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Populismo: o novo inimigo

Ilustração: Alessandra Genualdo
Ilustração: Alessandra Genualdo

A política representativa é uma forma de busca por melhorias na sociedade em que vivemos. Ainda que haja uma descrença generalizada em relação às entidades democráticas atualmente, procuramos escolher líderes que tenham a ver com nossos valores, anseios pessoais e gerais, entendimentos morais, econômicos e sociais, para que eles resolvam os problemas da população conforme a lógica que nós adotaríamos. Sabemos, no entanto, que há muitos interesses particulares envolvidos no universo da política. Um deles é a preocupação com a reeleição.

É a isso que o jornalista e escritor peruano Mario Vargas Llosa se refere quando fala sobre populismo. Trata-se, para ele, de “sacrificar o futuro de uma sociedade por um presente efêmero”. O fenômeno, que atinge governos da extrema esquerda à extrema direita, tem exemplos ao redor de todo o mundo.

Um mandato político é raramente cumprido com a preocupação central de deixar um bom legado para a população. A adoção de práticas com resultados de curto prazo - mas que não necessariamente têm bons impactos a longo prazo - é comum para conquistar a confiança e a simpatia dos eleitores, e manter o poder por mais alguns anos. Muitas das políticas que tragam reflexos significativos em pouco tempo, porém, têm uma característica simplória. Tratam de maneira superficial problemas complexos que devem ser pensados dentro de uma estrutura.

Em artigo publicado no início deste ano, Llosa cita a saída do Reino Unido da União Europeia, a vitória de Donald Trump, a liderança [na época] de Geert Wilders na Holanda e de Marine Le Pen na França como sinais do populismo nos dias de hoje.

Mario Vargas Llosa foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2010, 2013 e 2016. Leia abaixo o artigo na íntegra.


O novo inimigo | Mario Vargas Llosa

O principal inimigo da democracia liberal – da liberdade – já não é o comunismo, mas o populismo. O primeiro deixou de ser quando a União Soviética desapareceu, por sua incapacidade de resolver os problemas econômicos e sociais mais elementares, e quando (pelos mesmos motivos) a China se transformou num regime capitalista autoritário. Os países comunistas que sobrevivem – Cuba, Coreia do Norte e Venezuela – encontram-se num estado tão calamitoso que dificilmente poderiam ser um modelo, como parecia ser o caso da URSS, para tirar uma sociedade da pobreza e do subdesenvolvimento. O comunismo é agora uma ideologia residual, e os seus seguidores, grupos e grupelhos, estão à margem da vida política das nações.


Mas, ao contrário do que muitos de nós pensávamos – que o desaparecimento do comunismo reforçaria a democracia liberal e a estenderia pelo mundo –, surgiu a ameaça populista. Não se trata de uma ideologia, e sim de uma epidemia viral – no sentido mais tóxico da palavra – que ataca igualmente os países desenvolvidos e os atrasados, adotando máscaras diversas para cada caso, do esquerdismo no Terceiro Mundo ao direitismo no Primeiro. Nem sequer os países de tradições democráticas mais arraigadas, como Grã-Bretanha, França, Holanda e Estados Unidos, estão vacinados contra essa doença. Provas disso são o triunfo do Brexit [a saída do Reino Unido da União Europeia], a presidência de Donald Trump, a liderança da formação de Geert Wilders – o Partido da Liberdade (PVV) – nas pesquisas para as próximas eleições holandesas e da Frente Nacional de Marine Le Pen nas francesas.

O que é o populismo? Acima de tudo, uma política irresponsável e demagógica de governantes que não hesitam em sacrificar o futuro de uma sociedade por um presente efêmero. Por exemplo, estatizando empresas, congelando os preços e aumentando os salários, como fez no Peru o presidente Alan García durante seu primeiro mandato, gerando uma bonança momentânea que disparou sua popularidade. Depois viria uma hiperinflação que esteve a ponto de destruir a estrutura produtiva de um país, empobrecido por tais políticas de maneira brutal. (Aprendida a lição à custa do povo peruano, Alan García desenvolveu uma política bastante sensata no segundo mandato).

Um ingrediente central do populismo é o nacionalismo, fonte, depois da religião, das guerras mais mortíferas que se abateram sobre a humanidade. Trump promete aos eleitores que a “América será grande de novo” e que “voltará a ganhar guerras”; os EUA já não serão explorados pela China, pela Europa ou por qualquer país, porque agora seus interesses prevalecerão sobre os de todas as nações. Os partidários do Brexit – eu estava em Londres e ouvi, estupefato, a saraivada de mentiras chauvinistas e xenofóbicas propalada na TV por pessoas como Boris Johnson e Nigel Farage, o líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) durante a campanha – ganharam o referendo proclamando que, ao sair da UE, o Reino Unido teria de volta a soberania e a liberdade, agora submetidas aos burocratas de Bruxelas.

