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O que Manuel Castells tem a ver com Porto Alegre

Sociólogo espanhol, Manuel Castells é o conferencista do Fronteiras do Pensamento desta semana (POA, 10/06; SP, 11/06). Em sua fala homônima à sua mais recente obra, Redes de indignação e esperança, Castells aborda os movimentos sociais na era da rede. Abaixo, divulgamos o texto inicial da matéria de Carlos André Moreira ao jornal Zero Hora, caderno Cultura. Nele, Daniel Bittencourt e Maria Clara Aquino Bittencourt* relacionam o pensamento de Castells ao contexto de Porto Alegre. Leia abaixo:

Circular por áreas diversas do conhecimento tem-se tornado frequente no atual contexto societário de confluências e rupturas diante do desenvolvimento das tecnologias de comunicação. Mas essa circulação não raro produz conclusões precipitadas e entusiásticas baseadas em observações rasas e superficiais. Não é o que faz Manuel Castells.

Suas primeiras contribuições datam dos anos 1970, mas o sociólogo espanhol é, sem dúvida, um pensador do século 21. Castells passeia pelos anos para recuperar o passado confrontando-o com o presente, construindo análises com base na evolução das sociedades e apresentando dados e argumentações que elucidam com clareza as condições de desenvolvimento sob a ótica da tecnologia. Sob um tom analítico e crítico, seus textos cruzam pensamentos e abordagens, adquirindo uma densidade que mescla com desenvoltura e concisão dados quantitativos e qualitativos.

A era da informação, trilogia publicada nos anos 90, tornou-se sua principal colaboração para os estudos sobre os impactos sociais, culturais, econômicos e políticos da tecnologia. Suas obras posteriores atualizam os conteúdos já tensionados com o cuidado de aproximar as análises do tempo presente, garantindo a legitimação de seus argumentos e proposições com base na dinâmica do atual contexto, fortemente impregnado pela presença das ferramentas de Comunicação Digital.

Seu livro mais recente, Networks of outrage and hope (2012, Polity) [Redes de indignação e esperança, com previsão de lançamento para setembro no Brasil (editora Zahar)], volta-se para uma manifestação nada nova das sociedades, porém fortemente reconfigurada a partir dos usos e apropriações de dispositivos móveis e sites de redes sociais. Discutindo o impacto da estrutura em rede das sociedades em suas configurações políticas, Castells direciona seu foco de atenção aos movimentos sociais, sua formação e sua dinâmica, elaborando uma análise sobre as mídias e as relações comunicacionais em um cenário no qual a persuasão e a resistência se enfrentam em um jogo de poderes.

Em Networks of outrage and hope, Castells conta como, depois de passar grande parte da última década estudando a transformação das relações de poder em interação com as transformações no âmbito da comunicação, identificou o desenvolvimento de um novo padrão de movimento social, o qual, na sua opinião, caracteriza uma mudança no século 21. Sob a influência de John Thompson, ao qual devemos agradecer, foi impelido a publicar, em um curto prazo e em bem menos páginas do que costuma escrever, suas ideias e impressões sobre os movimentos sociais na era da Internet. Castells, que teve participação ativa no movimento espanhol Indignadas, conta que ter vivido a experiência foi mais fascinante do que escrever sobre o tema.

Em Porto Alegre, vive-se hoje uma efervescência de movimentos, e o livro do sociólogo espanhol chega em momento propício para instigar a reflexão sobre uma das principais causas que fundamentam novos modos de engajamento político e social: a ocupação de espaços públicos. A cidade vem sendo transformada pelo exercício da cidadania em um espaço que se torna cada vez mais coletivo pelas ações de seus próprios ocupantes; e o PortoAlegre.cc figura como um metamovimento que tem como uma de suas principais bases a retomada da cidade pelos seus habitantes.

Diante de problemas estruturais e sociais, como a violência que gera o medo, por exemplo, percebe-se, pelas ruas e praças, o fortalecimento de sentimentos de indignação e, ao mesmo tempo, de esperança, canalizada através de múltiplas ações que lutam pela reocupação de espaços coletivos. Ocupar um parque do tamanho da Redenção, durante a noite, parecia insanidade [Serenata Iluminada, 08/06, foto à esquerda]. Até a proposição de uma causa na plataforma PortoAlegre.cc, que acabou reunindo 2 mil pessoas em sua primeira edição, 4 mil na segunda e mais de 7 mil pessoas já estão mobilizadas para ocupar o mesmo espaço público neste sábado. De forma completamente pacífica, organizados de forma espontânea e horizontal e sem nenhum investimento financeiro, crianças, jovens, adultos e idosos se mobilizaram para retomar a Redenção, pedindo por melhorias na infraestrutura e por mais segurança, não só no parque, mas em toda a cidade.

Desse processo, do qual Castells aborda a transformação do medo em indignação e esperança, nascem os movimentos sociais que impulsionam e concretizam as transformações que, baseadas na comunicação pelas tecnologias digitais, são capazes de alterar a concepção do que aprendemos sobre esfera pública. A reflexão a que o sociólogo nos instiga destaca importância e o papel dessas manifestações, que canalizam o descontentamento dos cidadãos e são capazes de reconfigurar as formas de representação política, alterando a estrutura social como um todo.

Para Castells, o processo de mudança pelo qual o mundo vem passando é o verdadeiro produto, o que realmente possui um caráter transformador e revolucionário: a produção de material de mudança social, e não de objetivos programados, mas sim como resultado das experiências em rede dos atores em movimento.

*Daniel Bittencourt, coordenador do curso de Comunicação Digital da Unisinos, cofundador da plataforma PortoAlegre.cc e Maria Clara Aquino Bittencourt, pós-doutoranda do PPGCom da Unisinos