Voltar para Artigos

Ferreira Gullar: um poeta comprometido com o tempo

Considerado um dos mais importantes poetas brasileiros, Ferreira Gullar, falecido no dia 04 de dezembro de 2016, teve uma extensa e premiada trajetória na cultura do país. Atuou como locutor de rádio, editor de revistas literárias e revisor de O Cruzeiro, além de crítico cultural no Diário Carioca e no Jornal do Brasil. Consagrou-se como poeta em busca do aperfeiçoamento da própria voz literária.

Em 2002, foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura por nove professores de universidades no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos. Em 2010, recebeu o Prêmio Luís de Camões, reconhecido prêmio literário para autores de língua portuguesa. Em 2011, foi agraciado com o Prêmio Jabuti com o livro Em alguma parte alguma. Em 2014, tomou posse na Academia Brasileira de Letras.

Ferreira Gullar definia a poesia como um modo de inventar a vida. Para ele, o poema era algo que as circunstâncias determinam e que surgia a partir de uma descoberta inesperada: “Tem de haver espanto, não se faz poesia a frio", declarou.

Em artigo exclusivo para o Fronteiras do Pensamento, extraído do libreto preparatório para a conferência com o poeta, em 2015, Viviana Bosi* descreve e comenta a vida do artista, interligando ideais, ideias e movimentos que fizeram de Gullar um dos grandes imortais brasileiros. Confira abaixo:

A trajetória de Ferreira Gullar, tanto em sua obra poética quanto em seus estudos de estética, procurou sempre responder às inquietações culturais de nossa época. Desde os anos 1950, o poeta vinha participando dos debates políticos e artísticos mais significativos do país.

Nascido em 1930, em São Luís do Maranhão, José de Ribamar Ferreira (seu nome de pia) estreou com Um pouco acima do chão (1949), livro que não divulgou por considerá-lo imaturo. Sua verdadeira obra inicial, aquela que o tornou conhecido como poeta, é A luta corporal (1954), publicada quando o jovem Gullar já havia se mudado para o Rio de Janeiro, onde viveu até sua morte.

O título anuncia um dos aspectos nodais de sua busca naquele momento: a intensidade com que desejava enfrentar a linguagem. Insatisfeito, o jovem poeta ensaia diversos caminhos, ora através do lirismo, ora através das iluminações, ora através da franca destruição, corroendo a língua, explodindo as próprias palavras.

Em toda sua obra, desde aquele volume inaugural, Gullar reclama uma poesia presente, na carne das coisas, nos barulhos do dia, como se a linguagem não existisse antes do poema: “eu não podia mais me ater a normas prontas, eu tinha de descobrir no processo a forma do poema, e esta é, enfim, a essência do livro A luta corporal", em uma intensidade de procura que passa pela destruição, até chegar aos escombros do som e à “sabedoria do corpo", à “fala brotando em silêncio" (“Reinvenção da poesia", em Indagações de hoje).

A necessidade de uma nova poesia afina-se com o então jovem movimento concreto em fins dos anos 1950. Assim como compõe alguns poemas visuais, recusando o discursivo em nome de uma linguagem mais substantiva, também se interessa pela arte neoconcreta, que então se encaminhava para criar formas plásticas que rompessem com modelos anteriores de pintura e escultura. É dessa época o influente manifesto “Teoria do não-objeto" (1959), ao lado de outros ensaios críticos de reflexão sobre arte.

Propunha aproximar-se do organismo vivo, ressaltando a importância do tempo mais do que do espaço. Embora concordasse com os concretos quanto ao repúdio da “sintaxe unidirecional", apoiava, junto aos outros artistas que subscreviam o “Manifesto neoconcreto", a volta ao “verbo", que considerava mais expressivo. Sugere-se o conceito de um espectador participante nessas primeiras experiências com poemas-objetos, que necessitam da ação interativa de um interlocutor para realizar-se como significado pleno.

A consciência do hiato irresolúvel entre mundo e palavra vai manter-se constante em sua obra, e terá aguda conexão com o problema da matéria da vida e de sua relação com a poesia.

Amigo de Mário Pedrosa, que muito o influenciou, todo o seu empenho teórico para compreender as inovações de Lygia Clark e Helio Oiticica naquele período segue na direção de imaginar uma arte que superasse a representação: o “não-objeto" deveria ser uma “presentação" de algo que seria como uma experiência primeira, anterior aos nomes e coisas já classificadas (“Teoria do não-objeto", 1959).

A “tensão", nesse caso, dá-se entre o momento vivo de criação do poema e sua posterior solidificação como parte da cultura (que ele afirma e nega, gerando uma dimensão própria). Esse conflito deveria transparecer no interior da obra, uma vez que, segundo afirmava, “A arte não é uma atividade de segundo grau, mas um ato primeiro que muda o mundo" (“O tempo e a obra", 1961).

