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Damásio e a descrição neurobiológica do self

António Damásio, neurocientista português, é mundialmente reconhecido por suas pesquisas, que apontam as bases neurais das emoções. Próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento (POA, 24/06; SP, 26/06), Damásio é responsável por estudos que ajudaram a ciência atual a compreender o papel das emoções nas tomadas de decisão, na memória, na criatividade e na comunicação.

Leia abaixo o artigo da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental (psicopatologiafundamental.org), que analisa como as neurociências têm proposto novas narrativas da mente a partir do ponto de vista biológico. O autor, Sergio Gomes da Silva*, aponta como essas disciplinas descrevem o nosso "eu" a partir das contribuições de António Damásio.

Muitos outros autores já descreveram biologicamente a subjetividade humana. Daniel Dennett [foto à esquerda, com António Damásio] foi um deles ao abordar a noção de "eu" ou self a partir da ruptura da subjetividade e do psiquismo com a natureza ou o organismo, inserindo - a na ordem dos processos biológicos. O "eu", para Dennett, é um "eu biológico" influenciado pelas injunções do meio e diferenciando-se de outros "eus" por meio da própria evolução. Para esse autor, o "eu" é completamente desprovido de substância, é descentrado, clivado e sem essência, em um contínuo processo de autoengendramento.

Muito próximo dessa definição encontra-se a noção de "eu" e "subjetividade" em Damásio. Ilustremos com dois casos estudados pelo autor.

O primeiro deles trata-se de Phineas Gage: um rapaz de 25 anos, morador de uma cidade na Nova Inglaterra, que trabalha na Estrada de Ferro Ruttland & Burlington assentando trilhos numa ferrovia em Vermont. É definido como um trabalhador eficiente e capaz pelos seus superiores. Sua tarefa consiste em explodir minas nas rochas para abrir caminho por onde passarão os trilhos. Para tanto, é preciso fazer buracos na rocha, enchê-los com pólvora até a metade, adicionar o rastilho e cobrir a pólvora com areia, que por sua vez é calcada com uma barra de ferro mediante algumas pancadas com o martelo, para posteriormente acender o rastilho e explodir a rocha com a pólvora. Gage é metódico, mas um descuido nessa tarefa faz com que ocorra um acidente sem precedentes. Antes de um ajudante colocar a areia sobre a pólvora, Gage martela a barra de ferro. Dá-se uma explosão diretamente no seu rosto. A barra de ferro, porém, entra pela face esquerda de Gage trespassando a base do crânio.

Gage, como se sabe, não morreu, mas após a remoção cirúrgica da barra de ferro, e depois de enfrentar uma dolorosa recuperação do acidente, "Gage deixou de ser Gage", transformando-se em um trabalhador irresponsável, não conseguindo manter-se mais em nenhum emprego, apresentando diversos desvios de comportamento, tendo a saúde deteriorada em 1859, vindo a falecer em 1861. Seu crânio foi estudado por diversos médicos neurologistas da época e seu caso entrou para a literatura como prova de que lesões cerebrais afetam não só o corpo, mas também a personalidade e o comportamento dos indivíduos.

Descrito como o Phineas Gage moderno, o segundo caso refere-se a Elliott. Elliott foi um paciente de António Damásio que chamou sua atenção em vista do diagnóstico médico que o encaminhou. O paciente havia sofrido uma alteração radical da personalidade e os médicos queriam saber se esse tipo de comportamento era, na verdade, alguma doença rara. Elliott, segundo Damásio, era um homem inteligente, competente e robusto que necessitava ser chamado à razão para voltar ao trabalho visto que ele apresentava comportamento "preguiçoso" apesar de suas capacidades mentais estarem inatas. Ele tinha conhecimento do mundo à sua volta, discutia assuntos políticos, conhecia a situação econômica e suas capacidades profissionais pareciam estar inalteradas. Era um bom pai e um bom marido até aquela ocasião, porém após o diagnóstico de um tumor cerebral seguido de uma cirurgia para a sua retirada, Elliott passou a exibir mudanças na sua personalidade. Era incapaz de se arrumar sozinho para o trabalho. Quando lá chegava, parava a todo instante, pois uma tarefa se ocupava de outra. Passou a desenvolver hábitos de colecionador e tinha dificuldade em tomar decisões próprias. Enfim, Elliott tornara-se o novo Phineas Gage, e isso serviu para, mais uma vez, provar que lesão em um dos hemisférios cerebrais era capaz não só de afetar a dinâmica do corpo - os movimentos, os sentidos ou a percepção destes -, mas também a personalidade ou a identidade do sujeito.

Damásio passa, então, a argumentar em favor de uma certa "biologia da mente e da subjetividade" ao afirmar que não é exagero postular a mente como resultante das interações entre o cérebro e o corpo em termos da biologia evolutiva, ontogenia e funcionamento atual.

