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Christopher Hitchens: Deus não é grande

The trail goes on, ilustração em homenagem a Hitchens, por Bengie/2011
The trail goes on, ilustração em homenagem a Hitchens, por Bengie/2011

No dia 15 de dezembro, completaram-se cinco anos do falecimento do jornalista e escritor britânico Christopher Hitchens, falecido em 2011.

Hitchens veio ao Fronteiras do Pensamento no ano de 2007, na primeira edição do projeto, para abordar aquele que seria seu livro mais conhecido, Deus não é grande, também título de sua conferência.

A obra é considerada uma das principais do grupo chamado Os quatro cavaleiros do ateísmo, que também conta com a presença de Richard Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris, como ilustra a imagem em destaque neste post, a partida de um dos cavaleiros.

Dawkins, que conheceu Hitchens já no final de sua vida, proferiu diversas palestras ao lado do amigo. Mais ainda, a última aparição pública de Christopher Hitchens, antes de seu falecimento por causa de uma pneumonia decorrente de seu câncer no esôfago, em 2011, foi na cerimônia de entrega do Richard Dawkins Award, na Texas Freethought Convention, no mesmo ano.

Sobre Hitchens, Dawkins já declarou: "Eu o admirava enormemente. Creio que ele era o melhor orador que já ouvi. Belamente ponderado, era veloz em suas bases, um erudito repleto de recursos e instigante ao mesmo tempo. Foi uma perda imensa para todos."

Em homenagem a Christopher Hitchens, divulgamos um excerto exclusivo de sua conferência para o Fronteiras do Pensamento. Leia abaixo Deus não é grande:

Mentir para as crianças sobre o inferno, aterrorizar criancinhas com imagens de tortura eterna é exclusivamente um pecado religioso. Nenhuma pessoa secular maltrata crianças dessa maneira, tampouco mentimos para elas. E mentir para crianças é uma ofensa moral muito grave. Tampouco, mentimos para elas sobre subornos do paraíso.

A escravidão no Velho Testamento é a justificativa original para a escravidão. O genocídio no Velho Testamento é a justificativa original para o genocídio. Essas duas desculpas que têm sido usadas há muitos anos não teriam o crédito de pessoas inteligentes se não parecessem originar-se de uma autoridade divina.

E então, sem esgotar o assunto, quero dizer que a religião não é somente produzida pelo homem, pois é obviamente criada pelo ser humano, não criada por Deus, mas é também produzida pelo homem no sentido masculino. E não acredito que vocês possam me mostrar alguma religião, monoteísta ou politeísta, que não seja voltada à subordinação das mulheres em relação aos homens, à sujeição das mulheres à vontade dos homens, e ao insulto às mulheres, até mesmo por sua natureza.

Não existe uma pregação da religião, católica, protestante, judaica ou muçulmana, que não mostre o medo assustador da vagina feminina, às vezes expresso no culto tolo ao parto imaculado – não existe um único Deus que tenha nascido por meios naturais, existe um culto ao parto imaculado que se perde nas brumas do tempo –, ou o medo doentio do sangue menstrual, que é comum a todas as religiões e, na maioria das vezes, nega o sacramento às mulheres durante esse período. Nada poderia tornar mais claro que a religião se baseia em uma forma de repressão egoísta, cruel, gananciosa, repulsiva e ofensiva.

Permitam-me colocar isso da seguinte forma: tenho dois desafios para aqueles que dizem que religião e moralidade estão relacionadas de alguma maneira. O primeiro desafio é o seguinte: vocês devem citar uma afirmação moral ou uma ação moral conduzida por uma pessoa que crê que não poderia ser feita ou conduzida por alguém que não crê. Esse é o primeiro desafio, e o apresentei por escrito na televisão, em público e no rádio, por todos os lugares dos Estados Unidos e na Europa. Até agora, esta a primeira vez que o apresento na América do Sul. Jamais cruzei com alguém que pudesse dar uma resposta a esse desafio.

Vou repeti-lo: Vocês devem encontrar uma afirmação ética ou moral feita ou uma ação moral realizada por um crente que não poderia ser feita ou realizada ou reproduzida por um não-crente. Esse é o primeiro desafio.

O segundo desafio é bem mais fácil: vocês devem pensar em uma afirmação perversa feita ou uma ação perversa realizada que só poderia ser feita ou realizada de acordo com uma instrução divina ou por alguém que acreditasse estar realizando uma obra de Deus. Para o último caso, ninguém vai precisar de tempo adicional para encontrar um exemplo, tenho absoluta certeza.

Embora seja esse o caso, parece-me totalmente absurdo que tenhamos de dar ouvidos a pessoas que dizem que seja a religião verdade ou não, metafórica ou metafisicamente falando, pelo menos é moral.

Acredito que o impulso religioso deveria ser resistido por uma única razão, se é que é possível dar uma única razão: porque ele representa a origem do totalitarismo. E a origem do totalitarismo não está, como às vezes somos levados a pensar, na vontade dos outros, na vontade de ter poder absoluto sobre nós. Evidentemente, existe essa vontade de poder, de poder absoluto em relação à posse completa do controle total sobre outro ser humano. Sim, sabemos que existem os que desejam isso, os que sonham com isso, que fantasiam sobre isso.

Mas a tarefa é facilitada por aqueles que desejam ser dominados dessa maneira, que querem ser escravos, que não desejam ser livres, que querem que todas as decisões sejam tomadas por eles. E nós, com uma parte de nós mesmos, somos com frequência os cúmplices, os cúmplices masoquistas destes, dos sádicos, que desejam o total domínio sobre a nossa vida pública e privada.

E essa é a definição de um totalitário verdadeiro, total: a abolição da diferença entre a vida pública e a privada, a dissolução do conceito de privacidade. Os que querem que haja um Deus que vigie cada ação e cada pensamento, quando você está acordado, quando dorme, antes de você nascer, durante sua vida e após a sua morte.


A conferência completa Deus não é grande pode ser lida na obra Pensar o contemporâneo, que faz parte da série Pensar, à venda nas livrarias e no site da Arquipélago Editorial.

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