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O cerne da liberdade é a liberdade econômica

O direito de construir uma casa onde quiser, de abrir a empresa que quiser, como quiser. O direito de criar e empreender, de se desenvolver. Seria esta a definição de liberdade? Segundo Deirdre McCloskey, sim. 

A liberdade de construir o próprio caminho tem seu custo, claro, mas, no fim das contas, esta pode ser a liberdade que mais interessa para a maioria das pessoas: a liberdade econômica. Esta é a ideia defendida por uma das maiores defensoras da liberdade na economia, Deirdre McCloskey. 

Entenda o ponto de vista neste texto traduzido pelo Fronteiras. 

Deirdre McCloskey | O cerne da liberdade é a liberdade econômica

Desde a emergência, no final dos anos 1800, do socialismo, do novo liberalismo e do progressismo, tornou-se convenção tratar a liberdade econômica como algo vulgar e opcional – algo pelo qual apenas os abastados se preocupam. Mas o liberalismo original dos anos 1700 – representado por Voltaire, Adam Smith, Tom Paine e Mary Wollstonecraf – entendia que uma liberdade econômica para ricos e pobres significava não intervir nas coisas dos outros.

Adam Smith falou do “projeto liberal de igualdade [social], liberdade [econômica] e justiça [legal]”. Era uma boa ideia, nova em 1776. E nos dois séculos que se seguiram, a ideia liberal se demonstrou capaz, de forma impressionante, de gerar pessoas ricas e felizes, que antes eram desesperadas e pobres. Não devemos perder isso.

Já nos anos 1800, a maioria dos pensadores, como Henry David Thoreau, eram liberais econômicos. Thoreau, por volta de 1840, inventou procedimentos para a pequena fábrica de lápis de seu pai, o que tornou a sua empresa, a Thoreau and Son líder em vendas de lápis por quase uma década nos Estados Unidos. Ele era um homem de negócios tanto quanto um ambientalista e desobediente civil. Quando as importações de lápis de alta qualidade finalmente tomaram a dianteira, a Thoreau and Son graciosamente se retirou, passando a fabricar grafite para a impressão de gravuras.

Esse é o contrato econômico liberal. Você pode oferecer, no primeiro ato, um melhoramento para os consumidores, mas você não consegue se preparar para proteger-se depois de competidores. Depois de montar seu negócio no primeiro ato, você enfrenta a competição em um segundo ato. Que pena.

Em seu livro Sobre a Liberdade (1859), o economista e filósofo John Stuart Mill declarou que “a sociedade não admite o direito, legal ou moral, dos competidores decepcionados à imunidade desse gênero de sofrimento; e sente-se solicitada a interferir somente quando os meios de sucesso empregados não são permitidos, por contrários ao interesse geral, como a fraude ou a deslealdade, e a violência”. Sem protecionismo. Sem nacionalismo econômico. Os consumidores, entre eles os pobres, são capacitados, do primeiro ao terceiro ato, a comprarem lápis mais baratos e melhores.

A liberdade econômica, que funciona dessa forma, é parte integrante da liberdade. É claro.

De fato, a liberdade econômica é a liberdade com a qual a maioria das pessoas comuns se importa. Na verdade, os direitos de expressão, de livre imprensa, de reunir-se, de protestar, de votar em um novo governo, são todos, a longo prazo, proteções essenciais para todas as liberdades, inclusive o direito econômico de comprar e vender. Mas, essas liberdades são apreciadas, na maior parte, por uma minoria educada. 

A maior parte das pessoas – realmente, a longo prazo – está mais preocupada em abrir seu negócio quando assim quiserem e em trabalhar ganhando salários decentes. A maioria dos turcos votou a favor da rápida entrada da Turquia no neofascismo em 2013, sob o governo de Erdoğan. Mussolini e Hitler venceram eleições e eram muito populares, enquanto vigorosamente aboliam liberdades. Até alguns governos comunistas foram eleitos – como a Venezuela de Chavez.

