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Steven Pinker: A razão pela qual as pessoas não conseguem escrever

Crédito: Olle Svensson | Flickr.com
Crédito: Olle Svensson | Flickr.com

A dificuldade de conviver com o outro – que já foi tema da temporada 2015 do Fronteiras do Pensamento - Como viver juntos – atravessa todas as esferas da vida social. Não apenas na convivência direta entre pessoas, mas na forma pela qual comunicamos nossas ideias por meio da escrita.

O psicólogo experimental e linguista canadense Steven Pinker, conferencista da temporada 2009 do Fronteiras Braskem do pensamento em Salvador, chama a atenção para o assunto em um de seus mais recentes trabalhos, e denomina esta dificuldade em se comunicar pela escrita de “a maldição do conhecimento”.

É sobre isso que escreve Glenn Leibowitz em sua coluna semanal sobre marketing de conteúdo, desenvolvimento pessoal e melhoria de escrita para o site Inc.com.

A temporada 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador trará Camille Paglia e Graça Machel ao Teatro Castro Alves, garanta seu ingresso!


A maldição do conhecimento

Essa aflição comum, que Pinker chama de “a maldição do conhecimento”, está por trás de tantos textos confusos e sem clareza de hoje em dia.

“Porque tantos textos são tão difíceis de entender? Porque um leitor típico sofre para entender um artigo acadêmico, as regras de uma declaração de imposto de renda ou as instruções para instalar uma rede sem fio em casa”?

Essas são as perguntas feitas pelo psicólogo e professor da universidade de Harvard, Steven Pinker, em seu livro: Guia de escrita: como conceber um texto com clareza, precisão e elegância. São questões com as quais me deparei diversas vezes – e tentei enfrentar – ao longo de minha carreira como escritor e editor. Sempre que vejo um texto carregado de jargões, clichês, termos técnicos e abreviações, duas perguntas me vêm imediatamente à cabeça. Em primeiro lugar, o que o escritor está tentando dizer, exatamente? E em segundo, como essa pessoa poderia passar suas ideias com mais clareza, sem ter que se basear em uma linguagem que confunda o leitor?

Para Pinker, a raiz do problema da má escrita está no que ele chama de “a maldição do conhecimento”, que ele define como “uma dificuldade em imaginar como é para o leitor não saber de algo que você sabe. A maldição do conhecimento é a melhor explicação do porquê bons profissionais escrevem textos ruins”.

“Todos os passatempos humanos – música, culinária, esportes, arte, física teórica – desenvolvem um linguajar para livrar seus entusiastas de ter que dizer ou escrever uma longa descrição toda a vez que se referem a um conceito familiar entre si. O problema é que quando nos tornamos proficientes em nosso trabalho ou hobby acabamos usando tanto essa terminologia que a aplicamos automaticamente, esquecendo que os leitores podem não ser membros do clube no qual aprendemos esses termos”.

Pessoas de negócios, em particular, parecem ter a tendência para sofrer dessa “síndrome”. Você pode dizer que o mundo dos negócios desenvolveu um dialeto próprio, as pessoas são expostas a um emaranhado de termos e siglas nos cursos de administração, os quais elas então colocam em uso em interações cotidianas, quando entram no mercado de trabalho.

E o que começa como uma maneira de facilitar a comunicação verbal entre as pessoas se torna o principal modo pelo qual elas comunicam suas ideias na escrita, desde e-mails, passando por aplicativos de chat, propostas de negócios e apresentações.

“Como podemos nos livrar da maldição do conhecimento?”, pergunta Pinker. “Um escritor com consideração ira [...] cultivar o hábito de incluir algum texto explicativo para termos técnicos comuns, por exemplo, ‘Arabidopsis, uma planta de mostarda florida’, em vez de usar apenas ‘Arabidopsis’. Não é apenas um ato magnânimo. Um autor que explica termos técnicos pode multiplicar sua base de leitores em milhares pelo custo de meia dúzia de caracteres, o equivalente literário de achar uma nota de cem dólares na calçada.”

“Os leitores também irão agradecer ao escritor que usar bastante por exemplo, tal como, como em, pois uma explicação sem exemplos é muito pouco melhor do que não explicar nada.”

Sempre que escrevo uma frase que me faz parar e pensar o que significa, imagino que outros leitores possam reagir da mesma forma. Se uma frase não está clara para mim, pode não estar clara para os outros. É uma abordagem que recomendo a todos que estejam tentando melhorar sua escrita.

Antes de enviar seus escritos para o mundo ler, é melhor ser honesto consigo mesmo sobre o quanto os seus leitores vão conseguir entender certas partes ou frases de um texto. Antes de você enviar seu texto para a gráfica – ou postar em uma rede social – reserve alguns momentos para ter certeza que sua escrita está clara e entendível para o máximo possível de leitores.

Como o Nobel em física Richard Feynman escreveu: “Se você alguma vez se ouvir dizendo, ‘eu acho que entendo isso’, quer dizer que você não entende”.

 Fonte: Inc.com