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O universal e o insólito, de Macondo a Havana

Ilustração: Carybé
Ilustração: Carybé

A enigmática Havana, terra natal e lugar onde vive até hoje o escritor Leonardo Padura, desperta curiosidade, questionamentos, encanto e desprezo, uma atração magnética ou uma repulsa completa, mas raramente causa indiferença. Suas particularidades, que vão desde o sistema político até a localização geográfica - uma ilha na América Central, a poucos quilômetros dos Estados Unidos, mas tão carregada da cultura latina - podem afastar ou aproximar nossa atenção.

É nesta lógica que o próprio Padura aborda frequentemente o caráter universal das histórias particulares que conta em sua obra. “Essas histórias não se limitam à circunstância cubana, porque também falam de temas como o medo, a corrupção, a ambição, toda essa parte obscura da condição humana”, afirmou o cubano em entrevista ao jornal O Globo.

Encontrar nos contextos distantes elementos de identificação é, talvez, uma forma de nos sentirmos mais unidos como humanidade. Em artigo, Leonardo Padura fala sobre outra obra conhecida por tratar de sentimentos universais do ser humano num contexto extremamente particular: o clássico de Gabriel Garcia Marquez, Cem anos de solidão. Em 2017, o livro faz 50 anos, e também neste ano o colombiano, autor da obra - falecido em 2014 - completaria 90 anos.

Leonardo Padura é conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2017. Leia abaixo o artigo do escritor.


O meio século dos cem anos mais lidos da literatura latino-americana | Leonardo Padura

Cinquenta anos mais tarde, diante de leitores cubanos e outros chegados de diversas comarcas do mundo, tive a oportunidade de festejar o meio século de existência do romance mais influente, lido, estudado e admirado da literatura latino-americana de todos os tempos, Cem Anos de Solidão (1967) e, de passagem, ou sobretudo, as nove décadas do nascimento de seu autor, o colombiano Gabriel García Márquez (1927), ambas datas a serem celebradas no ano atual.

A divisão mexicana do grupo editorial Planeta foi a encarregada de preparar a homenagem – talvez a primeira das muitas que serão feitas este ano –, realizada em duas sessões, como parte das atividades da recém-concluída Feira Internacional do Livro de Havana.

Em ambos os casos, como romancista cubano, coube a mim ser algo como o anfitrião de estudiosos, diplomatas e editores que, partindo de suas perspectivas e experiências particulares, falaram das diversas facetas do escritor: como colombiano da costa caribenha, como pessoa que se tornou personagem graças à sua obra e sua fama, como jornalista e, obviamente, como autor de Cem Anos de Solidão, seu romance imensurável, a obra que sem dúvida alguma e com toda justiça o levou a Estocolmo em 1982 para ali receber o Prêmio Nobel de Literatura.

Se alguma coisa foi constatada como síntese dos diversos olhares sobre a personalidade, o pertencimento cultural e o empenho literário e jornalístico de Gabo foi o fato magnífico e ao mesmo tempo dramático de revelar como todos os atos cotidianos e criativos de sua existência estavam predestinados a confluir na criação de Cem Anos de Solidão ou foram determinados pela publicação e o sucesso avassalador de um romance em que muitos enxergaram a melhor das sínteses da história de um continente marcado pelos traumas da colonização, as lutas fratricidas, a violência, a dimensão mágica e hiperbólica própria de sua consciência coletiva e a sobrevivência cotidiana da poesia como expressão mais justa da vida.

A meu ver, o grande mérito literário e cultural desse romance exemplar foi ter satisfeito explosivamente a exigência feita à literatura por Miguel de Unamuno um século atrás: essa capacidade de "encontrar o universal nas entranhas do local e, no circunscrito e limitado, o eterno".

Porque a história da vila perdida de Macondo, em um canto longínquo do Caribe colombiano, fundada e apagada da face da Terra nas páginas do livro, alcança o mérito de, partindo do cenário mais local e extraordinário possível e por meio da história de uma família peculiar, expressar toda uma visão de mundo, da história e da condição humana com uma perspectiva de um caráter tão universal que sua imagem fala de todo um país, de um continente, e o faz para todo o mundo.

Entretanto o extraordinário desse exercício foi que a origem de cada uma das peripécias e os contextos em que a fábula se desenrola não é obra da imaginação exuberante do autor, mas de sua extraordinária capacidade de observador e tradutor de uma realidade em que outros colombianos como ele viveram.

Um mundo em que tudo era (e é) possível e no qual, como dissera Alejo Carpentier referindo-se à realidade de toda a América, "o insólito é cotidiano, sempre foi cotidiano".

Foi esse caráter universal e permanente da obra de García Márquez, a contundente beleza com que ele revelou as peculiaridades de um mundo real e alucinado, que levou a notícia de sua morte (da qual em breve terão se passado três anos) a provocar um estremecimento semelhante ao que se seguiu à notícia do assassinato de John Lennon pelas mãos de um fanático, sobre a qual o próprio García Márquez escreveu, destacando como era encorajadora a comoção gerada no mundo pelo desaparecimento de um homem que não tinha exercido o poder nem comandado exércitos, mas apenas se dedicado a cantar o amor e criar beleza.

Quando Gabo morreu, como recordou um de meus colegas da homenagem em Havana, um certo toque de recolher foi decretado nas primeiras páginas dos jornais do mundo e, por um dia, as notícias sobre guerras, atentados, golpes de Estado e perseguições policiais, étnicas e políticas deixaram de dominar.

O melhor espaço, o espaço merecido, foi reservado à cobertura do desaparecimento físico de um homem que dedicou a vida à criação de beleza, desde sua pequena Macondo, teclando dia a dia em busca do melhor adjetivo, trabalhando para uma eternidade na qual, como acaba de acontecer em Havana, algumas pessoas possam se reunir e prestar uma homenagem em locais decorados apenas com as borboletas amarelas que voaram de seus romances em direção às nossas sensibilidades e gratidões de leitores, de latino-americanos, de habitantes da Terra.

(Via Folha)