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O inferno dos outros

Ilustração por Amanda Cass
Ilustração por Amanda Cass

Romancista israelense de renome mundial e um dos maiores defensores do diálogo entre Palestina e Israel, David Grossman teve sua vida e obra marcadas pela tensão experimentada no convívio das duas nações. Filho de um taxista que virou livreiro emigrado na Polônia, o escritor passou sua juventude em Jerusalém, onde se formou em Filosofia e Teatro, tendo cumprido serviço militar e suportado mais de quatro guerras ao longo de sua vida.

Essa variedade de experiências integra sua literatura. Em livros como A mulher foge e o Livro da Gramática Interior, a sombra da guerra está sempre presente como pano de fundo, representando um fenômeno ativo na alteração da vida das personagens. Ainda assim, o verdadeiro tema do autor, foco de seus livros, é a condição humana, sofrimento e alegria lado a lado.

Em artigo para o jornal O Globo, a jornalista e escritora Adriana Carranca - que escreve frequentemente sobre conflitos religiosos - relata sua experiência com a obra de Grossman.

David Grossman foi conferencista do evento especial do Fronteiras 10 anos em Porto Alegre, em 2016. Na ocasião, Adriana Carranca foi convidada a entrevistar o autor.


O Inferno dos Outros | ADRIANA CARRANCA

Ele escrevia as últimas linhas do romance, quando foguetes do grupo xiita Hezbollah atingiram as fazendas de Shebaa, controladas por Israel, dando início a um novo conflito com o Líbano em 2006 (onde ele servira, em 1982). Às 2h40m do domingo, 13 de agosto, Grossman recebeu em casa a notícia da qual tentava fugir. Uri, de 19 anos, estava morto. O cessar-fogo entrou em vigor um dia depois. “Nós já perdemos esta guerra”, ele disse no funeral do filho.

Há um entendimento fundamental na frase de Grossman: a de que neste conflito ambos os lados estão perdendo. Conheci-o no ano passado, quando ele esteve no Brasil a convite do Fronteiras do Pensamento, e suas palavras ressoam agora. 

Antes de A mulher foge, Grossman escreveu sobre um menino que para de crescer às vésperas da Guerra dos Seis Dias, como se não quisesse se tornar adulto em um mundo de violência e mortes. Como o personagem, 1967 foi para Grossman o ano do bar mitsvá, e a explosão dos hormônios se misturou ao sentimento “tentador de conquista e rendição do inimigo” que “intoxicou a nação”.

“Eu não conseguia entender como uma nação inteira, uma nação iluminada, é capaz de se treinar para viver como conquistador sem tornar sua própria vida miserável”, refletiu Grossman, mais tarde, em The yellow wind. “O que aconteceu conosco?”

Para muitos israelenses, era a primeira vez que encaravam de maneira mais profunda a realidade da ocupação, disse Amós Oz, sobre o livro do colega à revista The New Yorker.

Nos anos 1990, Grossman era parte de um grupo de escritores que se encontrava secretamente (na época, israelenses eram proibidos de ter contato com representantes da Autoridade Palestina) em consulados estrangeiros em Jerusalém ou Ramallah, por julgar essencial ouvir um ao outro e encontrar pontos de convergência. “Eu entendia mais dele, de nós, da natureza do conflito.” Dois anos depois, o grupo se desfez — os autores palestinos foram acusados de normalizar a relação com Israel e assim “camuflar os horrores da ocupação”.

O fracasso dos sucessivos processos de paz distanciou-os mais e isso, por sua vez, afastou progressivamente essa opção. É um círculo vicioso. Nos conflitos prolongados, torna-se cada vez mais difícil reconhecer O inferno dos outros, título do livro mais recente de Grossman (Companhia das Letras). Mais do que isso, ao enxergar o inferno dos outros, reconhecemos nossos próprios demônios. O “inimigo”, acredita o autor, nos revela o que já não ousamos reconhecer, como um espelho.

No livro, Dovale, um comediante de stand up, atrai a plateia com piadas apenas para revelar uma verdade mais profunda. De repente, ele começa a contar algo terrível sobre seu passado. O público percebe e começa a deixar o lugar. “Gostamos de olhar o sofrimento do outro apenas por um instante e voltar à nossa vida protegida”. Mas os que ficam e se dispõem a encarar o inferno de Dovale aos poucos enxergam naquele homem rude e agressivo a ternura e fragilidade que ele teve de negar para sobreviver. “Talvez aí você encontre uma camada política de nós, como um Estado.”

“Somos especialistas em sobrevivência”, diz. E isso é parte da tragédia. “Ao longo de nossa história, o povo judeu sobreviveu para poder viver sua vida. E agora vive para sobreviver apenas”.

É inegável a necessidade de Israel manter um Exército forte, numa região em chamas. “Veja Síria, Iraque, Líbia e o que fazem com seus próprios irmãos muçulmanos. Imagine o que não fariam com Israel, se pudessem.” Mas Grossman entende também que um Exército forte traz apenas uma falsa aparência de segurança e não a paz. É uma diferença fundamental.

A segurança deve ser acompanhada de mudança de atitude em relação ao “outro”. “A maioria dos israelenses diz que nada pode ser feito, estamos fadados a viver dessa maneira. Isso é catastroficamente perigoso. Desesperados, nos voltamos para os que oferecem solução fácil, a dicotomia entre mocinhos e bandidos. Isso simplifica o mundo e nos dá a sensação de sermos justos. Mas a paz exige mudar mais em nós mesmos do que no outro.” Isso serve a ambos. “Busco a solidez de nossa existência sem muros.”