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Graça Machel: Empodere as mulheres e faça as economias crescerem

Ilustração por Ifedayo Ojo
Ilustração por Ifedayo Ojo

Nos últimos anos testemunhamos uma nova onda de feminismo, na qual as mulheres passam a exigir espaço no mercado de trabalho, igualdade salarial, segurança contra o assédio, contra a violência doméstica, entre outras coisas.

Mas como isso ocorre em um continente como a África, assolado pela fome, colonialismo e guerras civis? Neste contexto, somente por meio do esforço conjunto entre diversos atores de transformação social.

Graça Machel é uma dessas pessoas. Neste discurso, proferido na abertura da Conferência 2017 - Negócios na Sociedade, da Trialogue (uma consultoria em responsabilidade social empresarial), em maio desse ano em Joanesburgo, ela expõe uma série de iniciativas realizadas pelo Fundo Graça Machel para fomentar o papel feminino na economia do continente africano.

Graça Machel é conferencista da série especial do Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador em 2017.

Empodere as mulheres e faça as economias crescerem

Há fortes evidências que demonstram que quando as mulheres não alcançam seu potencial econômico, as economias de seus países são prejudicadas.

Do jeito que as coisas estão, a sociedade como um todo não está tendo o benefício de um completo potencial econômico das mulheres, uma vez que elas continuam sendo mal representadas em indústrias chave e cargos executivos, elas encontram barreiras para entrar na economia formal, por muitas vezes sofrem discriminação e passam pelo desafio de equilibrar as necessidades da vida em família e profissional.

Além disso, a diferença de salários entre homens e mulheres é significativa e não encontra fronteiras. Pesquisas indicam que as mulheres ainda ganham aproximadamente 10% a menos do que os homens, em iguais ou similares ocupações, com as mesmas demandas de formação e experiência.

Há um crescente conjunto de dados que demonstra que quando as mulheres não atingem seu potencial econômico, as economias de seus respectivos países sofrem.

Um recente relatório do Instituto Global McKinsey apontou que 12 trilhões de dólares poderiam ser acrescidos ao PIB mundial até 2025 se avançarmos na igualdade com as mulheres. Não sou matemática, mas o cálculo é simples: sem a participação das mulheres na economia formal, nossas economias não crescem o quanto deveriam ou necessitam.

Haveriam incontáveis benefícios para a África caso começássemos a investir seriamente em nossas mulheres trabalhadoras e empreendedoras.

Empoderar e educar as mulheres é um impulso crítico para o desenvolvimento social e econômico no continente africano. Há enormes benefícios para empregadores que contratem mais mulheres. Estudos demonstram que um maior acesso à educação e participação de mulheres em ocupações antes dominadas pelos homens na África poderia aumentar a produtividade dos trabalhadores em até 25%.

Adicionalmente, diversos estudos em trabalho de equipe e estratégia de negócios demonstram que diversidade de gênero, etnia e idade na força-de-trabalho resultam em melhores processos decisórios e resultados mais positivos.

As mulheres têm um jeito único de humanizar as frias dinâmicas de negócios e, além de suas principais competências, muitas vezes trazem as tão necessárias “habilidades interpessoais”, inteligência emocional e empatia para o ambiente de trabalho. É simplesmente um bom negócio empregar mulheres em todos os níveis da estrutura organizacional.

Uma maior integração das mulheres na economia formal em um forte efeito que eleva o status das mulheres e a percepção do seu valor na sociedade como um todo.

A habilidade de estar no comando de processos de tomada de decisão muda as dinâmicas de poder patriarcal.

Uma rápida observação em sociedades com alta porcentagem de participação feminina na economia revela que quanto mais influência mulheres têm no ambiente de trabalho, e quanto maior a autoridade delas, mais estima e respeito elas recebem fora de lá. Quando as contribuições das mulheres são reconhecidas e valorizadas de uma perspectiva econômica, uma profunda mudança social e um aumento de seu status ocorre como resultado.

Além de impactar positivamente a economia como um todo e seus locais de trabalho, as interações femininas na economia formal também melhoram a vida doméstica. Mulheres que estão engajadas na economia formal não apenas impactam positivamente na situação financeira de suas famílias, mas mulheres com maior formação têm melhor controle sobre saúde reprodutiva, planejamento familiar e acesso a serviços que garantam a quantidade de filhos que desejam o que resulta em famílias menores e mais saudáveis.

No Egito, por exemplo, a mortalidade infantil de filhos de mulheres sem educação formal é o dobro da dos nascidos de mães com ensino médio completo.

É sabido que existe uma forte relação entre o nível de educação que uma mulher recebe, sua habilidade de se desenvolver profissionalmente e a sua contribuição na economia formal. Entretanto, também está claro que a sua educação e potencial de renda também influencia sua saúde e o bem-estar de sua família.