Inseparável do nacionalismo é o racismo, que se manifesta sobretudo buscando bodes expiatórios, culpando-os de tudo o que dá errado no país. Atualmente, os imigrantes negros e os muçulmanos são as vítimas do populismo no Ocidente. Os mexicanos, por exemplo, foram acusados pelo presidente Trump de serem estupradores, ladrões e narcotraficantes. Já os árabes e africanos são acusados por Geert Wilders na Holanda e Marine Le Pen na França, ou mesmo por Viktor Orbán na Hungria e Beata Szydlo na Polônia, de roubar o trabalho dos nativos, abusar da seguridade social e degradar a educação pública, entre outras coisas.

Na América Latina, os Governos de Rafael Correa no Equador, do comandante Daniel Ortega na Nicarágua e de Evo Morales na Bolívia se orgulham de serem anti-imperialistas e socialistas, mas, na verdade, são a própria encarnação do populismo. Os três são cautelosos na hora de aplicar as receitas comunistas de nacionalizações em massa, coletivismo e estatismo econômico, pois, com melhor olfato que o do iletrado Nicolás Maduro, sabem que tais políticas provocam desastres. Apoiam Cuba e Venezuela em voz alta, mas não as imitam. Praticam, mais propriamente, o mercantilismo de Putin (ou seja, o capitalismo corrupto dos cúmplices), estabelecendo alianças mafiosas com empresários servis, que são favorecidos com privilégios e monopólios, desde que sejam submissos ao poder e paguem as comissões adequadas. Todos eles consideram, como o ultraconservador Trump, que a imprensa livre é o pior inimigo do progresso e criaram sistemas de controle, direto ou indireto, para solapá-la. Nisso Correa foi mais longe que qualquer outro: aprovou a lei de imprensa mais antidemocrática da história da América Latina. Trump ainda não aprovou a sua, pois a liberdade de imprensa é um direito profundamente arraigado nos EUA, e um ato dessa natureza provocaria uma enorme reação negativa das instituições e da população. Mas não se pode descartar que, mais cedo ou mais tarde, ele tome medidas que – como na Nicarágua sandinista e na Bolívia de Morales – restrinjam e desnaturalizem a liberdade de expressão.

O populismo tem uma tradição muito antiga, embora nunca tenha alcançado a magnitude atual. Uma das maiores dificuldades para combatê-lo é que apela aos instintos mais puros dos seres humanos: o espírito tribal, a desconfiança e o medo do outro – seja de raça, língua ou religião diferente –, além da xenofobia, do patriotismo exagerado, da ignorância. Observamos isso de maneira dramática nos EUA de hoje. A divisão política no país nunca foi tão grande, e a linha divisória jamais foi tão clara: de um lado, toda a América culta, cosmopolita, educada, moderna; do outro, a mais primitiva, isolada, provinciana, que vê com desconfiança ou pânico a abertura de fronteiras, a revolução das comunicações, a globalização. O populismo frenético de Trump a convenceu de que é possível parar o tempo, retroceder a esse mundo supostamente feliz e previsível, sem riscos para os brancos e cristãos, que foram os EUA dos anos cinquenta e sessenta. Despertar dessa ilusão será traumático e, infelizmente, não só para o país de Washington e Lincoln, mas também para o resto do mundo.

Pode-se combater o populismo? Claro que sim. É o caso dos brasileiros que fazem uma formidável mobilização contra a corrupção. Dos norte-americanos que resistem às políticas demenciais de Trump. Dos equatorianos que acabam de impor uma derrota aos planos de Correa, votando por um segundo turno que poderia dar a vitória a Guillermo Lasso, um democrata genuíno. E dos bolivianos que derrotaram Morales no referendo com o qual pretendia se reeleger por séculos. Também dão exemplo os venezuelanos que, apesar da selvagem repressão da ditadura narcopopulista de Maduro, continuam lutando pela liberdade. Mas a derrota definitiva do populismo, como aconteceu com o comunismo, será fruto da realidade, do fracasso traumático de políticas irresponsáveis que agravarão todos os problemas sociais e econômicos dos países ingênuos que se renderam ao seu feitiço.

(Via El País)