Voltar para Artigos

Por que você deveria se importar com educação de qualidade para todos

Ilustração: Dale Edwin Murray
Ilustração: Dale Edwin Murray

 “A pobreza extrema coexiste com a imoralidade das super-riquezas”, concluiu Robert Solow, um dos mais influentes ganhadores do Nobel de Economia dos últimos 50 anos. Solow publicou um estudo divisor de águas em 1956, que transformou a maneira com que economistas veem o papel crítico do progresso da tecnologia na produtividade e no crescimento da riqueza nacional. 

Com 90 anos, Solow publicou um extenso e admirável estudo sobre O Capital no Século XXI, na The New Republic, intitulado Thomas Piketty está certo, aclamando sua “nova e poderosa” visão de que, se R (retornos ao investimento de capital) for maior do que G (taxa de crescimento econômico), “a renda e a fortuna dos ricos crescerá mais rapidamente do que a típica renda do trabalho”.

>> Thomas Piketty é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento

Contudo, Solow diz que a luta diária dos americanos para viver com salários médios e baixos representa um fenômeno muito diferente do que o crescimento dos super-ricos – e um fenômeno muito mais preocupante também.

As mais óbvias recomendações de políticas públicas apontam para a educação, incluindo, como cientistas sociais têm aprendido cada vez mais, programas na primeira infância. 

Como alertou Sean Reardon, sociólogo de Stanford, as diferenças no desenvolvimento educacional, hoje, estão mais associadas com o salário das famílias do que com fatores que já foram mais importantes no passado, incluindo o contexto étnico.

A desigualdade na educação não prejudica apenas as chances das crianças pobres irem adiante, diz David Grusky, cientista social do Centro de Pobreza e Desigualdade de Stanford. Também, afeta a mão de obra qualificada. Ao reduzir as oportunidades para inúmeros indivíduos talentosos, o potencial de expertise tecnológica de uma nação também é restrito. 

Como resultado, diz Grusky, “precisamos pagar mais para trabalhadores especializados”, o que é prejudicial para a economia como um todo. 

Em outras palavras, a falta de acesso à educação de qualidade não é apenas ruim para estudantes em Palo Alto; é ruim para empresas a quilômetros de distância do maior centro de inovação do mundo.

Claro, este diagnóstico está longe de ter uma cura e um chamado para melhorar as oportunidades educacionais é fácil demais – quem poderia argumentar contra isso? Os desafios neste tipo de mudança devem ser reconhecidos, e esforços prévios para alcançar resultados satisfatórios falharam.

Dar educação de qualidade para todos exigiria uma reforma total no sistema educacional e também na maneira com que pagamos por ele. 

Mas, se a diferença educacional baseada nos salários das famílias é de fato o que está nos levando à desigualdade no ensino, como diz Grusky, não conseguiremos solucionar os problemas permitindo que as pessoas com acesso privilegiado à educação ganhem benefícios para então serem taxadas por conseguirem salários mais altos. Isso, afirma Grusky, seria tapar o sol com a peneira, porque não toca no cerne do problema.”

Também, atingiria muitos injustamente, pegando o dinheiro daqueles que se esforçaram para conquistá-lo. Se o objetivo é “desigualdade baseada no mérito”, isso ocorre quando todos têm uma chance justa de competir, argumenta Grusky. Por isso, seria preciso reformar as instituições educacionais.

Portanto, perguntar se a tecnologia causa desigualdade não faz sentido. Devemos perguntar como tecnologias avançadas mudaram a demanda por trabalhadores qualificados e subqualificados e como eles estão se adaptando a tais mudanças. 

Claro, avanços rápidos na tecnologia aumentaram a discrepância na educação e no mercado de trabalho, e o crescimento das tecnologias digitais pode estar criando uma elite extrema dos super-ricos. Mas, não faz sentido culpar a tecnologia, assim como não faz sentido culpar os ricos.

São nossas instituições, incluindo também as escolas, que precisam mudar. A reforma que especialistas recomendam são numerosas e variadas, e vão de um salário mínimo mais alto ao aumento dos direitos nas leis trabalhistas, passando por mudanças na cobrança de impostos. 

E se Piketty está certo sobre os supermanagers (executivos de grandes firmas que recebem pacotes extremamente altos de compensação pelo seu trabalho, superssalários), precisamos melhorar a gestão corporativa.

Leia também: Thomas Piketty: esclarecendo um dos maiores best-sellers de economia

Mas, um bom lugar para começar é se perguntando qual é o real problema e por que devemos nos preocupar. É aqui que O Capital no Século XXI é tão valioso. A obra nos lembra como uma classe de super-ricos pode deformar o processo político e erodir nosso sentido de justiça.

Na indústria da tecnologia, onde algumas destas elites são criadas, muitos se perguntarão se o futuro se parece com um Silicon Valley – um dínamo high-tech que leva à prosperidade econômica e à desigualdade de uma só vez – ou, como Piketty diria, nos levaria a algo parecido com a França, cada vez mais dominada  pela riqueza herdada.  

Estariam a criatividade e a produtividade de lugares como Silicon Valley ameaçadas por um futuro que favorece mais as fortunas de poucos do que as ambições de muitos?

(Via MIT Techonology Review)