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Mais perto do embrião humano transgênico

Ilustração: Jana Heidersdorf
Ilustração: Jana Heidersdorf

A ciência afeta todas as esferas do cotidiano humano. Das relações pessoais aos sistemas elétricos, passando pelos avanços na medicina, a sociedade caminha e se desenvolve conforme o andamento de descobertas científicas. A prática de pesquisas na área, no entanto, passa por questões jurídicas, éticas e culturais, justamente porque mexe com elementos do dia a dia e da realidade afetiva das pessoas. Um exemplo conhecido é a possibilidade de pesquisar e aplicar alterações em células-tronco embrionárias humanas, proposta bastante polêmica e que ainda enfrenta obstáculos na legislação brasileira.

Há dez anos, o Supremo Tribunal Federal permitiu no Brasil a pesquisa em células embrionárias humanas que não tivessem mais possibilidade de uso para a efetiva fecundação artificial. A medida expandiu as perspectivas dos pesquisadores da área. Por outro lado, a execução prática de engenharia genética segue sendo proibida, e cercada por polêmicas dentro e fora da comunidade científica.

A pesquisadora brasileira Lygia da Veiga Pereira, uma das mais reconhecidas geneticistas do mundo, foi pioneira na criação de embriões transgênicos no país, colaborando com o desenvolvimento de estudos que visam reduzir ou erradicar doenças genéticas.

Lygia da Veiga Pereira foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2011. Em artigo publicado no último mês no jornal O Globo, ela destaca a importância da discussão dos impasses éticos que permeiam esta questão junto aos diversos setores da sociedade, trazendo novidades sobre o estado de tais estudos em outras partes do mundo. Leia abaixo. 


Mais perto do embrião humano transgênico | Lygia da Veiga Pereira

Em 2015, cientistas chineses criaram pela primeira vez embriões humanos geneticamente modificados, gerando tanto entusiasmo quanto pavor na população. Sim, entusiasmo porque a técnica permitiria, por exemplo, corrigir a mutação no gene do câncer de mama em embriões da atriz Angelina Jolie, permitindo que ela só tivesse filhos sem risco de herdar a doença (seus filhos biológicos possuem 50% de chance de terem herdado a mutação da mãe...). E, sim, pavor também, principalmente pela fantasia da eugenia e o uso da técnica para a criação de “bebês superiores”. Mas, na época, os chineses mostraram que a técnica de edição de genoma era ineficiente (menos de 10% dos embriões manipulados tiveram o gene defeituoso corrigido) e insegura — a modificação genética erra o alvo, e muitos embriões apresentaram alterações genéticas adicionais e indesejadas.

Pois anteontem, grupos dos EUA e da China relataram um aprimoramento significativo da técnica, que além de mais eficiente (72% dos embriões manipulados foram corrigidos!), se tornou mais segura — a única alteração genética identificada nos embriões manipulados foi aquela desejada pelos cientistas! Sim, demos um grande passo na direção do uso da edição de genoma em pacientes com doenças genéticas. Se esses resultados forem comprovados por outros grupos e a técnica funcionar tão bem para a correção de outros genes, teremos, sim, a possibilidade de erradicar doenças genéticas de quem puder pagar pelo procedimento — que envolverá fertilização in vitro com correção da mutação genética, e sequenciamento do genoma dos embriões para se certificar de quais deles foram de fato corrigidos. Esses serão transferidos para o útero da mãe, e se tudo der certo, nascerão bebês livres da mutação causadora de doença nas gerações prévias.

Pois então, está mais do que na hora de conclamarmos legistas, psicólogos, sociólogos e a população em geral para discutir as vantagens e os riscos de usar a tecnologia de edição do genoma em seres humanos. Para evitar doenças como câncer e Alzheimer, ou para pesquisa? Sim. E para que o bebê tenha olhos azuis, seja mais inteligente ou mais alto? Em que situações permitiremos sua aplicação?

No Brasil, a Lei de Biossegurança de 2005 em seu Artigo 6º proíbe “engenharia genética em célula germinal humana, zigoto humano e embrião humano”. À luz desses avanços, convido todos a repensar os termos desta proibição, para que o Brasil possa seguir avançando nas pesquisas genéticas, mas sempre com ética e segurança.

(Via O Globo)