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Um “ativismo sagrado” – e as mulheres – devem liderar a segunda luta por libertação da África

Ilustração: Pedro Gomes | Behance
Ilustração: Pedro Gomes | Behance

Recentemente, Graça Machel, a terceira e última conferencista da temporada 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento, realizou com a organização que lidera (o Fundo Graça Machel) uma conferência para inaugurar o projeto “Mulheres desenvolvendo a África”.

Confira abaixo o artigo escrito por Jay Naidoo para o jornal Daily Maverick. Naidoo foi ministro durante o governo Mandela e hoje dirige a ONG GAIN, que luta contra a desnutrição ao redor do mundo.

A conferência de Graça Machel no Teatro Castro Alves ocorre no dia 5 de setembro, às 20h30. MAS ATENÇÃO: INGRESSOS LIMITADOS!

>> Adquira seus ingressos pelo site: https://is.gd/FronteirasSalvador

>> Informações: 4020.2050 | fronteiras.com/salvador

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Para achar soluções para os desafios enfrentados pela África, precisamos mudar o DNA do paradigma africano de desenvolvimento, tornando-o transformativo de dentro para fora – um ativismo sagrado. E a solução começa pelas mulheres, que podem se mobilizar para criar um movimento poderoso. Isso garantirá paridade de gênero e vai retirar milhões da linha da pobreza.

“Não estamos pedindo um assento na mesa. Queremos redesenhar a mesa e o sistema como um todo.”

Graça Machel não mediu suas palavras na conferência de abertura do projeto Mulheres desenvolvendo a África”, que reuniu 300 líderes mulheres africanas na capital da Tanzânia, Dar es Salaam. E ela deixou sua posição bem clara: as mulheres devem liderar a próxima revolução. Se não todo o mundo.

“Nossa primeira libertação foi por liberdade política e liderada por homens”, disse Machel. “Nossa segunda libertação deve ser a transformação social e emancipação econômica das mulheres e todos que foram deixados para trás. As mulheres devem repensar como será o futuro da África e reformar os sistemas que nos governam. Uma reforma sem violência e guerra, uma reforma em paz e onde nossa riqueza seja dividida igualmente e desenvolve o potencial humano de todos os africanos”.

Suas palavras ecoaram no evento e foram retomadas pelo dinâmico diretor executivo da Fundação Mo Ibrahim, Hadeel Ibrahim. “Onde as políticas, instituições e até a infraestrutura física de hoje carregam um viés inerente – usualmente em favor das estruturas patriarcais que as criou em primeiro lugar – um verdadeiro repensar o continente africano carrega o potencial de uma “segunda liberação”, reconstruindo nossas sociedades para garantir que ninguém será deixado de fora, sejam eles os jovens, as minorias, os deficientes, o setor informal, os LGBTQs e, em especial, as mulheres!”.

As mulheres da África e do mundo sofreram com a escravidão e o colonialismo durante séculos. Demorou décadas para nos libertarmos politicamente dos grilhões da opressão.

Mas somos livres? E quem é livre?

A África é um continente rico. Temos mais riqueza do que precisamos para alimentar, vestir, proporcionar casa e sustento para todos. Porém, como sabemos muito bem pela experiência sul-africana, por exemplo, o povo precisa enfrentar uma realidade de “captura do Estado”. O vínculo de corrupção entre elites empresariais e políticas tem terríveis consequências para todos os 55 milhões de africanos. Bilhões de dólares são desviados de empresas estatais, elevando os custos de serviços básicos como água, eletricidade e transporte público, dificultando a capacidade do Estado de proporcionar uma rede de segurança social para os milhões de desempregados, vulneráveis e famintos. O conflito social aumenta, aprofundando a pobreza e a desigualdade, causando violência de gênero e xenofobia. Em alguns países, essas ações gananciosas causam guerras civis. E as principais vítimas são sempre as mulheres e as crianças, nosso futuro.

Conforme Machel eloquentemente coloca, “Não podemos condenar nossas crianças a um ciclo intergeracional de exclusão. Nossa população alcançará 2,4 bilhões em 2050. A maioria será de jovens. Não podemos repetir os antigos padrões de poder que estrangulam a juventude e excluem as mulheres. Não estamos interessados em mudanças graduais. Queremos uma ação radical. E queremos agora”. Ela está certa, não podemos esperar.

A conferência se focou em uma agenda feminina de mudança. Isso ressoou fortemente no auditório – sustentar um movimento implica em ações sustentadas.

Então, de que movimento está se falando?

