-se de uma boa recomendação de viagem a quem deseje enveredar pela obra e pelo pensamento de Alberto Manguel.