Voltar para Artigos

Obra alimenta questões sobre sanidade de Joyce de modo instigante

Trazendo nas costas uma vasta erudição em cultura clássica, com direito a traduções da Odisseia e de Finnegan’s Wake (1939), Donaldo Schüler é um dos poucos intelectuais brasileiros com a formação necessária para compreender de maneira abrangente a obra de James Joyce. Em seu livro mais recente, Joyce era louco? (2017), o escritor e tradutor brasileiro estuda a trajetória literária de Joyce a partir de uma leitura psicanalítica baseada nos escritos de Lacan.

A psicanálise funciona como chave de leitura para entender o que há de artístico na loucura e o que há de louco na arte. A maneira como Joyce expandiu os limites da obra de arte escrita no início do século XX impulsionou os estudos psicanalíticos com os quais ele era familiarizado.

Quando discorreu sobre o inconsciente, Freud estava minando uma das grandes ingenuidades do homem de sua época: a unidade do ser humano. Este se tornava, ele próprio, fragmentário. É nesse contexto que as obras de Joyce analisam as milhares de facetas da vida cotidiana. Traduzindo a fragmentação do ser humano através da arte, principalmente com Ulysses (1922), a sagração da vida cotidiana, o escritor trouxe o que passava despercebido por seus contemporâneos para as obras de arte.

Donaldo Schüler foi professor e palestrante em países como Estados Unidos, Argentina, Canadá e Chile. Doutor em Letras e patrono da 50ª Feira do Livro de Porto Alegre, escreveu ensaios como Teoria do romance (1989), Narciso errante (1994) e Origens do discurso democrático (2002), e romances como A mulher afortunada (1981), Faustino (1982) e Império caboclo (1994). 

Schüler foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2007. Leia abaixo a crítica de Marcelo Tápia* para a Folha de S.Paulo sobre a obra mais recente do escritor. 


A pergunta-título do livro de Donaldo Schüler, Joyce Era Louco?, leva-me a outra, aparentemente menos plausível: Joyce era Deus?.

Louco é pouco no caso do escritor que criou Ulysses (1922), considerado por muitos o mais importante romance do século passado.

Louco é pouco: Joyce não só quis abarcar o mundo em um dia como também toda a criação em uma noite, por meio de sua radical (e onírica) obra Finnegans Wake (1939), escrita com palavras inventadas em mais de 60 idiomas, que organiza uma constelação de sentidos sobrepostos. 

Jamais bastaria ser servo da loucura para construir um universo de infinitos desdobramentos e, mesmo assim, dinamicamente harmonioso (ainda que simultaneamente dissonante) em seu eternamente expansivo conjunto.

Se o escritor acreditava ser um deus, suas realizações o levaram muito a sério. 

Donaldo Schüler - realizador da proeza de traduzir ao português toda a "proesia" de Finnegans Wake - dispôs-se a abordar as ideias do célebre psicanalista Jacques Lacan (que, em 1975, iniciou uma série de dez lições dedicadas ao escritor) e as discussões nele baseadas acerca da obra joyciana.

"O psicanalista atribui a estonteante inventividade de Joyce à mania e lembra que o termo deve ser entendido em sentido psiquiátrico", diz Schüler, para quem Lacan se referiria às características dos maníacos tais como eram identificadas desde o século 19: "sensibilidade, ilusões, exaltação, rupturas, ideias soltas, fugazes". 

Esse seria, portanto, o terreno fértil para a ocorrência singular - que tem motivado, ao longo do tempo, tantos estudos, discussões e leituras contínuas - da avalanche inventiva chamada Joyce.

Para Lacan, nas palavras de Schüler, Joyce sai de seu "corpo castigado para arquitetar o corpo da escrita, hostil a submissões"; suas "invenções delirantes" projetariam voos inesperados. 

Como o grande voo a que se lança Stephen Dedalus, personagem de Joyce construído à sua imagem, no romance O Retrato do Artista Quando Jovem (1916): em vez de seguir o sacerdócio, como se esperava dele no colégio jesuíta em que era castigado e aprisionado ao "chão", opta pela devoção à arte, que lhe dará as asas necessárias à sua visão de altura.

Sabe-se que Jung teria dito a Joyce, quando atendia a Lucia, filha do escritor, considerada esquizofrênica: "Ali onde você nada ela se afoga".

Busque-se entendê-la como loucura ou "divina" excepcionalidade, nada superará a interrogação associada à obra do irlandês, que nadava de braçada nas águas da criação. O influxo reflexivo trazido pela leitura de Joyce Era Louco? alimenta questões perpétuas de modo particularmente instigante. 

* Marcelo Tápia é doutor em teoria literária e literatura comparada pela USP, poeta e autor do recém-publicado Refusões - Poesia 2017-1982.

(Via Folha)