Numerosos estudos demonstram que na próxima década, a renda global feminina crescerá de 13 trilhões para 18 trilhões de dólares, o que é mais que o dobro do crescimento dos PIBs da China e da Índia somados.

O estudo sobre o poder da igualdade de McKinsey também confirma que a contribuição das mulheres no PIB global é próxima de 37%, com as mulheres africanas contribuindo em 39% do PIB do continente, o que é um pouco acima da média.

Esses dados sugerem fortemente que em cada canto do mundo, quando as mulheres são ativas na economia, suas famílias e vidas são melhores. Isso é encorajador, e precisamos de mais apontamentos de dados como esses, especialmente na África.

Enquanto sabemos intuitivamente o quão importante é que as mulheres sejam contribuintes ativas na economia, existe pouquíssima evidência empírica quantificando as contribuições das mulheres na economia africana, bem como escassos dados demográficos.

Temos um vão de conhecimento no que se refere a dados confiáveis que tragam informações geograficamente e setorialmente.

Por exemplo:

- Que regiões do continente têm o ambiente mais propício para mulheres empreendedoras que quais os ingredientes chave para esse sucesso que podem ser compartilhados para fora de nossas fronteiras?

- Que desafios específicos estão sendo enfrentados pelas mulheres em setores nos quais elas têm pouca representatividade e porquê?

- Onde as mulheres estão dando contribuições significativas e como podemos aumentar quantitativamente isso?

- Que tipos de ocupações as mulheres não estão realizando proporcionalmente e por quê?

- E onde elas ainda são marginalizadas e por quê?

Munidos de dados confiáveis, estaremos melhor informados para responder perguntas como essas e criar estratégias para aumentar o poder e a presença feminina, além de apoiá-las melhor.

Eu gostaria de compartilhar alguns achados de uma pesquisa que o meu Fundo completou faz alguns meses intitulada “Um estudo para explorar as barreiras de crescimento enfrentadas por mulheres empreendedoras no leste da África”.

O objetivo do estudo era preencher um pouco do vazio de dados que eu mencionei anteriormente e descobrir as barreiras de crescimento enfrentadas pelas mulheres empreendedoras do Leste da África que as impedem de crescer de micro e pequenas empresas para negócios médios e grandes, além de informar intervenções que desencadearão seu potencial. Mais de 600 mulheres empreendedoras foram entrevistadas na Tanzânia, Quênia, Ruanda e Uganda. A maior parte dos achados e recomendações podem ser também usadas no contexto sul-africano. O estudo descobriu que:

- Mulheres empreendedoras dessas regiões são: jovens e educadas, com 69% tendo entre 20 e 40 anos de idade, e 64% possuem graduação ou pós-graduação.

- Elas operam em uma variedade de setores, mais significativamente em: comércio (17%), agricultura (13%) e consultoria (11%).

- Pelo menos 50% dos 600 negócios pesquisados trabalham regionalmente e servem mercados diversificados.

Gostaria de enfatizar alguns desses achados por refletirem desafios que as mulheres empreendedoras sul-africanas enfrentam e muitas das soluções para tais obstáculos podem envolver a plateia de hoje:

- Mais de 50% das mulheres empreendedoras citaram acesso a financiamentos (31%) e acesso aos mercados (23%) como as duas principais barreiras que enfrentam e ainda precisam superar.

- Os dois maiores obstáculos citados para conseguir financiamentos são exigências de garantia e taxas de juro proibitivas. Descobrimos que do total de entrevistados que pediram empréstimo, apenas um quarto delas obteve sucesso.

Fora recursos restritos de financiamento, também descobrimos que:

- Essas mulheres empreendedoras estão trabalhando sem suportes não-financeiros significativos para ajudar a elas e suas empresas.

- 67% das mulheres empreendedoras que foram entrevistadas não possuem um conselho administrativo.

- 63% não tem um administrador de empresas que as auxilie.

Um terço das mulheres empreendedoras não fizeram nenhum treinamento em seus negócios.

Tenho duas sugestões para que nós consideremos hoje e ao longo dessa conferência, enquanto firmamos colaborações e parcerias para garantir que as mulheres recebam acesso aos mercados e finanças, bem como seus escritórios e ambientes de trabalho, e, portanto, sejam totalmente capazes de trabalhar para transformar o continente africano.

Redes são poderosas. A abordagem ao empoderamento feminino feita pelo Fundo Graça Machel é estabelecer e fortalecer redes que impulsionam o crescimento econômico das mulheres e aumentam a sua participação e visibilidade em setores chave da sociedade. Apoiados na crença que o desenvolvimento do continente africano está relacionado com a participação sustentável das mulheres em todos os níveis e setores da esfera socioeconômica, temos 3 redes operando no continente que ajudam a ampliar a participação feminina na economia:

A Rede para as Mulheres Empresárias Africanas fortalece as associações de mulheres empresárias, identifica e apoia mulheres de negócios para desenvolver-se em empreendedoras voltadas ao crescimento em 10 países do leste e sul da África.

