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Lygia da Veiga Pereira: "Engenheiros não vão resolver 'como viver juntos'"

Lygia da Veiga Pereira (foto: Clléber Passus/Fronteiras do Pensamento)
Lygia da Veiga Pereira (foto: Clléber Passus/Fronteiras do Pensamento)

Em seu mais recente texto para o portal leiaasmeninas.com, que reúne diversos temas abordados sob a ótica feminina, a neurocientista Lygia da Veiga Pereira lastima o obscurecimento das ciências humanas em relação às exatas quando falamos da busca por um mundo melhor. Leia abaixo o texto integral:

Comecei meus estudos superiores na Faculdade de Engenharia da PUC-RJ, onde, como em todos os cursos de ciências exatas, nós mulheres éramos minoria. Talvez por isso tenha me chamado a atenção um artigo científico* demonstrando que, quando em grupos pequenos e com mais colegas do mesmo sexo, as mulheres se sentem mais à vontade para participar, e assim se engajam com facilidade em carreiras da engenharia.

Mas o que realmente me pegou no estudo foi a sua introdução, que diz (minha tradução livre do inglês):

“No mundo globalizado de hoje, inovação em ciência e tecnologia é vital para a competitividade econômica, qualidade de vida e segurança nacional da América. (…) A nação deve investir em pesquisa e inovação, e criar uma maior força de trabalho talentosa em ciência, tecnologia, engenharia e matemática."

Que angústia! Seguimos colocando nas ciências exatas todas as nossas esperanças de um mundo melhor. Só que, a meu ver, esse mundo melhor precisa menos de tecnologia do que de entendimento entre as pessoas. Afinal, o Estado Islâmico, a fome, a falta de ética e a violência dos centros urbanos não existem por falta de tecnologia… As ciências humanas, talvez negligenciadas porque não movem diretamente a economia, são cada vez mais fundamentais para entendermos e controlarmos conflitos e desigualdades, os maiores desafios do mundo contemporâneo.

Pois nem tudo está perdido. No mesmo dia em que li o tal artigo das engenheiras, recebi a programação do Fronteiras do Pensamento, que este ano discutirá a temática COMO VIVER JUNTOS. Veja o que diz o material de divulgação:

“Secularismo ou religião, progresso ou sustentabilidade, arte ou racionalidade, esquerda ou direita? A polarização da sociedade contemporânea pode estar nos afastando da capacidade de perceber o mundo de forma complexa e de construir um futuro de forma integrada. Para debater novas formas e possibilidades de convivência regional e global em diversos âmbitos do conhecimento, a temporada 2015 do 'Fronteiras do Pensamento' traz ao Brasil conferencistas que têm em comum a interdisciplinaridade e a inquietude dos pesquisadores múltiplos.

… os convidados levam ao palco do 'Fronteiras' reflexões que devem ser também as nossas: como melhorar a vida nas megacidades com o aumento da população global? Como agir com responsabilidade entre tantas opiniões e desigualdades? Como exigir direitos sem ferir a ética e a alteridade? Como tirar um melhor proveito da tecnologia, da comunicação e do mundo do trabalho? Como enfrentar os choques culturais e as intolerâncias?".

Essas sim são as perguntas de um milhão de dólares, vamos enfrentá-las!