O protagonista do livro Tudo Passa, de Vasily Grossman (1905-1964), o único exemplo de escritor stalinista que se converteu totalmente ao anticomunismo, afirma que “eu costumava pensar que liberdade era liberdade de expressão, de imprensa, de consciência. Eis ao que ela se resume: você tem que ter o direito de plantar o que desejar, de fazer calçados ou casacos, de assar um pão com a farinha do trigo que você colheu e de vendê-lo, ou não, conforme desejar; ... o direito de trabalhar conforme desejar e não conforme os outros mandarem”.

O abençoado Adam Smith sentiu-se ultrajado pelas interferências, na Grã-Bretanha dos anos 1700, no direito dos trabalhadores de serem livres para procurar um trabalho lucrativo. “A propriedade que cada homem tem de seu próprio trabalho, por ser o fundamento original de todas as outras propriedades, é a mais sagrada e inviolável. Privá-lo de empregar isso (...) da maneira que ele considerar correta e sem danos ao seu semelhante, é uma violação direta da sua mais sagrada propriedade”. 

A liberdade econômica, supreendentemente, enriqueceu significativamente o mundo de bens e serviços. O quanto? Em 1800 a renda por cidadão em um país como a Suécia ou o Japão, corrigida para valores atuais, era de cerca de 3 dólares ao dia. Hoje ela passa de 100 dólares ao dia, um aumento de 3200%. Não apenas 100% ou 200%, mas 3200%. O enriquecimento não era um fator duplo, como anteriormente foi rotina de tempos em tempos, como no auge da Grécia antiga ou da dinastia Song chinesa. Expectativa de vida duplicada. Residências maiores. Transporte mais rápido. Educação superior. Se você tem dúvida, assista aos surpreendentes vídeos do falecido Hans Rosling no site Gapminder.

As explicações costumeiras do Grande Enriquecimento dos economistas e historiadores não procedem. A acumulação de capital ou o imperialismo não foram as causas. Foi o talento, e ele foi causado, por sua vez, por uma nova liberdade após 1800. 

O projeto liberal de igualdade, liberdade e justiça gerou massas de pessoas ousadas – primeiro os homens livres e ricos, depois os pobres, os ex-escravos, então as mulheres, os gays, os deficientes, e assim por diante. Fez de todos livres e, quando aconteceu (o experimento nunca havia sido tentado em tamanha escala), passaram a haver massas e massas de pessoas inspiradas a tentar. 

walt whitman

“Eu contenho multidões”, cantou o poeta da nova liberdade [Walt Whitman]. E de fato ele o fez. Ele e seus amigos investiram em motores a vapor, universidades de pesquisa, ferrovias, escolas públicas, eletricidade, corporações, engenharia e armazenamento de código aberto e a internet. Nos tornamos ricos por garantir a liberdade das pessoas comuns.

E agora esse “nós” se estendeu muito além de seu lugar de origem, o noroeste europeu. A China, após 1978 e a Índia, após 1991, começaram a abandonar a teoria europeia antiliberal do socialismo, criada no meio dos anos 1800 e exportada nos anos 1970 para um terço do planeta. 

O resultado dessa virada em direção ao liberalismo econômico foi que o crescimento anual de bens e serviços disponíveis para os mais pobres da China e da Índia aumentou do seu nível socialista de 1% ao ano (às vezes, negativo), para entre 7% e 12% ao ano. Nessa velocidade, vai demorar apenas duas ou três gerações para que ambos os países possuam padrões europeus de vida. Um projeto assim para quatro em dez pessoas não é apenas um sonho. 

Enriquecimentos similares foram alcançados em um tempo parecido em Hong Kong, Coreia do Sul, Singapura e Taiwan, além de outras surpreendentes histórias de sucesso do novo liberalismo e governos relativamente honestos na Irlanda e em Botswana.

Um governo economicamente antiliberal pode, claro, fazer empréstimos com países liberais. A União Soviética o fez entre 1917 e 1989, por exemplo, e por muito tempo muitos economistas ocidentais acreditaram no conto de fadas de que o Planejamento Central funcionava. 