Com esta rede e em colaboração com parceiros do setor privado, apoiamos e aumentamos o impacto das mulheres na esfera econômica.

Por meio do programa de desenvolvimento empresarial Mulheres Criando Riqueza, nós treinamos 91 mulheres empreendedoras de Zâmbia, Tanzânia, e Malawi durante o ano passado em elementos críticos de empreendedorismo, incluindo como acessar mercados e financiamentos.  Ao final do nosso próximo treinamento este ano 300 mulheres estarão equipadas com essas habilidades, recursos e ferramentas para auxiliar elas a desenvolver seus negócios.

Temos também a Rede de Mulheres Africanas no Agronegócio, que se dedica a desafios em segurança alimentar e identifica oportunidades de negócio para mulheres no setor agrícola em 8 países. O projeto Cesto de Comida Africana é um projeto regional que atinge 5 países, e busca expandir oportunidades e criar riqueza para mulheres empreendedoras e pequenas agricultoras nas cadeias de valor de sementes e legumes para, finalmente, melhorar resultados nutricionais e segurança alimentar doméstica no sul da África. O projeto piloto está ocorrendo em Malawi e Zâmbia e envolve trabalhar com 22 companhias de sementes de propriedade de mulheres e 2000 pequenas agricultoras.

Além disso, Novos Rostos, Novas Vozes é uma rede presente em 16 países que trabalha para elevar o acesso das mulheres a financiamentos e serviços financeiros com o objetivo de avançar na inclusão das mulheres no sistema financeiro formal. Em Uganda, o projeto propiciou treinamento em finanças para mais de 250 mil mulheres e homens em dois distritos rurais, e criou clubes de economia para ajudar membros da comunidade a unir seus recursos. Isso, consequentemente, levou a uma abertura comercial (fundo financeiro) em uma área que nunca antes teve acesso direto a serviços bancários.

Também estou feliz em afirmar que em Ruanda essa rede acabou de lançar um fundo que criará uma forma economia para que mulheres daquele país possam acessar mercados de capital por tão pouco quanto 6 dólares. O Fundo Rugori investirá em diferentes seguranças de mercado em Ruanda e na África e em depósitos de fundos. Em 2 anos, o fundo pretende investir 5% de seus ativos líquidos em um segundo fundo que realizará investimentos de débito e igualdade em empresas dirigidas por, ou que beneficiem mulheres.

Fundos como esses ajudam as mulheres a superar barreiras, como mencionei antes, para acessar o capital e os mercados que elas precisam para desenvolver seus negócios e contribuir em todo seu potencial para a economia.

Há uma necessidade de apoio para redes como essas para aumentar seus membros, desenvolver suas capacidades e aumentar seu escopo e alcance.

Além de garantir a inclusão financeira das mulheres, existem maneiras práticas pelas quais empresas podem apoiar suas funcionárias e mulheres empreendedoras. A cultura empresarial deve refletir o valor que coloca em suas funcionárias e suas contribuições únicas. Implementar recrutamentos e esforços de retenção é uma maneira de garantir que postos chave de tomada de decisão, bem como vagas nos conselhos sejam preenchidas por candidatas mulheres qualificadas.

Fora isso, as mulheres carregam um peso único em nossa sociedade quando dividem-se entre as demandas de carreira e familiares. Portanto, fazer uso da tecnologia, flexibilizar o tempo, e condições de trabalho remoto para acomodar essas demandas e ajudar as funcionárias a equilibrar família e trabalho também são coisas que ajudam a criar um ambiente que as possibilita serem o mais produtivo e apoiadas possível.

Garantir salários iguais em trabalhos iguais, e proporcionar transparência em processos de contratação e remuneração são formas chave adicionais para se ter igualdade no ambiente de trabalho e um ambiente de respeito.

Tutore uma colega ou empreendedora promissora, ofereça programas de treinamento para qualificar possíveis funcionárias, e compartilhe seu conhecimento e redes enquanto membros de conselho para mulheres empreendedoras.

As possibilidades de apoio são infindáveis.

Neste contexto, estamos lançando a iniciativa “Mulheres Avançando a África”, como parte dos nossos contínuos esforços para ‘Multiplicar as Imagens e Amplificar as Vozes’ de mulheres africanas enquanto força de transformação econômica e social. “Mulheres Avançando a África” é uma continuação da catalisação de nossa construção de redes e estabelece uma plataforma para que possamos nos unir para transformar o continente africano.