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Polarização e postagens falsas: como as mídias sociais ganharam o dia

Facebook ou Fakebook? Twitter ou Twister? As mídias sociais têm sido definidoras nos processos eleitorais nos mais recentes anos e o episódio Trump x Hillary tem muito a nos ensinar sobre o poder da liberdade de expressão na internet e sobre o poder de destruição das falsidades nela disseminadas. É o que afirma o historiador Niall Ferguson, nesta reflexão para novos tempos e novas políticas. Leia e lembre-se: Niall Ferguson vem ao Fronteiras em nova data.

NIALL FERGUSON | Polarização e postagens falsas: como as mídias sociais ganharam o dia

Logo após a eleição presidencial ano passado, Mark Zuckerberg, o fundador e diretor executivo do Facebook, desdenhou, como “uma ideia completamente maluca”, a noção de que notícias falsas haviam definido a eleição em favor de Donald Trump. Semana passada, ele teve que admitir que se arrepende de ter dito isso.

Sabemos que antes (e depois da eleição), trolls russos com identidades falsas compraram cerca de 3000 anúncios no Facebook. Apesar do fato que apenas 100 mil dólares foram gastos, o conteúdo pode ter sido visto algo entre 20 e 70 milhões de pessoas.

Além disso, os russos também usaram Eventos no Facebook (a ferramenta de administração de eventos da empresa) para organizar protestos políticos falsos nos Estados Unidos, incluindo uma passeata contra os imigrantes no dia 27 de agosto, em uma pequena cidade de Idaho, conhecida por dar boas-vindas aos imigrantes. O evento seria “hospedado” pelo grupo de Facebook “SecuredBorders”, exposto em março como uma fachada russa.

O Twitter foi usado de forma similar, aparentemente. Em resposta a investigações congressionais permanentes, a empresa admitiu que identificou mais de 200 contas ligadas à Rússia e que o site de notícias russo governista RT havia gasto um quarto de milhão de dólares em propagandas no Twitter durante o ano passado.

Ainda é cedo para concluir que o uso das redes sociais por parte dos Russos decidiu a eleição. Entretanto, podemos provavelmente concluir que a mídia social decidiu a eleição. Parece que os Russos estavam mais focados em aumentar as divisões políticas nos Estados Unidos do que propriamente eleger Trump. A campanha de Trump estava focada em eleger seu homem – e gostou mais de 100 mil dólares no Facebook.  De acordo com o diretor digital da campanha, Brad Parscale, eles gastaram cerca de 90 milhões em mídias sociais, especialmente no Facebook. “O Facebook e o Twitter foram a razão pela qual ganhamos isso”, disse Parscale. Acho que ele tinha razão.

Os únicos indicadores confiáveis que previram o resultado da eleição foram o Facebook e o Twitter. Trump dominou Hillary Clinton completamente em ambos. Se as plataformas de mídia social não existissem, Trump teria sido forçado a realizar uma campanha mais convencional, em uma situação na qual os maiores recursos financeiros de sua oponente – que gastou mais que o dobro que ele – teriam certamente sido decisivos.

Em menos de uma década, a esfera pública – e o processo democrático foram revolucionados. Em 2008, o candidato republicano derrotado, John McCain tinha apenas 4.492 seguidores no Twitter, e 625 mil amigos no Facebook. Obama tinha quatro vezes mais amigos no Facebook que McCain e 26 vezes mais seguidores no Twitter. Porém, as plataformas ainda estavam em sua infância naquela época. O Facebook havia sido criado em Harvard há apenas 4 anos. O Twitter entrou no ar em março de 2006.

Em contraste, hoje, o Facebook possui mais de 2 bilhões de usuários ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, 2/3 dos adultos estão no Facebook. Quase a metade – 46% – leem as noticias pela rede social. Um em cada 10 lê as notícias no Twitter. Uma proporção levemente maior segue a conta @RealDonadTrump.

Muito do que é dito no Facebook é fútil. A oitava palavra mais popular usada pelos norte-americanos no Facebook em suas atualizações de status – depois de “dia”, “alto”, “palavra”, “ingresso”, “bom”, “longo” e “leve” – é “ressaca”. A maior parte das coisas ditas no Facebook é provavelmente verdade; afinal de contas, quem mentiria sobre uma ressaca?

O problema não são apenas as notícias definitivamente falsas como a do protesto contra os imigrantes no Idaho, apesar de que esse problema seguirá ocorrendo enquanto as contas possam ser abertas sem identificação.

O verdadeiro problema está no fato que qualquer um – não apenas trolls russos – podem usar as redes sociais não apenas para espalhar falsidades, mas também opiniões extremistas. Esse é o principal problema de todas as redes sociais que os titãs do Vale do Silício gravemente subestimaram.

Por conta do fenômeno chamado homofilia, a tendência de “semelhantes se reunirem em um grupo” – pessoas com ideias similares formam grupos em mais ou menos qualquer rede social, independentemente de seu tamanho.

Em grandes redes online, o resultado é uma polarização autoalimentada massiva. Um estudo recente de 665 blogs e 16.852 links entre eles, demonstrou que eles formavam dois grupos quase separados: um liberal e o outro conservador.

Um estudo similar no Twitter revelou que repostagens tem a mesma característica dicotômica: conservadores retuitam apenas tuites conservadores. O mais surpreendente é que um estudo recém publicado sobre a linguagem usada no Twitter demonstra que, em assuntos polêmicos como controle de armas, casamento homoafetivo, ao os tuites que usam linguagem emocional ou moral que serão mais retuitados.

Os céus estão ficando nublados no Vale do Silício. Facebook ou Fakebook? Twitter ou Twister? Semana passada, Trump disferiu seu primeiro (e caracteristicamente mal-agradecido) ataque direto ao Facebook. “O Facebook sempre foi anti-Trump”. Zuckerberg respondeu: “é assim que uma plataforma para todas as ideias se parece”.

A questão chave é o quão sustentável essa defesa é agora. Uma plataforma para todas as ideias? Ou o mais poderoso publicador na história do mundo? Achávamos que William Randolph Hearst – que inspirou Cidadão Kane – merecia o título.  Mas o Cidadão Zuck certamente o ultrapassou.

Na China, ele é proibido. Na Europa, cada vez mais regulado. Mas, nos Estados Unidos? Cuidado com essa face.

(originalmente escrito para o The Boston Globe)