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Histórias de heresia e liberdade

Ilustração: James R. Eads
Ilustração: James R. Eads

Romancista, ensaísta e jornalista cubano, Leonardo Padura ganhou destaque ao publicar diversos romances policiais. O gênero é um coringa para o autor, que acredita que o romance policial permite que se aborde os maiores problemas da sociedade.

Seu livro mais recente, porém, não é propriamente um romance policial, pois traz também um lado de romance histórico. Hereges foi lançado no Brasil em 2015, e faz um resgate da breve, mas intensa história dos judeus em Cuba.

O título, conforme Padura, se deve à “heresia” de a obra não se encaixar em nenhum dos gêneros propostos, mas também aos processos de desconstrução e reconstrução das crenças dos personagens da obra.

No momento atual, de crise migratória no mundo inteiro, discussões sobre xenofobia e políticas de acolhimento a refugiados, a história contada por Padura ganha um lugar especial. Segundo o escritor cubano, é uma obra sobre a busca do indivíduo pela liberdade, um tema universal.

Leonardo Padura é conferencista do Fronteiras do Pensamento 2017.

Leia o artigo de Boyd Tonkin sobre o livro Hereges, publicado na revista britânica The Spectator. 


Procurando uma obra prima perdida pelos becos de Havana | Boyd Tonkin

Em 27 de maio de 1939, o navio alemão St. Louis ancorou em Havana com 937 passageiros a bordo: quase todos eram judeus fugindo do Terceiro Reich. Depois de uma obscura confusão de obstrução diplomática, corrupção desavergonhada entre os oficiais locais e o estimulo de propaganda Nazista de preconceito antissemita, ‘inclusive’ (como Leonardo Padura dolorosamente escreve) ‘entre os abertos e felizes cubanos’. Apenas uma fração de refugiados desembarcariam. Os Estados Unidos recusaram entrada para o resto. Sua nau de desespero navegou de volta para a Europa.

Ao redor desse vergonhoso episódio, o grande questionador da literatura cubana construiu um romance indireto, excêntrico, porém profundamente absorvente: parte história de detetive, parte investigação histórica, parte reflexão das qualidades “sagradas” da grande arte e da liberdade humana. Mais conhecido pelo “Estações Havana” de histórias de crime, estrelando seu investigador dissidente Mario Conde, Padura é uma única e admirável figura. Ignorando o chamado do exílio, ele se manteve em seu bairro de Mantilla em Havana para escrever romances que incluem uma crônica irreverente, sensual e incomum de sua nação enquanto os ideais revolucionários da geração castrista abriram caminho a ‘um país caindo aos pedaços à vista de todos’. ‘Desiludido e cínico’, seu povo sofrido agora pode sentir-se ‘mais livre e mestre de si mesmo’: livres para ficar ricos, ou ir para o inferno conforme desejarem.

Agora um livreiro freelancer (em Havana, tesouros antigos abundam em bibliotecas privadas mofadas), o ex-inspetor Conde conhece o artista norte-americano ‘gigante com rabo de cavalo’ chamado Elias Kaminsky em 2007. O pai de Elias, Daniel, veio para Havana da Polônia na década de 1930 para trabalhar em um curtume com seu tio Joseph (‘Pepe o Bolseiro’) em um ‘turbulento paraíso judaico’ e artistas e vendedores; a maioria deixaria cuba quando a revolução se tornou comunista. Os pais de Daniel, aprendemos, chegaram e partiram no malfadado St. Louis, mas deixaram para trás um Rembrandt autêntico – um estudo da cabeça de Cristo. Com esse tesouro portátil, eles planejaram assegurar o futuro da família.

O sombrio passado dessa pintura se torna no dispositivo de enredo que leva a alternante trama de Hereges de uma divertida intriga para outra. Quem guardou, quem roubou, quem matou ou morreu por esse pequeno explosivo que expressa ‘a força da beleza que nenhuma autoridade legal conquistaria’? Viajamos no tempo de Havana para a Amsterdam dos anos 1940, onde um jovem judeu, também chamado Elias, torna-se aprendiz do artista Rembrandt Van Rijn – um firme amigo da comunidade de Elias, apesar de sua idólatra profissão.

Charmoso, desconexo, erudito, Padura habita nas dádivas e custos da liberdade herética da arte, política e religião. ‘Ser livre’, Elias acaba descobrindo, ‘é uma guerra que tem que ser travada diariamente’. De volta a Havana, a busca pelo paradeiro da pintura leva as novas tribos de Cuba – emos, góticos e punks – em sua charmosa ‘busca por liberdade total’. ‘Vampiros, depressivos e orgulhosos masoquistas’? Conde se pergunta, surpreso, ‘nesse calor’?

Como sempre, Padura - nosso detetive hedonista, porém de grande coração - guia os leitores através desse labirinto úmido em uma trilha de saberes das ruas. Sua trama pode divagar, suas excursões podem ser ociosas, mas o compasso moral raramente treme. ‘Sem liberdade’, Rembrandt fala a seu pupilo, ‘não há arte’. 

(Via The Spectator)