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Deirdre McCloskey e o Mito do Desemprego Tecnológico

Se o pesadelo do desemprego tecnológico fosse verdade, ele já teria ocorrido em massa e diversas vezes ao longo da história, afirma Deirdre McCloskey, próxima conferencista do Fronteiras do Pensamento, em artigo traduzido pelo Fronteiras. 

"Na década de 1800, quatro de cada cinco norte-americanos trabalhavam em fazendas. Hoje, é apenas um em cada 50, mas o advento do cultivo mecânico e do milho híbrido não deixou os outros desempregados", explica a economista, que traça um panorama histórico para defender que a tecnologia não apenas não "rouba" empregos, mas como também auxilia no crescimento do mercado e na qualificação do trabalho. 

McCloskey também lembra que a função da economia é estimular e criar novos mercados e não estagná-los para manter os trabalhos já existentes. E que as políticas contra a inovação acabam por manter a sociedade e a economia sempre iguais, o que é bom para quem está confortável, mas péssimo para os jovens e para os pobres. 

Deirdre McCloskey é professora emérita de Economia, História, Inglês e Comunicação na Universidade de Illinois em Chicago e premiada autora de vários livros, como a trilogia A Era da Burguesia. Reconhecida por sua defesa da liberdade na economia, da ética e da defesa das pessoas transgênero, McCloskey sobe ao palco do Fronteiras do Pensamento no início de novembro (POA, 06; SP, 08).


O Mito do Desemprego Tecnológico | por Deirdre McCloskey

Sendo um leitor sagaz, você já sabe que mudanças tecnológicas fizeram com que vagas de emprego na indústria manufatureira deixassem a cidade de Youngstown, no estado de Ohio. 

Você sabe que a maior parte dessas vagas migrou para outras cidades norte-americanas, como Houston ou Chattanooga. Você sabe que os empregos de mineração de carvão na região dos Montes Apalaches jamais voltarão aos níveis anteriores, porque novas técnicas reduziram o preço do gás natural de forma permanente. 

Você sabe que o bode expiatório da gestão Trump, a concorrência internacional, tem pouca responsabilidade por qualquer um desses processos. E, quando de fato há influência estrangeira, você sabe que isso é bom, e não ruim, para a maioria dos norte-americanos.

Ainda assim, muitas pessoas com bom discernimento estão aflitas. O desemprego tecnológico não é um problema grave e real? Pessoas alheias ao campo da Economia e com uma queda por análises quantitativas estão aflitas com o que acontecerá quando todos os trabalhos desaparecerem – quando, digamos, veículos autônomos substituírem os 3,5 milhões de caminhoneiros dos Estados Unidos.

Até mesmo alguns economistas – e economistas brilhantes! – acham que estamos em apuros. Robert Gordon, da Universidade Northwestern, sugere isso em seu livro recente The Rise and Fall of American Growth [Ascensão e Queda do Crescimento Americano]. Tyler Cowen, da Universidade George Mason, faz o mesmo em Average is Over [O médio não existe mais]. O grandioso, embora equivocado, John Maynard Keynes acreditava que perderíamos empregos com a tecnologia. Também era o caso do ainda mais grandioso David Ricardo.

Eles estavam errados.

Por algum motivo, pessoas no geral bastante sensatas morrem de medo de robôs. Ainda assim, os resultados da automação têm um saldo final positivo. Trabalhadores trocam funções ingratas na linha de montagem por outras melhores, em que monitoram robôs, vestem jalecos brancos e recebem salários maiores proporcionados pela tecnologia mais avançada. Ou, ainda melhor, passam a trabalhar fora da indústria automobilística, e recebem mais porque as pessoas podem comprar as coisas que os robôs estão fazendo a preços radicalmente menores.

Se os novos trabalhos não pagam melhor, provavelmente é porque o sindicato automobilístico conseguiu extrair o lucro de monopólio da empresa e, assim, dos consumidores. 

Robert Reich, uma fonte confiável de erros éticos e factuais docemente esquerdistas, declara que “o declínio do sindicalismo [em empresas privadas] está diretamente correlacionado ao declínio da fração dos faturamento que a classe média recebe”. 

Mas, pagar a trabalhadores selecionados na linha de montagem mais do que eles poderiam receber em qualquer outro lugar às custas da capacidade de outros trabalhadores, às vezes mais pobres, de comprar carros está longe de ser uma fórmula ética para beneficiar a classe trabalhadora.

Quando uma fábrica da Ford instalou robôs, Walter Reuther, que foi presidente do sindicato dos Trabalhadores Automotivos Unidos muito tempo atrás, teria dito a um gerente: “Como você irá convencê-los a comprar Fords?”. 

Porém, o argumento de Reuther é falacioso. Empregados da indústria automobilística são uma parcela trivial do público consumidor de carros. Não se pode criar prosperidade apenas com as compras de seus próprios funcionários.

