Voltar para Artigos

Carnaval no Rio de Janeiro: Mark Dery analisa diferenças culturais entre Brasil e EUA

"O Brasil é inteiramente devotado à minha parte preferida do corpo – a bunda", diz Arnold Schwarzenegger sobre o Carnaval do RJ em um famoso vídeo da década de 1970. Não é preciso voltar tanto pra encontrar outras "pérolas" sobre nossa cultura, como o polêmico caso da Copa do Mundo de 2014 e das camisetas com a dúbia frase "looking to score".

Em conferência ao Fronteiras do Pensamento, Dery, um dos pioneiros na análise e conceituação da cibercultura, traça um panorama comparativo entre os Estados Unidos, que ele denomina a cultura do "Império dos Reprimidos", e o Brasil, que, aos olhos dos EUA, parece uma "espécie de zona erógena imensa na imaginação popular".

Para analisar as diferenças culturais entre ambos os países, o convidado apontou casos de "puritanismo" de sua terra natal e trouxe um vídeo, produzido pela Playboy na década de 1970, em que Arnold Schwarzenegger vem ao Brasil na época do carnaval.

Segundo Dery, o vídeo, há anos amplamente visto na Internet, ilustra bem a visão norte-americana sobre os brasileiros:

MARK DERY | Há uma pitada de ironia no fato de um norte-americano, do Império dos Reprimidos, vir falar aos brasileiros sobre sexualidade. No imaginário popular norte-americano, o Brasil é a terra do bacanal sem fim. A depilação ao estilo biquíni brasileiro [Brazilian wax].

Assim, ao me preparar para minha conferência aqui, pensei em me familiarizar com a conduta sexual brasileira, e, para isso, assisti ao seguinte vídeo educativo.

Enquanto assistem, tenham em mente que tudo o que sei sobre a sexualidade brasileira deriva deste vídeo. Gostaria de mostrar um pouco mais. Arnold Schwarzenegger como um nativo moreno, conforme observou uma crítica da cultura norte-americana com sua língua afiada. Aprendi muitas coisas a partir desse videozinho peculiar, produzido no final dos anos 70 pela revista Playboy – chama-se Carnaval no Rio.

Basicamente, é anunciado como Conan, o bárbaro – num remake de Orfeu negro. E nos ensina também sobre os conceitos arcanos de mulata e de bunda, muito importantes, e ainda contém pérolas de insights, tais como: 'O Brasil é inteiramente devotado à minha parte preferida do corpo – a bunda'.

Pois bem, isso nos dá uma vaga ideia da percepção norte-americana do Brasil como a terra do carnaval sob o signo da sexualidade e como um tipo de zoológico de bichinhos de estimação para turistas sexuais. A turma de caras durões em busca da etnia comodificada. É uma espécie de zona erógena imensa na imaginação popular.

Já, os EUA, por outro lado, são um país onde três alunas do ensino médio do interior do Estado de Nova York simplesmente pegaram um dia de suspensão da escola por mencionarem a palavra 'vagina'. E elas estavam lendo em voz alta um trecho da clássica peça feminista de Eve Ensler, Os monólogos da vagina. Fica um pouco difícil evitar a palavra 'vagina', quando se está lendo Os monólogos da vagina. De qualquer modo, não dizemos palavras como essa em público nos EUA, e, em virtude disso elas foram suspensas da escola por um dia.

Menos divertido: um jovem negro no sul, Genarlow Wilson, foi condenado a dez anos de prisão por ter praticado sexo oral consensual. Consensual no sentido de que o rapaz e a jovem garota estavam de feliz comum acordo com a transação sexual, quando ele tinha 17 e ela 15 anos. E ele foi sentenciado como predador pedófilo e agora padece numa penitenciária na Geórgia. E meu exemplo preferido do puritanismo norte-americano é uma decisão recentemente tomada pela 11ª Corte de Apelações no iluminado estado do Alabama.

A decisão diz que, embora seja permitido vender armas semiautomáticas, é proibida a venda de dildos ou de quaisquer outros brinquedos eróticos naquele Estado, levando à obra-prima do surrealismo cotidiano, mencionado on-line por um comediante de esquerda, que é: 'a gente pode andar pelas ruas de uma grande cidade no Alabama vendendo armas semi-automáticas e dildos e ser preso por vender os dildos.' Pois bem, estas são algumas considerações sobre as diferenças culturais entre o meu país e o de vocês."