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Graça Machel: tornando mais verde a tecnologia africana

Crédito: Hans | Pixabay
Crédito: Hans | Pixabay

A crise energética nos países em desenvolvimento, em especial na África, adquire contornos dramáticos que custam vidas e podem levar a um futuro em que não será mais possível desenvolver o continente.

Líderes, como a ativista pelos direitos humanos Graça Machel, se reuniram em Ruanda e traçaram planos para aplicar as novas tecnologias em prol de um continente focado em energia renovável, baixa emissão de carbono e trabalho em equipe.

Em artigo, traduzido pelo Fronteiras Braskem do Pensamento e publicado no site no site Project Syndicate, ela explica como está a situação atual, como pode ser resolvida e como a solução só surgirá a partir da colaboração entre todos.

Machel faz a sua conferência no Teatro Castro Alves, em Salvador, no dia 5 de setembro, garanta seu ingresso!

Tornando mais verde a tecnologia africana

Joanesburgo – Inovações tecnológicas oferecem enormes oportunidades para o continente africano. É por isso que me reuni com líderes do continente durante o Fórum Econômico Mundial em Kigali, a capital de Ruanda. Nos reunimos para discutir como a economia digital pode impulsionar o tipo de mudança radical que o continente necessita.

Ao mesmo tempo, tivemos que pensar sobre algumas velhas ferramentas deixadas para nós por nossos ancestrais – mais precisamente como pensar em longo prazo e como trabalhar em equipe. Essas ferramentas são uma forma de tecnologia que precisamos usar hoje, para que gerações futuras tenham chance.

A mudança climática é o derradeiro teste de se podemos usar novas e velhas tecnologias para assegurar o futuro de nossas crianças.

Os africanos devem realizar ações decisivas para combater a ameaça do aquecimento global, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa e ajudando uns aos outros a se adaptarem as mudanças climáticas. Se falharmos em progredir nessas áreas agora, as gerações futuras julgarão nossa falta de ação como algo caro, injusto e imoral.

A África é uma das regiões mais vulneráveis a mudanças climáticas, ainda assim, é responsável por apenas 2,3% das emissões globais de CO2. Isso parcialmente ocorre, pois, dois terços dos africanos – 621 milhões de pessoas – não possuem acesso à eletricidade.

Para enfrentar o duplo desafio da mudança climática e esse déficit energético, os países africanos precisam ajudar a si mesmos e uns aos outros. Países desenvolvidos – os maiores causadores do aquecimento global – devem cumprir suas promessas feitas em Paris na COP21.

Além de nos readaptarmos a velhos métodos tecnológicos, de pensar a longo prazo e trabalhar em equipe, novas tecnologias são essenciais para que a África enfrente as mudanças climáticas. Inovações em biotecnologia e métodos de agricultura são necessários para lidar com doenças, pestes e secas.

Novas tecnologias também podem ajudar o continente a superar a dependência de combustíveis fósseis e ir em direção a um futuro de baixas emissões de CO2. A África tem uma grande oportunidade para desenvolver estratégias de redução de emissão de carbono que construam resistência e apoiem o crescimento que beneficie a todos, reduzindo rapidamente a pobreza. Demonstramos como isso pode ser feito no Relatório de Progresso da África em 2015, “Poder Pessoas Planeta: Aproveitando as Oportunidades de Energia e Clima da África”.

Fontes renováveis substituirão combustíveis fósseis gradualmente. Não pode acontecer de um dia para o outro. A África precisa de uma mistura de energia judiciosa e dinâmica. Mais ainda, ela precisa de muito mais energia, agora, a África subsaariana como um todo, fora a África do Sul, gera menos energia do que a Espanha.

O estado da educação na África é uma consequência visível da crise de energia do continente. Trabalhei com educação a maior parte da minha vida, como professora e ministra da educação em Moçambique. A minha experiência me ensinou que as escolas são a chave para o sucesso e a prosperidade de um país. Ainda assim, em muitos países africanos, 80% das escolas de educação básica não possuem energia elétrica, o que compromete gravemente a qualidade da educação.

Quedas de energia também custam vidas. Quase quatro em cada cinco africanos dependem de biomassa sólida, especialmente madeira e carvão, para cozinhar. Como resultado, mais de 600 mil pessoas morrem anualmente de poluição doméstica. Fornos eficientes os salvariam, liberariam milhares de mulheres e meninas da tarefa de buscar lenha, e geraria amplos benefícios ao meio ambiente.

Os passos que os líderes africanos precisam tomar são claros. Interesses nacionais de longo prazo devem preceder objetivos políticos de curto prazo, interesses escusos e patrocínios políticos. Líderes africanos precisam acabar com as ervas daninhas, tornar a administração de utilidades energéticas -algumas das quais são centros de corrupção e falta de eficiência – mais transparentes, fortalecer regulamentos, e aumentar os gastos públicos em infraestrutura energética. Eles também precisam redirecionar os 21 bilhões de dólares gastos na África em subsídios para utilitários deficitários e consumo de energia – que em sua maioria beneficiam os ricos – em direção a subsídios de conexão e investimentos em energia renovável que levem eletricidade aos pobres.

Há também um claro caminho a ser seguido pelos líderes dos países mais poluentes. Eles precisam colocar um preço adequado em suas emissões ao taxá-las, em vez de continuar a subsidiar elas gastando bilhões em exploração de combustíveis fósseis. Os países do G-20 precisam estabelecer um cronograma para diminuir tais subsídios.

E os países ricos precisam mobilizar as finanças de desenvolvimento internacional, que podem desempenhar um papel chave em ajudar os países africanos a alcançar suas necessidades energéticas. O sistema ineficiente, sem recursos e fragmentado de financiamento de políticas climáticas falhou na África. Uma completa reforma se faz necessária. Infelizmente, os maiores emissores do planeta demonstraram pouco comprometimento no Fundo Climático Verde da ONU.

Líderes de corporações têm a responsabilidade de agir também. Eles deveriam cobrar um valor por emissões de carbonos, impulsionar inovações, e procurar oportunidades de financiar desenvolvimento com baixas emissões carbônicas na África. Gás natural e fontes renováveis de energia, como solar, hidráulica e eólica são oportunidades e não riscos, na África. Milhões de africanos sem eletricidade ganham menos que 2 dólares e cinquenta centavos por dia e constituem um mercado energético de 10 bilhões de dólares ao ano.

Alguma esperança de mudanças rápidas pode ser vislumbrada no fato que a África agora lidera mundialmente em adotar novas tecnologias. Ela está pulando as mais antigas e indo direto para a era digital. O sistema M-Pesa do leste africano para transferir dinheiro via celulares está proporcionando novos serviços de micro finanças, como empréstimos interpessoais. Trocas de commodities estão permitindo que fazendeiros acessem preços em tempo real. Vamos pôr em uso essas habilidades atemporais de velhas-tecnologias e de visão a longo prazo e colaborar juntos para criar novas tecnologias. Se fizermos isso, a geração atual de líderes africanos tem uma única oportunidade de proteger as futuras gerações de desastres climáticos, cumprir a promessa de energia para todos, e construir uma prosperidade compartilhada.

Fonte: Project Syndicate