Reich acusou os seguintes elementos de reduzir os salários nos Estados Unidos: “automação, seguida de computadores, software, robótica, ferramentas mecânicas controladas por computador e digitalização generalizada”. 

Mas, na verdade, essas inovações aumentaram os salários reais, se corretamente calculados, porque um ser humano equipado com ferramentas melhores tem maior produtividade. E a razão de ser de uma economia é produzir para o consumo, e não proteger os trabalhos existentes.

Pense no registro histórico: se o pesadelo do desemprego tecnológico fosse verdadeiro, ele já teria ocorrido em massa e diversas vezes. Na década de 1800, quatro de cada cinco norte-americanos trabalhavam em fazendas. Hoje, é apenas um em cada 50, mas o advento do cultivo mecânico e do milho híbrido não deixou os outros desempregados.

Em 1910, um em cada 20 trabalhadores norte-americanos trabalhava nas ferrovias. No final dos anos 1940, 350.000 operadores manuais de telefone em atividade apenas para a AT&T. Nos anos 1950, centenas de milhares de operadores de elevador perderam seus empregos quando os usuários começaram a apertar os botões. Datilógrafos desapareceram dos escritórios. 

Mas, se ferreiros que perderam seus empregos após o surgimento de carros ou técnicos de manutenção de TV que ficaram desempregados após os circuitos impressos jamais tivessem arrumado outra ocupação, a taxa de desemprego não seria de cinco por cento, ou dez nos anos ruins. Seria de 50 por cento, e estaria crescendo.

A cada mês, 1,7 milhão de trabalhos desaparecem nos Estados Unidos – um país com cerca de 160 milhões de postos para civis. A cada 30 dias, em uma manifestação perfeitamente normal da criação destrutiva, cerca de um por cento dos trabalhos têm o mesmo destino que as governantas tiveram em 1910. 

Não é que as pessoas estejam se demitindo: as vagas simplesmente deixam de existir. As empresas fecham, ou são fundidas e enxugadas, ou simplesmente alguém decide que ter um vendedor extra na loja de departamento não vale mais a pena.

O que você escuta no jornal da noite é o balanço líquido mensal de aumento ou queda de empregos disponíveis – nos meses bons, há um crescimento de cerca de 200.000 postos. Mas, o que aqueles preocupados com o desemprego tecnológico levam em conta é o dado bruto de um por cento de vagas fechadas por mês. 

Em um cálculo básico, isso representaria um crescimento de mais de dez por cento ao ano. Nesse ritmo, se o desemprego fosse de fato permanente, bastariam poucos anos para que um terço da força de trabalho estivesse fazendo fila nas esquinas, e os números continuariam a crescer. Em 2000, bem mais de 100.000 pessoas trabalhavam em locadoras de vídeo, mas hoje seus funcionários não estão nas ruas reivindicando medidas vagas.

Poderíamos “salvar os empregos das pessoas” acabando com a inovação. Ano que vem, você faria exatamente o que fez neste ano. O capital, assim como o trabalho, seria utilizado para sempre da mesma forma. Mas teríamos para sempre o mesmo salário. Pode parecer uma boa se você se encontra em uma posição confortável. Mas não tão soa tão bem se você é pobre e jovem.

De fato, as proteções trabalhistas para idosos já criaram uma classe perigosa de jovens desempregados ao redor do mundo – 50 por cento entre os gregos ou os negros sul-africanos, por exemplo.

Auxiliar aqueles acometidos pela pobreza é um ato louvável. Mas não podemos subsidiar 1,7 milhão de pessoas por mês. A reciclagem de profissionais imposta de cima tampouco é uma boa ideia: mesmo as cabeças mais sábias de Washington não sabem como o futuro será, e acabarão ensinando as pessoas a operarem máquinas para empresas que não existirão. 

Os próprios trabalhadores sabem melhor como se reciclarem ou realocarem, como fizeram as centenas de milhares que se mudaram para a Dakota do Norte durante o breve boom do petróleo ocorrido no estado. Queremos que a força de trabalho seja tão flexível quanto o capital. E para tanto precisamos de liberdade, não de programas governamentais.

No espírito de John Rawls, deveríamos perguntar em que tipo de sociedade gostaríamos de nascer caso não soubéssemos que posição ocuparíamos nessa sociedade. Uma sociedade em que todos os trabalhos são protegidos e os burocratas decidem quem recebe ou não subsídios, levando a economia à estagnação e a altos níveis de desemprego para a juventude, como ocorreu na França? 

Ou uma sociedade em que as leis trabalhistas sejam flexíveis, os trabalhadores individuais decidam seu próprio futuro e a economia ajude a melhorar a vida daqueles de nós que somos pobres?

Faça sua escolha, e então pare de se preocupar com o desemprego tecnológico.


deirdre mccloskey

Via Reason

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