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Fronteiras 10 anos: Camille Paglia

Paglia no Fronteiras São Paulo 2015 (foto: Greg Salibian)
Paglia no Fronteiras São Paulo 2015 (foto: Greg Salibian)

Camille Paglia é uma das conferencistas-chave na celebração de 10 anos do Fronteiras. A ensaísta norte-americana esteve na primeira edição do projeto, em 2007, em Porto Alegre; em 2008, na cidade de Salvador; e, em 2015, em São Paulo. Nestes nove anos que separam sua primeira e sua última vinda ao Fronteiras, não apenas o trabalho de Paglia evoluiu, abrangendo ainda mais esferas do pensamento como política e etnicidade, mas também sua influência aqui no país.

Críticos da ensaísta dizem não compreender o fenômeno Camille Paglia entre os brasileiros e chegaram a acusá-la de ser importante “apenas" no Brasil. Difícil de acreditar, já que ela conseguiu o feito de tornar um livro de poemas um best-seller nos EUA (Break, Blow, Burn), mas, se isso for verdade, temos muito a ganhar. Temos, também, muito a relembrar, pois há uma grande janela temporal de ideias de Paglia para compartilhar com vocês neste especial Fronteiras 10 anos.

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- Contardo Calligaris
- Valter Hugo Mãe
- John Gray

Confiram abaixo as respostas que Camille Paglia deu às perguntas enviadas pelo público do Fronteiras do Pensamento no momento pós-conferência.

RETORNO DA ARTE E DO SIGNIFICADO | Fronteiras do Pensamento Salvador, 2008
Quando falo de restaurar a arte e a cultura, não falo necessariamente das pessoas fazerem arte. Falo de uma confrontação com as grandes imagens do passado. Falo em introduzir isso aos jovens desde cedo. Vale a pena dizer, ainda, que uma educação multicultural não é apenas arte ocidental, é de todas as culturas, a tribal, a pré-histórica, a religiosa. A relação do homem com a natureza na cultura indígena, o animismo primitivo... É por isso o meu interesse na cultura baiana. Os cultos de Orixás são um grande exemplo do animismo.

Estamos em um período de grande nervosismo, de imagens cintilantes e fragmentação – e contemplar uma imagem como era antigamente, de forma religiosa, permite que o olho estude os objetos de maneira cada vez mais profunda. Isso tem um efeito sobre a pessoa, o cérebro se concentra, o ser interior se acalma. Estudos comprovam que há relação entre o movimento dos olhos e o cérebro. É por isso que as crianças não devem ser inundadas com imagens agressivas e rápidas, porque isso prejudica o cérebro em desenvolvimento.

Nós precisamos oferecer algo aos jovens que vá além do sucesso material. A resposta para isso é a arte. A arte é uma experiência espiritual. A arte é transcendental. A arte tem o poder de eletrificar e transformar a vida do ser humano. É uma forma de salvação deste vácuo contemporâneo. É isso que quero oferecer aos jovens.

Tenho grandes resultados nas aulas quando mostro artefatos do Egito Antigo, estatuetas da Idade da Pedra... Adoro esta ideia de mostrar aquele objeto precioso e frágil que sobreviveu ao tempo e de comparar isso com as ideologias atuais. Mas, na academia, o pós-estruturalismo acredita em tirar totalmente o significado, sabotar o significado dos objetos. Como se o significado fosse só um tecido de palavras. Isso é vandalismo. As maiores posições nas universidades de hoje são ocupadas por criminosos, em minha opinião. Muitos têm salários enormes pelo grande dano que causam à nossa cultura e aos jovens. Este é o grande pecado da nossa era: tolerar este tipo de ideologia destrutiva nas universidades.

IMAGENS CINTILANTES: ESTILO E ESPIRITUALIDADE NA ARTE | Fronteiras do Pensamento São Paulo, 2015
Meu objetivo com este livro é apresentar o desenvolvimento da história dos estilos ao público em geral. O estudo do estilo é algo que está desaparecendo. O estilo era um dos principais focos na história da arte, mas está sumindo por ter haver apenas com a dimensão estética da arte. O interesse hoje é nas ramificações políticas e sociais, o que é interessante, mas não conta a história da arte como um todo.

Para compor o Imagens Cintilantes, procurei obras que ilustrassem um estilo específico. Outro tema dominante no livro é a espiritualidade na arte. Escolhi obras em que o artista tivesse engajamento espiritual com sua obra. E surgem surpresas, como Mondrian, muitas vezes mencionado como o artista abstrato sem nenhum elemento pessoal fora das linhas e blocos de cor... Olha, os cadernos de Mondrian revelam que cada marca que ele fazia tinha um significado espiritual para ele, nascia de algo que ele tinha contemplado muito cuidadosamente. Isso foi apagado por historiadores niilistas, que ficam muito envergonhados que o herói deles era, na verdade, um espiritualista. Pollock é outro exemplo. As pessoas pensam nas grandes obras abstratas de Pollock e acham que não havia significado, mas, quando estudamos sua evolução, vemos um simbolismo psicológico e uma paixão em andamento. Não existem Pollocks falsos, porque ninguém consegue imitar o que ele fazia, suas grandes pinturas no chão, como se estivesse em uma grande dança ou em um grande transe xamã.

