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Breve história dos “Novos Filósofos”

André Glucksmann, Sartre e Raymond Aron (foto: Gilbert Uzan, 1979)
André Glucksmann, Sartre e Raymond Aron (foto: Gilbert Uzan, 1979)

Contra o marxismo, o estruturalismo e os totalitarismos. Um heterogêneo grupo de intelectuais nascia no pós-1968, um tempo em que as ditas utopias revolucionárias ainda incendiavam a imaginação de estudantes e de intelectuais dispostos a mudar o mundo. Eram os “Novos Filósofos", termo criado por Bernard-Henri Lévy, em 1976.

Em fala exclusiva ao Fronteiras do Pensamento, Joana Bosak* nos conta mais sobre este grupo tão diverso, que se uniu por uma qualidade “negativa", a rejeição aos sistemas autoritários de poder. Leia abaixo:

A corrente de pensamento definida como sendo os “Novos Filósofos" tem esta identificação única, mas trata-se de um grupo extremamente heterogêneo.

O termo, em linhas gerais, refere-se ao grupo de cerca de dez intelectuais de uma geração que rompeu com a tradição marxista então vigente no início dos anos 1970, justamente no período imediatamente posterior ao Maio de 1968.

O grupo incluía também, além de Pascal Bruckner, André Glucksmann, Bernard-Henri Lévy, Jean-Marie Benoist, Christian Jambet, Guy Lardreau, Claude Gandelman, Jean-Paul Dollé e Gilles Susong.

Entre as críticas desenvolvidas pelos “Novos Filósofos" estão aquelas dirigidas ao pensamento original de Jean-Paul Sartre e também aos filósofos mais contemporâneos, do chamado “pós-estruturalismo", como Jacques Derrida, Jean-François Lyotard, Jacques Lacan, Jean Baudrillard, Michel Foucault, Julia Kristeva, Gilles Deleuze e Judith Butler, entre outros; além de se insurgir contra a filosofia fundadora e anterior de Friedrich Nietzsche e de Martin Heidegger, intensificando ainda mais a crítica aos fundamentos apresentados por Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Marx no século XIX.

Segundo os “Novos Filósofos", que tiveram esta alcunha proposta por Bernard-Henri Lévy, em 1976, os “pais fundadores" da filosofia e da sociologia – como Hegel, Marx e Max Weber – teriam criado, em seus escritos, as bases para sistemas extremamente opressores, como o maoismo, corrente contemporânea às críticas e ao qual se seguiram todas as outras formas derivadas dos “marxismos". É importante destacar que os “Novos Filósofos" têm origem em um movimento com formação marxista, contra o qual se insurgiram no pós-1968.

Eles foram e têm sido duramente criticados por intelectuais relevantes no cenário contemporâneo internacional, por sua suposta superficialidade e mesmo ausência de ideologia.

Cobra-se dos “Novos Filósofos" maior comprometimento com as questões sociais desde um prisma como o observado pelos intelectuais tradicionalmente identificados com movimentos de esquerda, dito totalizante, entendido por aqueles como “totalitário".

Entre os críticos às posições políticas, ideológicas e intelectuais dos “Novos Filósofos" estão pensadores do quilate de Pierre Bourdieu, Gilles Deleuze, Pierre Vidal-Naquet, Jean-François Lyotard, Alain Badiou, Gayatri Spivak – um dos grandes nomes do multiculturalismo – e Cornelius Castoriadis, entre os que estão em atividade ou já morreram.

Os “Novos Filósofos" chegaram mesmo a ser chamados de “bufões da TV" por Gilles Deleuze, por sua ampla inserção na mídia e por desenvolverem um discurso muitas vezes mais acessível ao grande público, não especialista ou acadêmico. Muitas dessas críticas aproximam os temas tratados como se estivessem no gênero da autoajuda.


*Joana Bosak é Professora de Teorias, Crítica e Historiografia da Arte, no Bacharelado em História da Arte da UFRGS. É mestre em História e doutora em Literatura Comparada.