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Perigos e potenciais da raiva

Ilustração: Jo Tronc
Ilustração: Jo Tronc

Saber como lidar com a própria raiva é indispensável para viver em sociedade. Tanto no sentido de evitar conflitos em excesso - ou expressões de ódio que prejudiquem outras pessoas - quanto para o bem da nossa própria estabilidade mental. A temática é o centro do livro de Martha C. Nussbaum, Anger and Forgiveness: resentment, generosity, justice, publicado em 2016 e ainda sem tradução para o português. 

Para Nussbaum, filósofa norte-americana, mais do que apenas conter nossos sentimentos de raiva, podemos aprender a lidar com eles para torná-los produtivos.  O assunto também foi tema da Jefferson Lecture da pensadora no início do mês, em Washington D.C., nos Estados Unidos. Martha C. Nussbaum resgatou noções de justiça e vingança das democracias atenienses para pensar a temática. 

Martha C. Nussbaum é conferencista do Fronteiras do Pensamento 2017, e fala em dezembro em Porto Alegre e São Paulo. 

Confira o artigo de Scott Jaschik para o site norte-americano Inside Higher Ed,  que sintetiza as ideias apresentadas pela filósofa na palestra.


Raiva e Medo, Antes e Agora | Scott Jaschik 

Martha C. Nussbaum abriu sua palestra na Jefferson 2017 revisitando as transformações da democracia e justiça ateniense – e os limites da vingança – retratados na Oresteia de Ésquilo.

“Como nas democracias modernas, a antiga democracia grega tinha problemas com o ódio”, disse Nussbaum, de acordo com uma cópia prévia de sua fala. “Leiam os historiadores e verão algumas coisas familiares: indivíduos litigando obsessivamente contra pessoas que eles culpam por tê-los feito mal; grupos culpando outros grupos por sua falta de poder; cidadãos culpando políticos proeminentes e outras elites por terem vendido os valores mais queridos da democracia; outros grupos culpando visitantes externos, ou até mulheres, por seus próprios problemas políticos e pessoais”.

A Bolsa Nacional para Humanidades seleciona alguém todos os anos para dar a Palestra Jefferson, e ser selecionado é considerado a mais alta honraria do governo norte-americano em humanidades. Nussbaum – titular da cátedra Ernst Freund Distinguished Service Professor of Law and Ethics na Universidade de Chicago – foi selecionada para a honra um pouco antes da posse do Presidente Trump. E apesar de sua fala não ter incluído seu nome ou mencionado notícias falsas ou certos movimentos políticos, os temas por ela abordados levantam pontos de reflexão muito discutidos no contexto da sua eleição, bem como o crescimento de movimentos populistas movidos a ódio em outros países.

A definição de ódio de Aristóteles, observou Nussbaum, foi baseada não apenas na fúria que alguém pode sentir.

“Aristóteles afirma que apesar de o ódio ser doloroso, ele também contém em si a agradável esperança de retorno ou retribuição”, disse Nussbaum. “Portanto: dano significativo, referente aos valores ou círculo de afetos de alguém, e injustiça. Esses dois elementos parecem ser ambos verdadeiros e não controversos, e foram validados por estudos fisiológicos modernos. Essas partes do ódio podem dar errado de formas específicas e locais: podemos estar errados sobre quem fez algo ruim, ou o quão grave foi, ou se foi feito com dolo (em vez de acidentalmente). Mas muitas vezes estamos certos”.

Nussbaum também disse que o ódio combinado com o desejo de fazer alguma coisa pode ser positivo.

“O ultraje é valoroso pessoalmente e socialmente quando nossas crenças estão corretas: precisamos reconhecer atos errados e protestá-los, expressando nossa preocupação para com a violação de uma norma importante”, ela afirmou. “E há uma espécie de ódio, creio, que é livre de um desejo de retribuição: seu conteúdo completo é, ‘Que ultrajante é isso. Algo precisa ser feito a respeito’, o que eu chamo de Ódio Transitivo, pois expressa um protesto mas olha para frente: vai ao trabalho procurando soluções em vez de divagar na inflição de dor retrospectiva”.

Leia também: Martha Nussbaum: "É de compaixão que precisamos"

Mas Nussbaum prosseguiu identificando formas pelas quais o ódio pode levar indivíduos e sociedade em uma direção errada.

Primeiro, há os “erros óbvios”, ela disse. “O ódio pode ser mal orientado, e nos orientar mal, se baseado em uma informação errada sobre quem fez o que a quem, sobre se o ato ruim foi feito com dolo (com algum tipo de má intenção) em vez de por acidente, ou também se foi baseado em um confuso senso de importância. Aristóteles menciona pessoas que tinham raiva quando outros esqueciam seus nomes, e esse exemplo familiar é um caso de superestimar a importância do que a pessoa fez. (Provavelmente também o caso de interpretar errado uma intenção). Uma vez que, muitas vezes, somos precipitados quando estamos com raiva, esses erros acontecem muito”.

Então há o “erro de status”, disse Nussbaum. “Também erramos, afirmo, se pensarmos que o status relativo é altamente importante e nos concentrarmos nisso, excluindo outras coisas. Esse erro é realmente um caso de enganar-se sobre a importância de um valor em particular, mas já que é tão comum e uma fonte tão grande de ódio, temos que separá-lo e dar-lhe um número diferente”.

E, então, há o “erro de retribuição”, onde “muitas vezes erramos quando permitimos que sentimentos vingativos profundamente arraigados tomem o controle, nos fazendo pensar que a dor apaga a dor, a morte apaga o assassinato, e assim por diante. Em resumo, quando achamos que causar dor no presente conserta o passado. Nos enganamos pois esse pensamento é uma espécie de pensamento mágico irracional, e porque ele nos distrai do futuro, o qual podemos mudar, e muitas vezes, deveríamos”.

Nussbaum pediu que tenhamos mais cuidado quando sentimos raiva e tomamos atitudes a partir desse sentimento, especialmente no mundo da política.

“Todos esses erros são comuns, principalmente na vida política. Acreditamos na história errada sobre quem fez o que, ou culpamos indivíduos ou grupos por problemas sistêmicos amplos que eles não causaram. Superestimamos erros triviais e também, às vezes, subestimamos os importantes. Somos obcecados com nosso próprio status relativo (ou o do nosso grupo). Achamos que a vingança vai resolver os problemas criados pela ofensa original, embora não vá”, ela disse.

Nussbaum acrescentou que “buscamos culpados, muitas vezes, quando não há culpa para ser dada a alguém. O mundo está cheio de acidentes. Às vezes, um desastre é apenas um desastre. Às vezes a doença e a dificuldade são apenas doença e dificuldade. A profissão médica não pode nos manter completamente livres de doença e morte, e as políticas sociais mais sábias e justas não impedirão problemas econômicos causados por desastres naturais. Mas em nossa visão monarquista esperamos que o mundo seja feito para nos servir. Isso alimenta nosso ego, e é um sentido profundo reconfortante pensar que tudo de ruim que acontece é culpa de alguém. O ato de culpar e perseguir o ‘malfeitor’ é profundamente consolante. Ele faz com que nos sintamos no controle e não desamparados”.

(Via Inside Higher Ed)