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Charlottesville: Há mais de um lado nessa história

Ilustração: Henrietta Harris
Ilustração: Henrietta Harris

A identificação de valores, posicionamentos e opiniões com os quais concordamos, e a diferenciação em relação àqueles que se colocam contrariamente ao que defendemos são processos naturais e importantes para o desenvolvimento de uma reflexão abrangente sobre praticamente qualquer área. Sem discordâncias e contestações bem embasadas, seria muito difícil aprofundarmos conhecimentos, aprimorarmos nossos argumentos e pontos de vista, e desenvolvermos tolerância e respeito no diálogo com o que é diferente.

No entanto, é comum - e até compreensível - que se releve certas falhas de figuras políticas que, de maneira geral, convergem com nosso ponto de vista, e se exalte as mesmas fraquezas naquele que consideramos o adversário. Talvez seja justamente neste sentido que os defensores do “outro lado” façam realmente a diferença: apontando os problemas naquilo que nós defendemos, para que possamos, com o tempo, fazer esta auto-crítica por conta própria.

Em artigo publicado no Boston Globe, o historiador britânico Niall Ferguson coloca uma lente mais afastada sobre o panorama da violência política ao redor do mundo. Tomando como ponto de partida para a reflexão o conflito na marcha neonazista em Charlottesville, nos Estados Unidos - que provocou debates entre pessoas que acreditam que o nazismo tem a ver com uma ideologia de direita, e outras que, pelo contrário, relacionam este posicionamento extremista à esquerda -, Ferguson traz exemplos recentes que nos fazem compreender que o comportamento violento e extremo pode vir de qualquer um dos lados. Leia abaixo!


HÁ MAIS DE UM LADO NESSA HISTÓRIA | NIALL FERGUSON

Semana passada foi a semana na qual o jogo virou. Foi a semana em que o presidente Trump finalmente foi longe demais aos olhos daqueles para os quais ele ainda não havia passado dos limites.

Foram tantos os pedidos de demissão nos diversos comitês consultivos de Trump que ele se viu obrigado a fechá-los. Empresas da internet até então comprometidas em liberdade de expressão decidiram que se passou dos limites. E diversos políticos do Partido Republicano foram a público criticar o homem que colocaram na Casa Branca.

O limite atravessado por Trump foi de retórica. Ele deixou de criticar, em tempo hábil, convicção e clareza, os supremacistas brancos e os neonazistas, cujo protesto em Charlottesville, na Virgínia, causou a morte de uma mulher durante o fim de semana. “Há apenas um lado”, respondeu o ex-vice-presidente Joe Biden pelo Twitter.

Não escondo de ninguém meu desprezo aos fascistas e racistas. As pessoas que marcharam em Charlottesville gritando “judeus não nos substituirão” e agitando bandeiras com a suástica são, de fato, desprezíveis. O fato de algumas delas carregarem armas semiautomáticas pode explicar por que a polícia perdeu o controle da situação.

Há pelo menos provas iniciais de que, quando James Alex Fields Jr. jogou seu veículo contra outro veículo próximo à multidão de manifestantes contrários aos neonazistas, ele tinha a intenção de causar morte e ferimentos por motivos políticos. Seu crime pode e deveria ser processado como um ato de terrorismo. A tentativa de Trump de dividir a culpa pela morte de Heather Heyer ao sugerir que os manifestantes contrários também eram violentos é, portanto, indefensável.

Contudo, por mais que eu lamente a decisão de Biden de não concorrer à Presidência – que, acredito, ele teria ganho no ano passado –, me sinto desconfortável com a afirmação de que “há apenas um lado” se ela for dita com a intenção de ser uma declaração genérica sobre violência política. Há apenas um lado se tratando de nazismo: você tem que ser contrário. Mas há mais de um lado engajado em violência política.

Primeiramente, os manifestantes contrários em Chalottesville incluíam representantes do movimento antifascista (“ANTIFA”). Na Alemanha, onde esse movimento tem suas raízes nos grupos paramilitares comunistas dos anos 1920, grupos ANTIFA estão sob vigilância do governo há um bom tempo por serem tidos como “organizações extremistas”. Diversos indivíduos ligados ao ANTIFA foram acusados de agressão depois dos tumultos ocorridos durante o encontro do G-20 em Hamburgo em julho. Somente no mês passado, três membros do ANTIFA foram presos por brigarem com apoiadores de Trump em um protesto na Filadélfia.

Alguns grupos ANTIFA norte-americanos preferem se denominar herdeiros de uma tradição local histórica como os abolicionistas radicais que instigaram e ajudaram rebeliões de escravos nos anos 1850. Mas isso também implica violência política. O grupo ANTIFA Redneck Revolt angaria fundos para seu próprio arsenal de armas através do “Fundo de Solidariedade John Brown”. Membros desse grupo levaram armas para Charlottesville.

De acordo com cálculos do Instituto Cato, “terroristas nacionalistas e de direita” foram responsáveis por 219 assassinatos nos EUA desde 1992. Terroristas de esquerda estão um bocado atrás, tendo tirado “apenas” 23 vidas. Entretanto, três quartos das vítimas de grupos de extrema-direita foram mortas no atentado a bomba de 1995 em Oklahoma, há 22 anos. Mais da metade dos assassinatos por parte de grupos de esquerda ocorreu desde o início de 2016.

Mas, espere. Não deixemos que os fascistas e antifascistas nos distraiam da mais significativa fonte de violência política das duas últimas décadas: extremistas islâmicos, que mataram 10 vezes mais pessoas do que grupos de extrema-direita nos EUA desde 1992. Verdade, a maioria dessas pessoas morreu no 11/9, mas os islamitas ainda lideram a lista significativamente.

De acordo com dados mais recentes, quase 35 mil pessoas foram mortas por terroristas no mundo durante o ano passado. A grande maioria foram vítimas de grupos islamitas como o Estado Islâmico, o que inclui as 49 pessoas assassinadas em uma boate de Orlando em junho. A semana passada não foi atípica: uma morte em Charlottesville, mas pelo menos 15 em Barcelona. Pode haver apenas uma tática hoje em dia – atropelamento com veículos. Só que mais de um lado está fazendo isso.

Não lembro de Joe Biden, nem muito menos de seu chefe, tuitando “há apenas um lado” depois de uma atrocidade islamita. Ao contrário, o presidente Obama muitas vezes usou de sua considerável eloquência para dizer exatamente o oposto. Em seu discurso depois dos ataques de Bengasi, na Líbia, em 2012, ele chegou a dizer “o futuro não pertence àqueles que caluniam o profeta do Islã”, como se houvesse equivalência moral entre jihadistas e aqueles com coragem de falar criticamente sobre a relação entre o Islã e a violência.

Semana passada, um dos empresários que repudiam Trump, Tim Cook, da Apple, anunciou uma doação de um milhão de dólares à ONG Southern Poverty Law Center. Porém, essa organização classificou Ayaan Hirsi Ali (no caso, minha esposa) e nosso amigo Maajid Nawaz de “extremistas antimuçulmanos”. A palavra “extremista” deveria ser usada apenas para aqueles que pregam ou praticam violência política, sejam eles de direita, de esquerda, ou islamita.

Trump errou semana passada, sem dúvida. Mas enquanto o jogo vira contra ele, devemos observar com cuidado a favor de quem ele vira – ou no que se transforma esse favorecido. Se o Vale do Silício traduz “há apenas um lado” em “censure tudo o que a esquerda classifica como ‘discurso de ódio’”, então o favorecido se torna o perdedor.

(Via Boston Globe)