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O cérebro humano e o trabalho do futuro

Suzana Herculano-Houzel é uma neurocientista pioneira. A brasileira, que recentemente se tornou professora da Universidade Vanderbilt (EUA), ganhou reconhecimento mundial ao transformar cérebros de diferentes espécies em “sopas" capazes de mostrar o número de neurônios.

O estudo desbancou duas hipóteses consolidadas pela ciência: a de que o cérebro humano seria especial por ser maior e a de que todos os cérebros mamíferos eram feitos do mesmo modo.

A pesquisa de Herculano-Houzel, descrita em seu mais novo livro, The human advantage (MIT Press, 2016) mostrou que o cérebro humano possui 86 bilhões de neurônios e mais poder de processamento do que qualquer supercomputador já criado – e o grande diferencial surge agora: o cérebro tem esse poder utilizando menos energia do que uma lâmpada de 30W.

Não é difícil deixar de lado as “supercapacidades" cerebrais quando falamos tanto sobre a “evolução" da tecnologia e, de fato, o avanço no campo da Inteligência Artificial acontece diariamente. Na semana passada, a empresa Uber anunciou uma nova divisão de IA, a Uber AI Labs, para desenvolver tecnologia de ponta, como carros sem motoristas. Levando em conta que há 1,5 milhão de motoristas na Uber, estes novos veículos podem ter um grande impacto no trabalho.

Também, há alguns dias, a Amazon falou sobre sua loja futurística, a Amazon Go: localizada na cidade de Seattle, os clientes poderão pegar os produtos e ir embora, com a conta sendo debitada automaticamente on-line por meio de um aplicativo.

Enquanto isso, a British Retail Consortium estima que, até 2025, um terço da força de trabalho no comércio varejista desaparecerá.

Isso pode soar triste ou fatalista, mas mesmo que dias difíceis venham, nem tudo é perdição. A tecnologia certamente afetará o trabalho como o conhecemos hoje, mas novas possibilidades se abrem devido à imensa capacidade cerebral. Diferentemente de computadores, os seres humanos são capazes de se reinventarem, como novas respostas a novos contextos.

Este diferencial foi determinante em 1997, quando Garry Kasparov foi vencido em uma partida de xadrez por um computador,ele afirmou que via um futuro positivo à sua frente: agora, ele poderia aprender novas jogadas e habilidades. Em suas palavras, “O ser humano pode não conseguir mudar seu hardware, mas é capaz de atualizar seu próprio software".

A espécie humana tem a capacidade de se reeducar para os trabalhos do futuro – desde que grandes investimentos sejam feitos em educação e treinamento, e que este investimento não deixe ninguém de fora.


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Vídeos com Suzana Herculano-Houzel

A neurocientista fala sobre o mito do excesso de estímulos, a importância da leitura e do acesso à ciência, a relação entre as revoluções tecnológicas e a evolução cognitiva.


Vídeos com Garry Kasparov

O enxadrista e ativista político é protagonista do curta-metragem Garry, além de defender que a inovação contemporânea está bem aquém do que poderia estar.