No começo da década de 1960, período de grandes esperanças de transformação do quadro social brasileiro, Gullar se envolve ativamente nas discussões dos Centros Populares de Cultura (CPC), disposto a fazer uma poesia de cunho político e alcance popular. Compõe algumas narrativas em verso incorporando a fatura do cordel, como “João Boa Morte: cabra marcado para morrer".

Mas logo se abate sobre o país o golpe militar, e o poeta, na época presidente do CPC da UNE, tenta resistir, participando da confecção de espetáculos de música e de teatro que se opusessem ao regime. Decide filiar-se ao PCB assim que recebe a notícia de que se instalou a ditadura. Nesse período, publica ainda Vanguarda e subdesenvolvimento (1969), importante discussão sobre a cultura brasileira, entre o localismo e o cosmopolitismo. Acaba por ser perseguido, torna-se clandestino e, afinal, precisa fugir, exilado do país.

Seu testemunho poético desses anos conturbados é a coletânea Dentro da noite veloz, reunião de poemas compostos entre 1962 e 1975, em que a denúncia se enlaça ao sonho de outro futuro. As imagens, aderidas ao concreto, mesclam-se à simultaneidade dos tempos e espaços, ampliando-se a respiração dos poemas, a anunciar o que estava por vir, o Poema sujo, concebido na Argentina em tempos sombrios.

Como se sabe, Vinícius de Moraes gravou o longo poema recitado por Gullar e trouxe a fita para o Brasil em 1975, de modo que aqueles versos, ouvidos coletivamente por amigos saudosos, acabaram, à revelia da lei, por puxar de volta a pessoa do poeta cuja voz se fizera primeiro ouvir como uma encarnação do desejo de liberdade que então se anunciava.

No Poema sujo, realiza-se um envolvimento visceral com a memória, pois a linguagem lírica se alargou para recebê-la. O exílio levou o poeta a expressar uma subjetividade solitária embora, paradoxalmente, agora sim múltipla e solidária.

Lembranças de coisas e pessoas do passado voltam a existir, posto que fragmentadas, assim como o anseio veemente pelo clarear do dia, íntimo ainda que mediado pela distância física e psíquica. A pluralidade de tempos e vozes que o poema convoca, fazendo irromper o menino e o adolescente dentro do homem, seja em breves sequências narrativas, seja pela imersão nas sensações vivenciadas (fiapos de cor, luz, cheiros que se entramam dentro de si), torna-se igualmente uma multiplicidade de perspectivas que se reflete no próprio processo de composição, elaborado como montagem e colagem de núcleos independentes, mas afinal interagindo e encaixando-se polifonicamente.

No extraordinário “Figura-fundo", começa por sustentar que “a pera pintada é falsa" para afinal concluir que se pode atingir uma “pintura-pera", tão profundamente verdadeira quanto as frutas naturais.

Para falar com Merleau-Ponty, também Gullar considera o encontro com “o coração das coisas", quando o pintor não representa mais o mundo, mas ambos se criam pela fusão entre quem vê e o que é visto.

Não existe separação entre “figura" e “fundo", uma vez que a “pera pintada" nasce das palavras densas do poema. Logo, o “objeto" artístico não significa algo reificado e alheio, pois ocorre uma “transubstanciação do pintor em pintura", quando o artista se converte em “quadro-corpo". A diferença entre palavra e realidade, mesmo que irredutível, não pende em desvantagem para a primeira.

Se a fortuna crítica de Gullar demonstrou de diversas maneiras esse centro de irradiação determinante, “o trepidar do tempo que escorre da torneira" – poesia que, tanto através da sonoridade e da imagem quanto nos possíveis sentidos, se abisma inquieta sobre a transitoriedade humana –, também se observa que, depois de bater-se ao longo de toda sua obra com o contraste

entre mundo e arte, no qual esta ansiava por alcançar a consistência das coisas, em mais de um momento deste livro sugere a existência de algo que “fulge", ainda que se assemelhe a “um silêncio/ que o poeta exuma do pó", e

que vive ao revés, sem eximir-se da dor. Contudo, este ser híbrido segue existindo, invenção humana para respirar junto com e além da brevidade fugidia, pois “em algum lugar/ esplende uma corola"...


*Viviana Bosi é Professora no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, tendo defendido livre-docência com a tese Poesia em risco (itinerários a partir dos anos 60). Realizou pesquisa de pós-doutorado tanto na Universidade Nova de Lisboa quanto na Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro. Publicou John Ashbery, um módulo para o vento, dentre outros trabalhos, em geral sobre poesia brasileira.


ASSISTA TAMBÉM: Ferreira Gullar, poeta brasileiro, explica como nasceu um de seus principais e mais autobiográficos trabalhos, “Traduzir-se": “Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo".