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Os valores burgueses e o crescimento econômico

Em tempos de extremismos políticos e ideológicos, a economista norte-americana Deirdre McCloskey se destaca por não ser categorizável, criando um projeto de teoria econômica abrangente, que critica tanto aspectos da direita quanto da esquerda. Uma "libertária humanizada", como se autodefine, McCloskey é, de fato, uma das grandes defensoras da liberdade de pensamento, de atitude e, principalmente, de escolha. Pois, é a partir da liberdade, defende, que surgem as mudanças econômicas: "Foram ideias e mudanças de atitude que geraram o nosso enriquecimento".

Sua teoria, desenvolvida ao longo de três livros já lançados - o mais recente foi publicado em 2016 - ressalta a importância dos valores da burguesia nos séculos XVII e XVIII. Além de suas contribuições para as discussões na área da economia, McCloskey também trabalha na defesa de pessoas transgênero.liberdade individual, respeito às diferenças e possibilidade de escolha. Todos estes temas e ideias são matéria-prima do artigo de Vinicius Torres Freire*, em texto para o especial do Fronteiras do Pensamento na Folha, em que explica e interpreta as ideias de McCloskey sobre o motivo do enriquecimento das nações. 

Para economista americana, ideologia burguesa é motivo do crescimento | Vinicius Torres Freire

Deirdre McCloskey já se disse uma libertária humanizada, entre outras autodefinições mais ou menos irônicas: aristotélica, pró-mercado, cristã progressista, literata. Adotada por ultraliberais, critica tanto esquerda como direita. Nasceu Donald em 1942, tornou-se Deirdre, transgênero, em 1995.

Doutorou-se economista em Harvard e ensinou na Universidade de Chicago. Foi formada no rigor do mainstream, pois. Atualmente, dá aulas também de literatura, clássicos e filosofia.

deirdre mccloskey fronteiras do pensamento

Jamais abandonou a disciplina econômica e quantitativa, mas sua grande obra, A Era da Burguesia, pretende demolir a teoria mais em voga sobre a questão original e fundamental dos economistas: o motivo da riqueza das nações.

Não se trata apenas de revisão histórica das causas da Revolução Industrial. Isto é, de reexplicar porque o noroeste da Europa e, logo depois, os Estados Unidos passaram a crescer mais rapidamente a partir do século 18. McCloskey afirma que sua explicação dá conta também do crescimento explosivo da China e da Índia a partir do final do século passado. A refutação de McCloskey é imensa, detalhada e erudita. Rejeita que o detonador do crescimento acelerado tenha sido, por exemplo, a coincidência de recursos naturais baratos (carvão) com tecnologia e acumulação de capital. Ou instituições que protegessem a propriedade e liberdades, puro interesse material ou novas classes.

NOVAS IDEIAS

O motivo do "grande enriquecimento" é anterior, de fins do século 17, uma transformação de caráter mais sociológico ou cultural, "ideológica", como ela escreve.

Crédito: Gage Skidmore

Virtudes burguesas passaram a ter dignidade, reconhecimento, aceitação, livre curso: tornaram-se respeitáveis. Mudou a "retórica" a respeito dos mercados (que sempre existiram, de um modo ou outro), da sabedoria prática de vida e negócios, do empreendimento inovador no comércio e na indústria. Mudaram as atitudes sociais em relação à nova riqueza.

"Retórica" é tema fundamental da obra de McCloskey. Tem aqui o sentido de disciplina ou padrões argumentativos, as tentativas de convencimento, persuasão, por meio de lógica, fatos, analogias, arte ou história.

O interesse próprio, mas não a ganância sem limite, é só um elemento de uma das virtudes burguesas, a "prudência" no sentido de sabedoria prática, combinação de senso comum e savoir-faire.

Onde floresce tal tipo de comportamento? Onde se admite a "destruição criativa" (inovações úteis podem acabar com velhos modos de vida). McCloskey rejeita socialismo e economias planejadas em geral, a dominância do interesse de grandes empresas, conservadorismo e, pois, hierarquias sociais. Crescimento é mais importante do que redução de desigualdade. Implica com regulações do Estado, mas não com certos tipos de seguridade social (welfare).

Em suma, o enriquecimento é inovação sem limite, pode causar transformações radicais e deriva da liberdade e da disseminação de virtudes burguesas. Como entendê-lo? Com uma "nova ciência da história e da economia, que aceite número e palavra, interesse e retórica, comportamento e sentido".

(Via Folha)

*Vinicius Torres Freire é colunista de economia e política da Folha de São Paulo há mais de dez anos, e já ocupou vários cargos no jornal desde 1991. Mestre em administração pública, economia e desenvolvimento econômico pela Universidade de Harvard.