Quando o comunismo caiu em 1989, descobrimos definitivamente que esse planejamento não funcionou, nem para e economia, nem para o meio-ambiente, ou para outras liberdades. Singapura é as vezes citada como exemplo de tirania inteligente. Assim como a China, ainda dominada pela elite dos membros do Partido Comunista. Ambos, entretanto, praticam uma significativa liberdade econômica, apesar de seu lamentável hábito de manter prisioneiros políticos.

E o enriquecimento, no fim, leva ao clamor por todas as liberdades, tanto políticas quanto econômicas, como ocorreu em Taiwan e Coreia do Sul. Pessoas enriquecidas não vão mais aceitar a servidão. E, de qualquer forma, o resultado médio de tiranias é economicamente desastroso, como em Zimbabwe, vizinha da próspera Botswana ou, aliás, na longa e sombria história antiliberal mundial desde a invenção da agricultura até os anos 1800.

O evangelho cristão afirma que, “ao se dar lucro para um homem, se ele vai ganhar todo o mundo e perder sua própria alma”. A acusação contra a liberdade econômica sempre foi que, mesmo se ganharmos o mundo em bens, perderemos nossas almas. 

A esquerda radical nos diz que a livre troca é intrinsicamente maléfica. Qualquer extensão irá meramente aumentar o mal. A direita radical nos diz que a livre troca é ignóbil se comparada com as glórias da hierarquia e da guerra. Mas tanto direita quanto esquerda radical, assim como o centro, quando reclamam do “consumismo” estão enganadas. 

A prova é que que a liberdade econômica não nos corrompe, mas nos torna mais virtuosos, além de muito ricos. Ela nos enriquece materialmente e espiritualmente.

Para começar, a troca mutualmente vantajosa não é a pior das escolas de ética. Ela é melhor que o violento orgulho dos aristocratas ou a virulenta insolência dos burocratas. E no liberalismo econômico, o desejo humano de sucesso é proporcionado por milhões de caminhos honrados, desde a construção de ferrovias em miniatura até a carreira artística, ao contrário de sociedades antiliberais onde o estreito caminho para o sucesso é a corte, o partido ou o exército. 

Não perdemos nossa alma com o comércio, mas a cultivamos. Os militares, admirados hoje até em sociedades liberais, são elogiados diariamente pelo seu “serviço”. Mas todo ato econômico entre adultos consensuais é um serviço. Os hábitos éticos do comércio se expressam diariamente quando o vendedor norte-americano recebe seu cliente com um “como posso ajudá-lo?”.

O resultado disso é que os museus e casas de show em países bem-sucedidos estão cheias, as universidades florescendo, e a busca do transcendente, fora das igrejas estabelecidas, está se expandindo. Não se pode assistir à transcendência da arte, da ciência, dos esportes, da família, ou de Deus quando se está de joelhos em uma lavoura da manhã à noite.

A melhor forma de tornar as pessoas ruins e pobres é o projeto antiliberal do comunismo, do fascismo e até do lento, porém doce socialismo do excesso de regulamentação. As mulheres dos déspotas teocráticos da Arábia Saudita ficam presas em casa, proibidas de fazer tudo, até dirigir um automóvel. O nacionalismo econômico da nova direita é empobrecedor e nos fecha para ideias de um mundo amplo. Se as melhorias estão ficando mais lentas nos Estados Unidos – uma acusação amplamente verbalizada, porém duvidosa – precisamos importar melhorias de países em desenvolvimento como a China e a Índia, não nos isolando para “proteger empregos” em casa. A lógica protecionista diz que deveríamos fabricar tudo em Illinois, Chicago, ou nas ruas de nossas casas. Cereal matinal. Acordeões. Computador. É uma tolice infantil para a economia, apesar de empolgante para os nacionalistas.

