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Bernard-Henri Lévy: Reinventando o povo francês

Crédito: Jean-Pol Grandmont
Crédito: Jean-Pol Grandmont

Em junho passado, o povo francês foi novamente às urnas escolher um novo legislativo, e o Presidente Emmanuel Macron conseguiu garantir maioria dos votos. Porém, isso ocorreu em uma eleição com recorde de abstenções: 57% dos eleitores.

Neste artigo publicado no kyivpost.com, o filósofo francês Bernard-Henri Lévy, conferencista da edição de 2008 do Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador, analisa o resultado e define a necessidade de reinvenção do povo francês, baseando-se nos princípios democráticos do iluminismo e da história do país.

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“Tudo se realizou...”

Nos anos em que ouvia música sem parar, a passagem marcada por essas palavras foi, para mim, mais intrigante em A Paixão Segundo São João, de Bach.

A memória de deste emocionante soprano, acompanhado de um lamento no violoncelo, alternando entre música e silêncio, voltou à minha mente no dia 19 de junho, após o segundo turno das eleições parlamentares da França.

Uma eleição na qual, é claro, consagrou-se o sucesso estrondoso do plano do Presidente Emmanuel Macron de obter maioria no congresso nacional.

Mas, quer gostemos ou não, a eleição significou muito mais do que isso: também resultou em uma abstenção recorde de 57% dos eleitores franceses que desdenharam o raro e precioso privilégio do voto, um privilégio inventado há muitos séculos por homens que acreditavam em participação, razão e esclarecimento.

Inevitavelmente ouviremos comentários sobre um eleitorado exausto após um ano de psicodramas que sacudiram a França em suas bases e obscureceram seus tradicionais pontos de referência.

Ouviremos falar na sabedoria de uma nação que já sabia o resultado e desejava, sem dizer, evitar as aparências de uma vitória excessiva.

A culpa será posta no clima, nas pontes, na mídia, na antipatia de líderes desprezíveis e na quantidade de desconhecidos representados pelas novas faces do exército de candidatos apoiados pelo presidente.

Mas não creio que essas explicações anedóticas se sustentarão por muito tempo.

Não consigo evitar de ouvir, no ensurdecedor silêncio dos milhões que se abstiveram, a nota dissonante que podemos sempre detectar em fanfarras vitoriosas: nunca se sabe, primeiramente, se é apenas uma nota falsa, o som das coisas caindo e continuando a rolar brevemente antes de finalmente parar, uma real decepção, uma chocante interrupção, o anúncio de uma verdadeira crise.

E não podemos descartar que essa expressiva estatística (57%!) significa não apenas o último suspiro dos cadáveres inertes que foram o aparato político de antigamente (e podem se reerguer novamente e se tornarem os partidos populistas do futuro), mas também um processo de abandono, deserção e dispersão que afeta, além do voto, a ideia de que o povo francês tem de si mesmos, uma ideia que parece, subitamente, fantasmagórica.

Hobbes avisou.

“O Povo” é sempre um artefato.

O processo pelo qual ele é formado, indo contra a antissociabilidade dos seres humanos movidos por suas paixões e desejos, é tão frágil quanto corajoso.

E, no mundo real, é o contrato social, com suas instituições e procedimentos, seus modos de deliberação, delegação, mediação e, em especial, o voto, que está por trás da nobre invenção de “um povo” e é responsável pelo fato de que os homens, ocasionalmente, dão um tempo em matar uns aos outros.

Não posso evitar de imaginar se, após uma eleição com tantas abstenções, não é um ataque a esta máquina esplêndida e sutil.

Me pergunto se não estamos ouvindo o final de um processo de dissolução cujos sinais já estavam presentes e agora ameaça transformar irreversivelmente “o povo” em uma abstração, uma ficção quase impossível de se imaginar e ainda mais de se acreditar. Me pergunto se a satisfação em ser um povo, conforme a noção criada pelos primeiros Europeus e Americanos, reinventada pelas celebrações francesas de união nacional do dia da Bastilha e, então, celebrada pelo historiador e poeta francês Jules Michelet não está se tornando coisa do passado.

O que nos levaria a escolher uma de duas visões.

Ou nos acostumamos a essa irrealidade; de se acostumar com a ideia de que esses recém-eleitos representantes de Macron, tão preliminarmente novos e remotos a ponto de sugerir que eles podem ter sido eleitos enquanto o Leviatã dormia; e de contar com o Facebook e o Twitter para restaurar, através de uma radicalização técnica que possibilita despejar respostas em tempo real para referendos instantâneos, uma semelhança à vontade e soberania do que um dia chamamos de povo.

Ou então para detectarmos – neste processo de respostas sem perguntas ou opções, sem pensamento – um mergulho de cabeça que eventualmente causará apenas mais desumanidade; para nos tornarmos seriamente assustados com as necessidades que podem, a qualquer momento, tomar o controle de um povo que se percebe desaparecendo; em resumo, para nos envolvermos em inteligência, razão e coragem, o melhor para voltarmos com força para a arena política e, inspirados pelo bravo e difícil trabalho do Iluminismo, reformular em termos atuais os teoremas de uma democracia representativa, um sistema político que ainda (e assim o será por muito, muito tempo) é o melhor dentre as alternativas.

Devemos reconstruir o que está caindo aos pedaços e se afastando, como icebergs das calotas polares.

Devemos fechar a ferida de onde escorre, como o sangue de um hemofílico, a vida de uma sociedade fragmentada.

Em suma, nós, o povo, devemos nos recriar dos destroços de um mundo em chamas que sucumbe sob nossos pés.

Essa é a verdadeira revolução pela qual o Presidente Macron e sua maioria parlamentar terá que trabalhar na França.

A tarefa é, obviamente, imensa, histórica e, em última instância, metapolítica. É uma tarefa para a qual não será o suficiente apenas um indivíduo, ou vários, ou até uma maioria avassaladora: o que será necessário será uma vontade geral – não mais individual ou coletiva, mas verdadeiramente geral – da República da França. E então, como na “paixão” de Bach, no qual o lamento de que “tudo se realizou” é seguido pelas cordas e metais da Ressureição, será possível, novamente discernir, na política francesa, os vestígios de seu passado – e o caminho para seu futuro.

Fonte: kyivpost.com