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Luiz Felipe Pondé e a mercantilização dos sentidos

Ilustração: Anderson Vasconcellos
Ilustração: Anderson Vasconcellos

A busca pelo sentido da vida é uma questão que causa, ao mesmo tempo, angústia e obstinação para que o homem descubra mais sobre si mesmo. Mas nos tempos atuais, vivendo numa sociedade de consumo, os problemas existenciais se tornaram, também, produtos da lógica de mercado. 

Com uma formação universitária abrangente, o filósofo e psicanalista brasileiro Luiz Felipe Pondé consegue circular por muitas áreas do conhecimento, se expressando em uma linguagem acessível. Após ter publicado mais de dez livros, Pondé abordou, em sua obra mais recente, o que seria esta mercantilização do sentido da vida. 

Em artigo, o editor-adjunto de Opinião da Folha Marco Rodrigo Almeida sintetiza as ideias apresentadas pelo polêmico e provocativo colega - Pondé também é colunista do jornal. Leia o material abaixo! 

Luiz Felipe Pondé foi conferencista do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre em 2011.


Mercado de significados para a vida é tema do novo livro de Pondé | MARCO RODRIGO ALMEIDA

O marketing existencial não é novidade para alunos e leitores de Luiz Felipe Pondé. Há pelo menos dois anos o filósofo, professor e colunista da Folha aborda esse conceito em textos e cursos.

Agora volta a ele de forma mais aprofundada em seu mais recente livro, Marketing Existencial - A Produção de Bens de Significado no Mundo Contemporâneo, lançado pela Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha.

Pondé adverte nas primeiras páginas que o livro não é um guia prático de publicidade. Trata, explica ele, de uma disciplina nova, situada entre a psicologia e a filosofia da existência, cujo campo de estudo são as tentativas de vender significados para a vida.

No caldeirão de referências do livro, parte-se da nobre linhagem da filosofia da existência (Kierkegaard, Unamuno, Sartre, Camus) para entender as peculiaridades do consumo no século 21, na "sociedade do cartão de crédito".

"Esses filósofos fundaram a ideia do homem contemporâneo como um existente jogado no mundo sem que uma essência anterior o defina. O homem é, então, obrigado a buscar seu sentido na vida. Isso gera um vazio que o marketing tenta preencher vendendo significados", explica.

André Ávila / Agência RBS

Nessa linha, o verdadeiro valor de um produto é invisível e imaterial. Viagem, carro, comida, roupa, religião - tudo é meio de vender sensações ou sentimentos que aplaquem a angústia do consumidor.

Nada parece escapar a esse modelo; Pondé, numa das passagens mais mordazes do livro, afirma que o marketing será a ciência social aplicada mais importante do século 21.

"As ciências sociais têm pregado mais do que tentado entender a vida. São muito pobres para além de sua vocação de tentar mudar o mundo a partir de teorias de gabinete. Acho que o marketing, em pouco tempo, será o empregador de todas as ciências humanas."

O predomínio desse marketing, contudo, não diz muito sobre sua eficácia. Já no século 19, relembra o livro, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) dizia que quase todo mecanismo de escape acaba por fracassar.

"Os objetos do marketing existencial fracassarão. Eles têm que fracassar para gerar demanda. À medida que dão errado, você precisa buscar outros. É o mesmo princípio dos aparelhos eletrônicos. Se não quebrassem, não haveria o mercado", diz Pondé.

O livro evita juízos de valor sobre esse fenômeno, mas termina com um impasse amargo. Kierkegaard afirmava que só há uma saída para o eterno conflito humano: aceitar a vida como ela é, recusar o autoengano e encarar o risco da constante angústia.

Mas será possível atingir esse estágio de existência verdadeira por meio do marketing, inautêntico por natureza?

"Não há muito o que fazer num mundo totalmente mercantilizado, em que tudo é produto", avalia Pondé. "A única forma de o marketing existencial evitar essa sensação de falsidade é começar a vender o mal-estar, a coragem absoluta de entender que a vida não tem sentido."


(Via Folha)