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Martha Nussbaum: por uma vida completa e próspera

John Stuart Mill, Aristóteles, Nietzsche, influências na obra de Martha Nussbaum
John Stuart Mill, Aristóteles, Nietzsche, influências na obra de Martha Nussbaum

“Ser um ser humano bom é possuir certa abertura para o mundo, a capacidade de confiar no que é incerto, naquilo que está fora de controle e pode nos destroçar." - Martha Nussbaum

Professora de direito e de filosofia na Universidade de Chicago (com atuações também nas áreas de literatura clássica, ciência política, estudos sul-asiáticos e religião), a norte-americana Martha Nussbaum já publicou 24 livros e 509 artigos, além de ter recebido 57 títulos honoríficos.

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Em 2014, Nussbaum esteve à frente das Conferências John Locke, da Universidade de Oxford, a mais conceituada série de palestras no campo da filosofia – é a segunda mulher a assumir o posto. Em 2015, recebeu o Prêmio Inamori de Ética, concedido a líderes que contribuem para a melhoria da condição humana. Em 2016, ganhou o prêmio Kyoto – mais prestigiosa honraria oferecida em campos não contemplados pelo Nobel. Juntou-se, assim, a um pequeno grupo de filósofos que inclui Karl Popper e Jürgen Habermas.

Mas, a quantidade de prêmios que carrega é mais um alerta do que um motivo para se gabar: das lições que extraiu de sua própria trajetória, prevalece a concepção de uma vida boa que pressupõe o empenho por um objetivo difícil – quando se percebe demasiado satisfeita, desconfia.

A obra de Nussbaum – que, além do conhecimento da literatura greco-romana, também se serve de elementos de antropologia, psicanálise, sociologia e de contribuições de uma série de outros campos – busca as condições necessárias à eudaimonia, palavra grega que designa uma vida completa e próspera.

nussbaum

A trajetória profissional da filósofa é tão diversa que se torna atípica. Vinda do teatro (na foto, interpreta Clitemnestra em Oresteia, de Ésquilo em uma palestra de 2014 sobre crimes na literatura), apaixonada pelas artes, dedicou-se ao estudo da interpretação e da literatura, sem nunca deixar de lado os esportes e seu prazer em cantar ópera. Em 1969, ingressou na pós-graduação em literatura clássica de Harvard.

Seus estudos logo se voltaram para a filosofia antiga, permitindo-a acompanhar Aristóteles, que propôs a pergunta básica: “Como deve viver um ser humano?" Nussbaum percebeu que a filosofia atraía “pessoas dadas a uma lógica intricada e pedante", quase sempre homens.

Acreditou ter entendido o pensamento de Nietzsche quando ele escreveu que nenhum grande filósofo jamais foi casado. “O que ele estava dizendo é que a maioria dos filósofos foge da existência humana", explica. “Nunca quiseram se enredar."

Mas, discordava da ideia dominante na filosofia contemporânea de que as emoções eram “energias impensadas, que simplesmente empurram a pessoa para tudo quanto é lado". Preferiu ressuscitar uma versão da teoria estoica que não separa pensamento de sentimento e conferiu protagonismo às emoções na filosofia da moral, argumentando que elas são de natureza cognitiva: incorporam juízos acerca do mundo.

Um de seus mentores, o inglês Bernard Williams, imputava aos filósofos da moral a recusa em “escrever sobre qualquer assunto relevante". Nussbaum pôs-se a pensar num papel mais público para a filosofia e a examinar a qualidade de vida nos países em desenvolvimento.

Quem a conduziu para essa área foi outro convidado do Fronteiras do Pensamento, o economista indiano Amartya Sen, que mais tarde ganharia o prêmio Nobel.

Em 1986, os dois, envolvidos num relacionamento amoroso, foram trabalhar no Instituto Mundial de Pesquisa em Economia do Desenvolvimento (Universidade da ONU), em Helsinque. Lá ela percebeu que “não sabia nada sobre o resto do mundo".

Sozinha, estudou a política indiana e desenvolveu sua versão de “capacidade", um arcabouço teórico que Sen elaborou para medir e comparar o bem-estar das nações. Seu trabalho anterior havia celebrado a vulnerabilidade; agora, ela se dedicava a identificar quais vulnerabilidades nenhum ser humano deveria suportar (pobreza, fome, violência sexual).

Munida de espírito aristotélico, Nussbaum delineou uma lista de dez capacidades essenciais a serem cultivadas pelas sociedades, entre as quais a liberdade para brincar, refletir criticamente e amar. A teoria das capacidades é hoje central na defesa dos direitos humanos.

Em seguida, a filósofa se propôs a complementar a obra de John Rawls, um de seus grandes mentores, que produziu a mais influente versão contemporânea da teoria do contrato social: cidadãos racionais concordam em se governar porque reconhecem que as necessidades de cada um são mais bem atendidas por meio da cooperação.

Para ela, esta ideia não dá conta do que seria a justiça para quem depende dos outros – velhos, pessoas com necessidades especiais, donas de casa subservientes. A fim de permanecer estável e comprometida com ideais democráticos, uma sociedade necessita mais do que princípios morais distantes: é preciso cultivar certas emoções e ensinar as pessoas a sentir empatia.

Nussbaum propõe, portanto, uma versão mais desenvolvida da “educação estética" de John Stuart Mill – um refinamento emocional para todos os cidadãos por intermédio da poesia, da música e das artes plásticas. “O respeito, em si, é frio e inerte, insuficiente para a superação das tendências que levam os seres humanos a tiranizar uns aos outros", escreveu ela na recente obra Political emotions (2015), “ A cultura pública não pode ser morna e desprovida de paixão."

Por todos esses motivos, ao contrário de muitos filósofos, Nussbaum tem uma prosa elegante e lírica, que descreve com emoção a dor de reconhecer as próprias vulnerabilidades – pré-requisito para uma vida ética, segundo ela. “Ser um ser humano bom", afirma, “é possuir certa abertura para o mundo, a capacidade de confiar no que é incerto, naquilo que está fora de controle e pode nos destroçar."

Ela almeja um “estilo de escrita que não constitua uma negação", um modo de descrever experiências emocionais sem delas apartar o sentimento. E desaprova o estilo convencional da prosa filosófica, que julga “científica, abstrata, de uma insipidez higiênica", além de desconectada dos problemas de seu tempo. Como Narciso, diz, a filosofia se apaixona pela própria imagem e se afoga.


Confira o extenso perfil de Nussbaum no site original, The New Yorker, e sua tradução na Revista Piauí

Mais sobre a vida, a obra, as ideias e paixões de Nussbaum podem ser vistos no programa O belo e a consolação, produção holandesa. A série foi uma das pioneiras neste tipo de show que reúne estética, filosofia e vida cotidiana em episódios com grandes pensadores.

O belo e a consolação recebeu mais de duas dezenas de nomes como a psicóloga Elizabeth Loftus, o filósofo Roger Scruton, o crítico literário George Steiner e o historiador, que também já esteve no Fronteiras, Simon Schama. Boa dica de série. Clique nos nomes para assistir aos outros episódios.