O que estou sugerindo é que a mente surge da atividade nos circuitos neurais, sem sombra de dúvida, mas muitos desses circuitos são configurados durante a evolução por requisitos funcionais do organismo. Só poderá haver uma mente normal se esses circuitos contiverem representações básicas do organismo e se continuarem a monitorar os estados do organismo em ação. Não estou afirmando que a mente se encontra no corpo. Mas que o corpo contribui para o cérebro com mais do que a manutenção da vida e com mais do que efeitos modulatórios. Contribui com um conteúdo essencial para o funcionamento da mente normal.

É a partir dessa argumentação que o autor vai discutir as bases neurais do "eu". Para Damásio, o "eu" é um estado biológico constantemente reconstruído. Para ele, ter um "eu" está pautado na "unicidade do ser", ou seja, ter um "eu único" que nos particulariza e nos individualiza. Esta definição é perfeitamente compatível com a noção de Daniel Dennett de que não possuímos um "teatro cartesiano" em lugar do nosso cérebro, ou, dito de outro modo, o que Damásio postula é que há um "eu" para cada organismo exceto nas situações de doença mental, tais como nos casos de personalidade múltipla, ou ainda naqueles casos em que o "eu" foi diminuído ou foi eliminado, tais como nos casos de distúrbios da imagem corporal - anosognosia ou determinados tipos de epilepsia.

Mas, adverte ele, o "eu" que confere subjetividade à nossa experiência subjetiva não é um "impostor central" de tudo o que acontece nas nossas mentes, é necessário que diversos dispositivos corporais e cerebrais estejam em perfeita sincronia.

Para que o estado biológico do eu se verifique, é necessário que diversos sistemas cerebrais, bem como os inúmeros sistemas do corpo, estejam funcionando plenamente. Se você cortasse todos os nervos que levam sinais do cérebro para o corpo, seu estado do corpo alterar-se-ia radicalmente e, como consequência, o mesmo sucederia com sua mente. Se desligasse apenas os sinais do corpo para o cérebro, sua mente também se alteraria. Mesmo o bloqueio parcial do circuito cérebro-corpo, como sucede em doentes com lesões na medula espinhal, basta para ocasionar alterações do estado mental.

Ao afirmar que o "eu" ou o self é, em síntese, biológico e fomentado por disposições neurais através do córtex cerebral, Damásio defende a ideia de que esse "eu" é continuamente ativado por dois conjuntos de representações: as representações de acontecimentos-chave na autobiografia do indivíduo, no qual é possível reconstituir a noção de identidade a partir da ativação parcial de mapas sensoriais dotados de organizações topográficas, e as representações primordiais do corpo do indivíduo - peça-chave para a construção da imagem do corpo e para a noção de "eu" e da nossa "subjetividade". Sempre que nos reportamos ao self nós nos reportamos à ideia de identidade e ao conjunto de características que definem um indivíduo.

As primeiras representações formam um tipo de self o qual Damásio denominou de "self autobiográfico" (ou "eu autobiográfico", se quiserem). Esse tipo de representação dispositiva que descreve nossa autobiografia envolve um conjunto de fatos que definem uma pessoa - o que fazemos, do que e de quem gostamos, quais tipos de objetos usamos, que locais costumamos frequentar, que tipo de interação temos com o ambiente que nos rodeia, onde moramos e com quem trabalhamos, quem somos e quem são nossos amigos, quais seus nomes e nomes de parentes próximos e distantes etc. O "self autobiográfico", portanto, depende das lembranças sistematizadas de situações que ocorrem durante o processo de vigília ao longo de toda a vida de um indivíduo, gerando aquilo que Damásio denominou de "memória autobiográfica".

O segundo tipo de representações forma um outro tipo de self, o chamado "self central". Nesse tipo de representação dispositiva está incluída a "memória do próprio corpo", ou seja, tudo aquilo que o corpo foi e tem sido na sua relação com o conjunto de interação entre ele e o ambiente interno e externo. De acordo com Damásio, a subjetividade depende, em grande parte, das alterações que têm lugar no estado do corpo durante e após o processamento de um determinado objeto, e abrange aquilo que ele denomina de sentimentos de fundo do corpo e os sentimentos emocionais. O autor ainda complementa: a representação coletiva do corpo constitui a base para o conceito de "eu" ou self. Tanto na evolução da espécie como no desenvolvimento do próprio sujeito, os sinais iniciais do corpo ajudam a construir um conceito de self ("eu") e é a referência de tudo o que pode acontecer ao organismo. Dito de outro modo, a cada instante, o estado do self é construído a partir da base.

*Sergio Gomes da Silva: Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RIO (Rio de Janeiro, RJ, Br)

Silva, Sergio Gomes da. (2010). Para uma neurobiologia do eu: uma contribuição às teorias da subjetividade. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 13(1), 71-86. Leia o texto na íntegra, com notas e referências em: Scielo.br