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Howard Gardner: Quero demonstrar as falácias do conceito inteligência seguido por Trump

Ilustração por Martin Wickstrom | Behance.net
Ilustração por Martin Wickstrom | Behance.net

O presidente Trump afirmou em certa ocasião que “é a uma das pessoas mais espertas do mundo”, e que “ama os pouco educados”.

Através dessas declarações, não fica claro como Trump vê a natureza da inteligência, mas nesse artigo, Howard Gardner, professor de Cognição e Educação na Escola de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Harvard e conferencista na temporada 2009 do Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador, tenta desvendar a questão, trazendo seu entendimento singular como o pesquisador que revolucionou os campos da pedagogia e da psicologia com sua “Teoria das Inteligências Múltiplas”.

Seu mais famoso trabalho é o livro Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas. Nele, Gardner detalha um novo modelo de inteligência humana que vai além da noção tradicional de que existe apenas um tipo de inteligência que pode ser medida por testes padronizados. A teoria inicialmente listava sete inteligências que trabalhavam em conjunto: linguística, lógico/matemática, musical, corporal/cinestésica, visual/espacial, interpessoal e intrapessoal; mais tarde ele acrescentou uma oitava inteligência, a naturalista, e uma nona, a existencialista. O autor afirma que podem haver mais.

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Abaixo, a opinião de Gardner sobre o conceito de inteligência seguido por Trump.

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Pesquise “Donald Trump esperto” no Google e você vai encontrar um enorme conjunto de citações de 2016:

“Sou esperto”.

“Sou, tipo, uma pessoa muito esperta”.

“Sou uma das pessoas mais espertas do mundo”.

Trump gosta de se cercar de pessoas que ele considera inteligentes. Recentemente, em uma declaração bastante reproduzida, o presidente norte-americano declarou “Nosso gabinete presidencial possui o maior Q.I. já reunido em um só lugar”. E ele parece ser a favor de uma teoria genética da inteligência. “Meu tio era um grande professor e engenheiro, Dr. John Trump, do M.I.T., tenho bons genes, muito bons”, disse ele. Claramente, Trump considera que ele e sua família são espertos, e valoriza as pessoas que ele ou outros consideram inteligentes.

Entretanto, Trump diversas vezes expressou seu ódio às elites, especialmente aquelas ligadas à faculdades e universidades seletivas. Em uma declaração de grande repercussão, ele declarou, “Eu amo os pouco educados”. E, mesmo tendo apoio (e oposição) em todo o escopo político e educacional, ele possui um apelo em particular a homens brancos que, por qualquer razão, não são bem-sucedidos na sociedade da informação/tecnologia atual.

É possível, claro, que nenhuma dessas declarações e sentimentos tenham muita verdade. Trump se contradiz constantemente e sem pudor. Mas vale tentar desvendar essa narrativa subjacente e tirar alguma lição disso.

Trump apoia a visão de inteligência que é amplamente aceita entre psicólogos e foi absorvida pelo público em geral – especialmente no ocidente. Em resumo, a inteligência seria uma entidade única, herdada geneticamente (se soubermos o quão inteligentes são seus avós, poderemos supor o quão inteligente você é), altamente desejada e podemos julgar a inteligência de alguém, até sem um teste formal. E isso inclui autoavaliações – nada difícil no caso de uma pessoa que descrevi à revista Vanity Fair, em 2015, como “notadamente narcisista”.

Eu acredito em outro ponto de vista – a Teoria das Inteligências Múltiplas – não vou defender minha posição aqui. O que quero é demonstrar os defeitos e falácias do ponto de vista de Trump.

Primeiramente, se você vai dar declarações sobre o que significa ser inteligente, você precisa definir claramente o que ela é, fornecer resultados de um teste formal, ou ambos. Até onde sei, Trump não fez nenhuma das duas coisas.

Em segundo lugar, não importando como você define o intelecto, você precisa distinguir entre essa capacidade cognitiva e outras, indiscutivelmente de igual ou maior importância – por exemplo, conhecimento, julgamento, ou sabedoria relevante. E se você está se referindo ao potencial individual de liderança e influência de uma pessoa, você precisa levar em conta capacidades pessoais e comportamentais que não são, estritamente falando, cognitivas ou intelectuais: por exemplo, paciência, perseverança, empatia, piedade.

Em terceiro lugar, como foi observado brilhantemente (e memoravelmente) por David Halberstam, cronista da Guerra do Vietnã, ser aconselhado e assessorado pelos “melhores e mais inteligentes” não é necessariamente o suficiente, e pode não ser nem apropriado.

Apesar que o Presidente Kennedy jamais descreveria seu gabinete e assessores como tendo “os maiores Q.I.”, ele de fato se cercou com estudiosos das mais conceituadas instituições acadêmicas, preeminente entre elas, Harvard – onde ele mesmo (e vários membros de sua família) se formou. O excesso de autoconfiança de conselheiros de política externa como McGeorge Bundy e Walter Rostow, associado à sua ignorância tanto em história, quanto a situação atual do sul da Ásia, contribuíram para a talvez maior trapalhada militar na história do país. Q.I. alto pode ser útil – mas de forma algum é suficiente.

O que nos leva aos “pouco educados”. William F. Buckley, provavelmente o principal arquiteto do movimento conservativo moderno, celebremente disse, “Prefiro ser governado pelas primeiras duas mil pessoas da lista telefônica de Manhattan do que por toda a Universidade de Harvard”. É uma declaração que valoriza pessoas comuns, ou selecionadas aleatoriamente, que é, pelo menos, justificável em uma democracia.

Mas, pelo que sei, ser “pouco educado” é visto por Trump como um trunfo. E eu imagino que ele está dedicando seu amor para aqueles indivíduos que sabem muito pouco, ou tiveram pouca oportunidade de aprender, ou tiveram a oportunidade, mas não aproveitaram.

Todas essas opiniões são problemáticas. É difícil defender a ideia de que saber menos é melhor do que saber mais – apesar de querermos que esse conhecimento seja relevante (e não espalhado), baseado (não pós-verdade) e usado de maneira construtiva. É lamentável quando um indivíduo tem pouca oportunidade de educação – ou, como alguém pode dizer, de educação eficiente.  Mas se o indivíduo teve a oportunidade e não aproveitou, isso é uma lástima.

Mas já que vivemos em um tempo em que educação gratuita – das bibliotecas públicas à Academia Khan – é disponível em um clique, a oportunidade de aprendizado continua por toda a vida.

Em qualquer elaboração que eu possa pensar, ter educação é melhor do que não ter. Como Derek Bok, ex-reitor de Harvard gosta de dizer, “Se você acha que a educação custa caro, imagine o custo da ignorância”.

Mas Buckley e Halberstam têm uma certa razão – a educação é necessária, mas não o suficiente. De fato, na opinião da maioria das pessoas (incluindo o próprio), por ser formado em uma instituição de elite, Trump é muito educado. O crucial é o que você faz com o que aprendeu.

Similarmente, em relação à inteligência, é difícil pensar um motivo para alguém preferir ser estúpido, em vez de inteligente.  Entretanto, no fim das contas, são os usos que você dá para a sua inteligência – ou para as suas inteligências – que importam.

E é por isso que eu e meus colegas focamos nossas energias em entender – e na medida do possível nutrir – boas pessoas, bons profissionais e bons cidadãos. Como disse o Reverendo Martin Luther King, Jr, “Inteligência e caráter – esse é o objetivo da educação”.

Fonte: The Washington Post