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Pensamentos que inquietam e revolucionam

foto: Eneida Serrano
foto: Eneida Serrano

Para transformar o mundo é preciso transformar percepções. Sejam ideias sobre nós mesmos ou sobre a sociedade em que vivemos, o combustível para este novo ângulo de percepção passa pela imaginação.

Em 2016, o Fronteiras do Pensamento celebrou 10 anos trazendo ao seu palco nomes que ousam dar luz a perspectivas que desafiam. Como diz a escritora Cíntia Moscovich*, no texto Pensamentos que inquietam e revolucionam, “imaginação implica romper padrões e só através do rompimento se vai ao sumo".

Pensamentos que inquietam e revolucionam | Cíntia Moscovich

As coisas, ao menos aquelas que são secas e duras, têm lá no fundo, bem no miolo, uma outra parte e um outro jeito. Só conhece a coisa inteira quem se arrisca a esse núcleo tão profundo quanto agitado: no miolo, nada é igual à casca e tudo é fresco e de grande viço. Virar tudo do avesso em busca do sumo, começar outra vez e, de repente, parar para colher o tenro e fino, tudo só é possível através da imaginação. A edição de 2016, que comemora os 10 anos do Fronteiras do Pensamento, é sobre isso, sobre as mudanças proporcionadas pela potência da abstração e por suas virtudes inerentes.

Participando pela segunda vez do Fronteiras, Mario Vargas Llosa faz a conferência de abertura. Conhecido por seu talento como ficcionista, defensor da democracia e da liberdade, Llosa traz sua experiência na política latino-americana num conturbado momento na vida nacional.

Com a crença de que a arte – a literatura – é uma via de acesso para o lado próspero e sumarento que as mudanças radicais representam, o Fronteiras traz o britânico Ian McEwan e o francês Michel Houellebecq – que participou da primeira edição do ciclo de conferências, em 2007 –, autores que têm abordado, embora de maneiras diversas, o fundamentalismo religioso e os embates entre fé e ciência.

Ocupado em fazer das mídias digitais e da internet canais de disseminação do conhecimento, dedicando-se a elaborar uma linguagem universal para a rede, Pierre Lévy, que também esteve presente na primeira edição em Porto Alegre, representa a crença de que tudo criado por mente e mão humana é acervo e repertório comum.

Por outro lado, advogando que a mudança se dá através da particularidade e do original, o norte-americano Henry Louis Gates Jr. combate a visão padronizada e eurocêntrica, sustentando que a cultura negra deve ser abordada de sua origem e não a partir da perspectiva do Ocidente.

Como a imaginação implica romper padrões e só através do rompimento se vai ao sumo, o alemão Peter Sloterdijk classifica o papel da filosofia como marginal: os filósofos contemporâneos devem pensar de forma ousada, longe do seguro e do convencional, permitindo-se as intrincadas questões e as hipercomplexidades da atualidade.

Sabendo que as subjetividades são variadas, a crença na aceleração da vida tem gerado grande ansiedade individual e coletiva, e toda a atenção e a dedicação intelectual se têm dado no plano horizontal em detrimento ao conhecimento profundo e vertical, o projeto também traz a Porto Alegre a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco.

Autora das biografias de Sigmund Freud e de Jacques Lacan, Elisabeth crê que sua disciplina deve evoluir e acompanhar as mudanças contemporâneas, fugindo do conhecimento inflexível e cristalizado.

http://www.fronteiras.com/portoalegre/conferencia/jan-gehl

Então, para materializar a potência da imaginação, são necessárias medidas concretas, e o Fronteiras fecha o ciclo com o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl. Responsável por tornar Copenhague a referência em termos de planejamento e qualidade de vida no mundo todo, o depoimento de Gehl trará informações para que se pense a cidade como o local da mudança e da felicidade para as pessoas – e essa deve ser, mesmo, a grande virada civilizatória.

Se, de fato, a imaginação é o combustível da mudança, e a experiência tem mostrado que sim, cabe a cada um e a todos inventar aquele modo de vida que, ao mesmo tempo em que nos permite como indivíduos ser íntegros e singulares, como sociedade nos diferencie e nos restitua a dignidade que nos tem sido subtraída. O Fronteiras do Pensamento fecha seus primeiros 10 anos de vida certo de que gente muito comprometida com o mergulho ao miolo sumarento passou por aqui – gente que nos contagiou a todos da melhor maneira, aquela mais inquietante e revolucionária.

*Cíntia Moscovich é escritora e Mestre em Teoria Literária pela PUCRS