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O histórico da desigualdade

Ilustração: Danny Schwartz
Ilustração: Danny Schwartz

Em tempos de crise econômica, são muitos os teóricos envolvidos na discussão sobre suas causas e suas características, e sobre possibilidades de superá-la. Neste contexto, nem um pouco simples e de difícil compreensão para grande parte da população, entram teorias que buscam explicar as razões da desigualdade social e da concentração de renda - visto que a parcela mais pobre da sociedade é a primeira a sentir o momento de recessão. Thomas Piketty é um dos economistas de maior destaque na atualidade ao tratar de desigualdade econômica e redistribuição de renda, tocando na polêmica proposta de taxação da parcela mais rica da população.

Qual é a lógica da economia capitalista no século 21? Como a formação histórica desta lógica se desenvolveu em diferentes lugares do mundo?

Em artigo para o especial do Fronteiras do Pensamento no jornal Folha de S.Paulo, Vinicius Torres Freire* explica e analisa algumas ideias trazidas pelo economista francês em sua principal obra, O Capital no Século XXI". Confira!

THOMAS PIKETTY está confirmado na temporada 2017 do Fronteiras do Pensamento. O economista falará em setembro nas conferências de Porto Alegre e São Paulo. Dúvidas? Ligue para nossa Central de Relacionamento diariamente, das 10h às 17h, inclusive feriados e fins de semana.

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Com dados novos e método criativo, Piketty balança teoria econômica | Vinicius Torres Freire

Em 2014, vários dos melhores economistas do mundo faziam questão de discutir "O Capital no Século 21", o improvável best-seller de Thomas Piketty.

Um livro denso, de mais de 600 páginas de história e estatística econômicas, tornara-se a obra de não ficção mais vendida da primavera dos Estados Unidos. Aparecia em capas dos jornais.

Piketty, apesar de laureado, é ainda jovem, à beira dos 46 anos, respeitado mesmo em centros ortodoxos da disciplina (foi professor do MIT ao 22). Por que o tumulto?

Além de escrever trabalho rigoroso, Piketty sempre quis lançar polêmica com seu livro, que termina com a sugestão de aumento de impostos. Lançada em 2013 na França, a obra não causara rumor fora de círculos acadêmicos e políticos restritos, porém.

Nos EUA, Piketty entrou no centro da batalha política e intelectual séria sobre desigualdade, mais quente depois da crise de 2008. A disputa fora às ruas em 2011, com o movimento "Occupy Wall Street", por exemplo, um ataque ao "1% mais rico". Desde os anos 1980, a desigualdade cresce nos EUA; os salários medianos estagnaram desde então.

As pesquisas de Piketty tentam explicar o motivo dessa iniquidade crescente, similar em economias mais ricas, e pensá-la em longo prazo (de 100 a 200 anos). Para tanto, desenvolveu métodos de estudo sobre rendimentos do trabalho e o capital.

Os números melhores vêm basicamente de duas fontes. Uma delas são pesquisas em que amostra de indivíduos responde a questionários a respeito de quanto ganham, como a Pnad brasileira.

Esses levantamentos tendem a subestimar rendimentos dos muitos ricos e aqueles não derivados do trabalho. Tal deficiência pode ser sanada por dados das declarações de imposto e patrimônio. Combinar "Pnads" e "IRs" não é simples.

De posse desses dados, Piketty mostrou a concentração crescente de renda e capital no centésimo ou no milésimo mais rico. A concentração, brutal na virada do século 19 para o 20, caíra entre a Segunda Guerra e os anos 70, para voltar a crescer, na direção daquela dos anos da "Belle Époque": a do capitalismo patrimonial, em que herdeiros vivem de rendas.

A concentração da riqueza caíra no pós-guerra devido a guerras, inflações e aumento do poder político dos mais pobres. O enfraquecimento dessa tendência popular e uma engrenagem da economia capitalista deram cabo do período mais igualitário.

Piketty acredita ter demonstrado o fator da tendência de aumento da desigualdade de longo prazo. Quando a taxa de retorno do capital supera a taxa de crescimento da economia (do PIB), o rendimento de quem tem patrimônio produtivo (capital) tende a crescer mais rápido do que o aumento dos salários (que não supera o aumento do PIB por períodos longos). Como a propriedade do capital é muito mais concentrada que a do rendimento do trabalho, patrimônio e rendimentos tendem a se concentrar ainda mais.

Com dados novos e método criativo, mas ortodoxo, Piketty balança a política e modelos da teoria econômica

(Via Folha)

*Vinicius Torres Freire é colunista de economia e política da Folha de São Paulo há mais de dez anos, e já ocupou vários cargos no jornal desde 1991. Mestre em administração pública, economia e desenvolvimento econômico pela Universidade de Harvard.