FEMINISMO | Fronteiras do Pensamento Porto Alegre, 2007
Eu me considero uma feminista radical. Me interessei pelo tema muito antes da segunda onda do feminismo no final dos anos 1960. O feminismo como movimento político sumiu logo após as mulheres ganharem o direito ao voto nos EUA, nos anos 1920. Até que, em 1963, Betty Friedan escreveu The Feminine Mystique e, em 1966, fundou a National Organization for Women. Ela foi cofundadora com um homem, porque o objetivo dela era trazer os homens para o feminismo – e trazer todas as mulheres, de todas as ideologias e culturas, para o movimento. Incluindo mães e religiosas.

Concordo com Betty, mas essa não é a direção tomada pela segunda onda do feminismo. A direção é a da mulher profissional. Houve uma diminuição do respeito pelas mulheres que querem ser mães ou que crêem em alguma religião. Tem essa coisa do politicamente correto, no feminismo dos EUA, que eu acho limitante, acho que torna o feminismo um movimento fanático.

O feminismo atual não quer admitir nenhum componente biológico na diferença sexual porque acham que isso foi manipulado por conservadores para que a mulher seja tirada da vida profissional. Isso não vai acontecer. As mulheres já estão muito bem preparadas, empoderadas. É hora de abrir os portões do feminismo para as mulheres que preferem ficar em casa com os filhos, que vêem a família como um valor supremo, ou para aquelas que buscam um equilíbrio entre carreira e família.

1990 – 2015 | Fronteiras do Pensamento São Paulo, 2015
Nos anos 1990, quando começaram a me conhecer no Brasil, eu estava lutando pela liberdade sexual. Havia a questão das revistas e da indústria da moda. Nos EUA, as feministas nos anos 1980 e 1990, diziam que a indústria da moda era uma tentativa fascista de degradar as mulheres. Meu ponto de vista era oposto. Como italiana, achava que a moda estava ligada à beleza – e a beleza tem um valor por si próprio. Todas as grandes culturas admiraram a beleza. A beleza não é uma conspiração para que as mulheres se sintam mal sobre seus corpos. Esta é uma ideologia puritana que começou a dominar o feminismo norte-americano. Naquela época, também lutei pelas grandes estrelas de Hollywood, pela pornografia – e ainda sou radical nesse sentido, acredito que posições contra a pornografia no feminismo jamais estudaram a história da arte e nunca viram um nu grego ou O Nascimento de Vênus.

CIRURGIAS DE MUDANÇA DE SEXO NA JUVENTUDE | Fronteiras do Pensamento São Paulo, 2015
Sempre me identifiquei como menino. Desde meus 10 anos, só usava roupas de homens nas festinhas à fantasia do colégio. Fico feliz que, naquela época, não se falasse tanto sobre cirurgias de mudança de sexo. Se eu pudesse ter imaginado que isso era possível, teria me tornado obcecada com o assunto. Pareceria a solução para todo o meu sofrimento. Mas, teria sido um erro terrível.

Por isso, me preocupo com o ímpeto das coisas. Uma menina não se identifica com seu gênero e os pais já levam para terapeuta, fazem intervenções, cirurgias cada vez mais cedo... Cedo demais. Como adultos, as pessoas estão psicologicamente capacitadas para escolher qualquer destino para o seu corpo, o adulto tem noção do que pode colaborar na redução da sensação de deslocamento. Mas, não sei se é algo que jovens conseguem discernir ou até lidar com as consequências de uma intervenção sem volta.

Acho irresponsável que certas universidades, como a Brown, estejam oferecendo cirurgias de mudança de sexo a jovens por meio dos planos de saúde garantidos aos alunos destas instituições. No clima econômico de hoje, com tantas dívidas, talvez os alunos se sintam pressionados a fazerem a cirurgia agora, enquanto ainda são alunos e possuem o seguro de saúde da universidade, porque, quando se formarem, não terão mais esta chance.

Defendo que todos têm o direito de fazer a cirurgia. Todos podem ver o seu corpo como uma obra de arte, como um veículo da identidade. Eu apoio a cirurgia quando é realmente necessária e defendo que não minimizemos a questão, mas, com o passar dos anos, quando vamos nos tornando mais velhos, há coisas que pareciam tão opressoras na juventude e que simplesmente ganham outra luz, outro significado. Descobrimos outros caminhos e soluções para as questões.

Também não gosto desta ideia que vemos cada vez mais na mídia que as pessoas que fazem cirurgia são instantaneamente felizes. Não se trata apenas de mudar o órgão sexual, cada célula segue sendo aquela com que você nasceu, é um processo muito mais complexo do que "mudança de sexo" e isso precisa ser abordado.

No mais, se eu tivesse feito a cirurgia, não seria quem eu sou hoje. Hoje, posso atribuir significado ao que passei. Eu tive a experiência, aprendi a aceitar meu corpo feminino e aprendi muito mais a respeito da vida e da cultura, mesmo que, de vez em quando, eu não me sinta eu, me sinta outra pessoa dentro de mim.


Assista aos vídeos com Camille Paglia no Fronteiras.com | Dentre os temas: maternidade, vida pessoal, o papel dos homens no mundo atual e sua admiração pelos homossexuais. Confira!