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Graça Machel: Empoderando a outra metade da economia

Foto: Lenny Miles | Unsplash
Foto: Lenny Miles | Unsplash

Neste artigo publicado no site Project Syndicate, Graça Machel chama a atenção ao próximo desafio para alavancar o desenvolvimento do continente africano: o empoderamento feminino no que se refere ao mercado de trabalho.

Neste texto, ela retoma o recente processo de independência dos países africanos, mas destaca que os desafios socioeconômicos ainda estão longe de serem solucionados, e demonstra como a inclusão da mão-de-obra feminina em indústrias-chave e em cargos executivos é o caminho mais curto para alcançar tais objetivos.

Antes de conferir o artigo abaixo, lembre-se: a conferência de Graça Machel no Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador ocorre no dia 5 de setembro. E ATENÇÃO: os ingressos são limitados!

>> Adquira seus ingressos pelo site: https://is.gd/FronteirasSalvador 

>> Informações: 4020.2050 | fronteiras.com/salvador

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Julius Nyerere, o presidente fundador da Tanzânia, disse certa vez que a “união” não tornará a África rica, mas “pode dificultar que a África e seus povos sejam desdenhados e humilhados”. Porém, duas décadas depois, o continente africano segue dividido em um desentendimento chave: gênero. Para alcançar a visão de Nyerere de um continente forte e digno, a África precisa de uma nova era de liberação impulsionada pelo empoderamento econômico das mulheres.

A empresa de consultoria McKinsey prevê que, em 2040, a África terá a maior força de trabalho do planeta, com mais de 1,1 milhão de pessoas em idade de trabalhar. Porém, mais de 60% da população africana atual ainda sobrevive com menos de 2 dólares por dia. É obvio que, enquanto muitos africanos se beneficiaram pela emancipação política – o legado da geração de Neyerere – a pobreza ainda é um obstáculo significativo. Desencadear o potencial de empregabilidade das mulheres africanas é a melhor forma de superar isso.

Atualmente, as mulheres africanas seguem com pouca representatividade em indústrias-chave e cargos executivos, devido à discriminação no local de trabalho e expectativas patriarcais no ambiente doméstico. A menos que as barreiras para a entrada na economia formal sejam removidas e as mulheres recebam opções que as permitam alcançar seu potencial completo, o desenvolvimento socioeconômico da África continuará travado. Apesar de as mulheres serem fundamentais para o progresso do continente, elas ainda são muitas vezes tidas como cidadãs secundárias. Portanto, elas devem lutar pelo seu direito de participar das decisões, e construir políticas, planos e estratégias que afetarão suas vidas e as vidas dos africanos nas gerações futuras.

Estudos demonstram que se mais mulheres tiverem acesso a profissões dominadas pelos homens na África, a produtividade de trabalho terá um crescimento de até 25%. Isso seria bom para a economia como um todo, já que abriria novos caminhos para empoderamento social. Quando as mulheres participam do mercado de trabalho e ativamente se engajam em negócios ou tomadas de decisão políticas, as dinâmicas de poder mudam, elevando o status social feminino. Igualdade econômica também desafia crenças aceitas, e desconstrói muitos danos que perpetuam definições estreitas de normas de gênero. Em outras palavras, trazer mais mulheres para o mercado de trabalho leva a uma emancipação do modo de pensar – tanto em homens quanto em mulheres.

O que Nyerere disse com tanta eloquência sobre a África como um todo não é menos verdade para suas mulheres: união é a chave para alcançar nosso potencial. Quando nos unimos enquanto geradoras de riqueza, torna-se impossível que nós não sejamos reconhecidas pelas nossas contribuições econômicas e marginalizadas em nossas ações de empreendedorismo.

Nós do Fundo Graça Machel estamos unindo forças com agentes da sociedade civil, o setor privado e governos do continente para proporcionar um movimento de liberação econômica para as mulheres. Dividas somos fracas, mas juntas as mulheres africanas têm a capacidade de enfrentar e superar as barreiras que impediram nossa completa participação nas nossas respectivas economias.

Redes são poderosas. A estratégia de desenvolvimento econômico da minha organização é estabelecer e reforçar redes informais e oficiais, através das quais as mulheres podem, com tempo, aumentar sua participação e visibilidade em setores chave. Por essa razão, lançamos a iniciativa “Mulheres desenvolvendo a África”, que é parte de nosso esforço contínuo para dar voz aos africanos sem representação e estabelecer um movimento feminino pan-africano, no qual as mulheres podem se unir para transformar o continente.

O fórum inaugural do “Mulheres desenvolvendo a África” ocorreu em agosto em Dar es Salaam, na Tanzânia, e reuniu mais de 250 líderes mulheres de todo o continente. Sob o amplo tema “Conduzindo Transformações Econômicas e Sociais”, o fórum se focou em três objetivos estratégicos: promover inclusão social, aumentar acesso ao mercado, e conduzir mudanças sociais. Nosso objetivo era concluir o fórum com uma agenda comum para nossa total participação como atores econômicos.

Fazem pouco mais de 20 anos desde que Nyerere nos encorajou a trabalhar pela união na África. Hoje, as mulheres africanas estão ajudando a moldar as políticas e práticas que trarão libertação econômica e social em seus respectivos países. Temos um longo caminho a trilhar antes que a união africana seja completamente atingida. Mas, permitir que as mulheres se tornem parceiras totais no futuro econômico do continente está entre as melhores maneiras de garantir o nosso sucesso.

  Fonte: Project Syndicate