No cerne do comunismo, do fascismo e do impulso regulatório do meio do espectro da compulsão governamental, está o hábito se meter massivamente com os assuntos das pessoas. Nos Estados Unidos, mais de 1000 profissões requerem licenças do governo. Abrir um novo hospital requer que os hospitais existentes assinem um certificado de necessidade. No Tennessee, se você quer abrir uma empresa de frete – com apenas dois funcionários e um caminhão – você precisa, por lei, da permissão das outras transportadoras. A proteção de empregos existentes criou mundialmente um desemprego massivo e politicamente explosivo entre a juventude. Um quarto do povo francês abaixo de 25 anos e recém-formados estão desempregados. A situação é pior na África do Sul.

Entretanto, verdadeiros liberais e humanistas não são anarquistas (do grego anarchos, “sem líder”). Podemos admitir que pode ser bom relaxar a liberdade econômica um pouco ao taxar os bem-sucedidos com o objetivo de ajudar os pobres, por exemplo, com uma educação pública. Não há discussão aqui – Smith, Mill e até Thoreau concordavam (realmente, grandes governos rotineiramente também dão uma mão para os ricos e poderosos, por exemplo, com proteções aos fazendeiros dos Estados Unidos e o Mercado Comum. Grandes governos seguem uma torpe versão da Regra de Ouro, na qual quem tem o ouro, dá as regras). E pode-se admitir que se os canadenses invadissem os Estados Unidos, a liberdade seria utilmente abrandada durante o conflito, se prudente, para a defesa. Sem embate aí, também (entretanto, grandes governos rotineiramente trocam a paz por conquistas gloriosas. Cuidado com os canadenses).

A solução, segundo o liberalismo, é restringir o poder do governo, mesmo quando o governo é popular. Muitas vezes o fascismo, e diversas vezes o comunismo, infelizmente, são muito populares, até algo dar errado. As pessoas apoiam a violência de uma suposta gloria de agressões governamentais contra estrangeiros (veja a Europa em agosto de 1914) e os supostos “almoços grátis” resultantes do controle governamental da economia (veja a Venezuela em agosto de 2017).

O melhor é manter o governo encoleirado. Dos 190 governos do mundo classificados por honestidade, com a Nova Zelândia no topo e a Coreia do Norte em último lugar pode-se apenas, generosamente, considerar-se os 30 primeiros como honestos o suficiente para a tarefa. A Espanha está na margem. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos se qualificam. A Itália, que ocupa a 75ª posição, logo acima do Vietnã, não se qualifica. Mas os 30 governos mais honestos servem meramente a 13% da população mundial. Isso significa que 87% do mundo está sendo governado corruptamente e incompetentemente, por um padrão relaxado de bondade. O cálculo demonstra que o otimismo entre pessoas dispostas da esquerda e entre pessoas não tão dispostas na direita em aumentar os poderes antiliberais do governo é ingênuo. Thoreau escreveu, em um estilo verdadeiramente liberal, “De coração aceito o lema, - ‘que o melhor governo é o que menos governa’ – e gostaria e ver isso sendo empregado mais velozmente e sistematicamente”.

Sim, com algumas modestas exceções.


Esse artigo é um excerto de texto que fará parte de um volume da Iniciativa de Renovação Democrática.

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Deirdre Nansen McCloskey foi professora de economia, história, inglês e comunicação social na Universidade de Illinois em Chicago de 2000 até 2015. Uma reconhecida economista, historiadora e retórica, ela escreveu mais de 17 livros e por volta de 400 artigos sobre assuntos que vão de técnicas econômicas e teoria estatística aos direitos dos transgêneros e as éticas das virtudes burguesas. Seu livro mais recente, lançado em 2016 pela Editora da Universidade de Chicago é Bourgeois Equality: How Ideas, Not Capital or Institutions, Enriched the World [Igualdade Burguesa: como as ideias, não o capital ou as instituições, enriqueceram o mundo], no qual ela defende uma explicação “ideacional” para o Grande Enriquecimento de 1800 até o presente.