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É possível ser uma pessoa ética e estar engajada na busca por lucro?

Deirdre McCloskey é conferencista do Fronteiras 2017
Deirdre McCloskey é conferencista do Fronteiras 2017

Por mais de dois mil anos, filósofos e teólogos viram com suspeita a integridade daqueles que ganham a vida por meio das trocas nos mercados, contudo, se quisermos substituir o distanciamento da suspeita pela proximidade da compreensão histórica, é preciso transformar a visão que temos do comércio. 

É o que diz Deirdre McCloskey, que chega ao Fronteiras do Pensamento para abordar um dos fundamentos do tema proposto pelo projeto em 2017, civilização: como a constante e livre busca por novas ideias é, simultaneamente, o valor que rege os indivíduos e que constitui a história ocidental. Em artigo* exclusivo, o economista e cientista social Fernando Ribeiro Leite Neto explica a obra de McCloskey e o porquê da importância de seu extenso trabalho de pesquisa sobre a história da economia. 

IMPORTANTE: McCloskey também será convidada do Fronteiras Porto Alegre, substituindo o filósofo Alain Finkielkraut. A conferência com a economista acontece no dia 06 de novembro.


Desde 2006, McCloskey vem se dedicando a concluir um longo e profundo trabalho sobre a economia holandesa e britânica entre os séculos XVII e XIX. O primeiro volume, intitulado As Virtudes da Burguesia – Ética para uma Era do Comércio, publicado pela Chicago University Press, trata da recomposição da estrutura ética na Europa Ocidental (excluindo-se, naturalmente, a Península Ibérica).

Se anteriormente, durante toda a Idade Média e boa parte da Idade Moderna, há a prevalência de uma ética que valorizava a coragem dos nobres ou a fé dos clérigos, em algum ponto a partir do século XVII inicia-se uma transição ética, posteriormente, no século XVIII, galvanizada e catalisada pelo iluminismo e suas manifestações intelectuais (Kant, David Hume, Adam Smith) ou políticas (Revolução Americana).

Mas do que se trata essa Ética para uma Era de Comércio? É possível ser uma pessoa ética e simultaneamente estar engajado na busca por lucro? Por 2.500 anos filósofos e teólogos levantaram suspeitas sobre a integridade daqueles que ganham a vida por meio das trocas nos mercados.

Rousseau, já em pleno iluminismo e na iminência de profunda transformação da sociedade e da economia francesa, distingue claramente entre Bourgeois e Citoyen, o primeiro, avaro, egoísta e apartado. Um idiota no sentido etimológico da palavra. O segundo, dotado de direitos naturais, de dignidade e liberdade. Constituinte da Civitas. Cem anos depois, caberia a Marx perpetuar a incompatibilidade entre ética e lucro, uma perpetuação que se encontrará de Dickens a John Updike, de Antonioni a Oliver Stone, de Picasso a Andy Warhol.

McCloskey está empenhada em mudar tudo isso. Em primeiro lugar, cabe apontar a insuficiência do utilitarismo de Jeremy Bentham (fins do século XVIII). Também importa deslocar a relevância de Kant. Ambas as abordagens não esclarecem o conteúdo da ação ética.

Resta apenas a Virtude. Nesse ponto, compreende-se que se busca definir a Virtude da burguesia. A virtude burguesa se constitui por meio de uma curiosa articulação entre as quatro virtudes pagãs: coragem, justiça, temperança e prudência, e as virtudes teológicas da fé, esperança e amor. Em suma, engajar-se em mercados pela busca do lucro não requer apenas o reconhecimento da prudência como virtude superior.

Contudo, as Virtudes da burguesia representam apenas o “território filosófico” sobre o qual se construirá uma narrativa histórica cuja temática é uma nova valoração das virtudes burguesas, primeiro na Holanda após a emancipação do Império Espanhol (século XVII) e, posteriormente, ao longo do século XVIII, na Inglaterra e na Escócia, e por fim na França, no século XIX. 

Essa é a temática do segundo volume da sua trilogia: emerge a dignidade burguesa, vale dizer, a validação ética da busca pelo lucro. Emerge também a valoração da liberdade burguesa, ou seja, o anseio expresso pelos manufatureiros e comerciantes franceses a Colbert: laissez-nous faire.

Mas o ponto fundamental, sobre o qual se elevarão ruidosas polêmicas com historiadores do peso de Joel Mokyr, é a prevalência das ideias no desenvolvimento do processo histórico. Uma tese que se desenrola desde o primeiro volume da trilogia e que se aprofunda na conclusão dos três livros: A Igualdade Burguesa – Como Ideias e não Capital ou Instituições Enriqueceram o Mundo, provavelmente o centro de sua exposição no Fronteiras do Pensamento.

Não foram as acumulações seculares de capital físico ou intelectual que criaram o “Grande Enriquecimento”, uma variação de 2.900% da renda média mundial entre 1800 e 2000. Tampouco teriam sido as instituições, como em geral defendem os economistas do Banco Mundial.

McCloskey argumenta que ambos os elementos – acumulação de capital e instituições – são apenas intermediários, meios, em um processo cujo dinamismo está na valoração de duas ideias.

Primeiro, o Liberalismo no sentido do que ela chama de igualdades escocesas: igualdade formal perante a lei e igualdade de dignidade. Esta última, algo como o processo de igualitarismo documentado posteriormente por Toqueville.

Mas também, e talvez de forma mais ancestral e sedimentar, o Liberalismo significa a “[...] linha liberal de liberdade, justiça e igualdade [...]” defendida por Adam Smith em A Riqueza das Nações. Segundo, a ideia de inovação, de mudança tecnológica. Em uma palavra, o conceito de destruição criativa de Schumpeter.

schumpeter

De fato, a dinâmica da inovação apresentada por McCloskey é claramente a trajetória do empresário empreendedor descrita por Schumpeter em Teoria do Desenvolvimento Econômico e posteriormente em Capitalismo, Socialismo e Democracia.

McCloskey é uma importante voz no adensado coro de cientistas sociais que celebra o capitalismo. Seu foco está em sustentar que os mercados nos enriquecem não apenas materialmente, por meio da burguesa virtude da prudência.

Mas que os mercados nos trouxeram uma combinação historicamente inusitada e muito própria ao Ocidente: liberdade, igualdade e enriquecimento. E que esses três elementos constituem simultaneamente a Virtude e a História ocidental.


deirdre mccloskey

FERNANDO RIBEIRO LEITE NETO é economista, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Professor do Departamento
de Economia da PUC-SP e do Insper.

*Leia o artigo na íntegra no libreto especial de Deirdre McCloskey