Palestrante após palestrante falou de governança e liderança que conectam a mente, o coração e o espírito. Perdemos nosso caminho como humanidade. Depois de um século de exploração, sabemos que o mundo perde algumas dúzias de campos de futebol de florestas a cada minuto; 33% da terra arável está poluído; a população de grandes peixes baixou em 90%; 50% das espécies estarão correndo risco de extinção até o fim deste século.

A carga tóxica mundial sobre os seres humanos está em elevação e hoje consumimos mais de 1,5 vezes o que a natureza pode repor. Se todos vivêssemos como os norte-americanos, precisaríamos de quase 4 planetas a mais para sustentar todo mundo.

É absolutamente óbvio que o novo caminho para o crescimento precisa ter a proteção ao meio ambiente como agenda principal. Ele é, afinal de contas, a única fonte de vida que temos, proporcionando o ar que respiramos, a água e a comida que nos nutre. A África tem que liderar o caminho em repensar uma nova economia global. As mulheres precisam liderar o caminho.

Um dos poucos palestrantes homens, Sangu Delle, um empreendedor africano, capturou a essência do resultado de um movimento pan-africano de mulheres com as seguintes estatísticas: “Se as rendas das mulheres aumentarem, sabemos que 90% desse dinheiro será reaplicado na educação, saúde e nutrição de suas crianças. Se introduzirmos a igualdade de gênero hoje na África, veremos um aumento de 300 bilhões de dólares na produção econômica. Essa não é uma causa somente moral e social. É um imperativo econômico”. O que me lembrou do famoso provérbio africano: “Se você educa um homem, educa um indivíduo. Se você educa uma mulher, educa toda a sociedade”.

Avançando a partir da conferência, conclui-se que devem ser designados espaços locais nos quais mulheres podem se encontrar, se organizar e elaborar um plano de ação constituído de baixo para cima e através de fronteiras. Foi definido que uma visão de que todas as criaturas vivas, desde nossas florestas até nossos oceanos, dos seres humanos aos outros animais, são sagradas. Ao aprendermos a conviver uns com os outros e com o planeta terra estamos colocando o meio ambiente no coração de nosso trabalho.

Para achar as soluções dos desafios enfrentados pela África, temos que mudar o DNA do nosso paradigma de desenvolvimento tornando-o transformativo de dentro para fora – um ativismo sagrado.

Por exemplo, uma vez que 700 milhões de africanos vivem sem energia elétrica, devemos rejeitar as velhas tecnologias baseadas em combustíveis fósseis e energia nuclear. Precisamos adotar a revolução tecnológica que mudou essencialmente a maneira que vivemos, acessamos serviços, nos comunicamos e especialmente a natureza da produção. Com avanços nas áreas de robótica, nanotecnologia e inteligência artificial podemos superar a velha infraestrutura e escolhas tecnológicas. Colher energia solar em um continente com uma média de 300 dias de sol por ano significa que podemos gerar milhões de empregos e empreendimentos. Isso poderia prover comunidades com seus próprios recursos dos quais eles poderiam gerar renda, além de custar menos do que as velhas tecnologias.

Isso não é apenas um sonho. As telecomunicações são um bom exemplo. A África passou de ser o lugar com menos telefones nos anos 1990 para o mercado que cresce mais rápido, em apenas duas décadas. E, hoje, a segunda revolução da internet móvel causou a maior explosão de transações bancárias no leste africano, com milhões de pessoas passando a ter contas bancárias.

A questão é o porquê não podemos repetir isso em todos os setores. A África possui 60% do restante de terras não cultivadas do planeta. Ainda assim, temos um dos maiores níveis de desnutrição no mundo com mais de uma em quatro pessoas passando fome. E 90% de nossa comida é cultivada por mulheres pequenas fazendeiras. Por que elas não são bem-sucedidas? Para elas, os obstáculos são claros. Elas não possuem a posse legal das terras, nem dispõem de recursos para adquirir sementes de qualidade, para criar bancos de semente em suas comunidades, acesso a água e irrigação, tudo isso mesmo quando são produtivas e conseguem colocar seus produtos no mercado. E a falta de segurança para as mulheres. Simplesmente ser mulher e viver em segurança de violência masculina é algo que não ocorre sempre.

A solução é clara e começa com mulheres como as que estiveram nesta conferência, se mobilizando para criar um movimento poderoso. Isso ajudará a África a alcançar seus objetivos de desenvolvimento, garantir a igualdade de gênero, retirar milhões da linha da pobreza, alimentar o continente, e mostrar o caminho para o resto do mundo.

Saí da conferência esperançoso. Direitos das mulheres, empoderamento feminino e aumentar as rendas das mulheres é o certo a se fazer pela África. Se queremos que nossas crianças vivam com a esperança de construir a África dos nossos sonhos, então nossas mães, avós, irmãs e filhas precisam liderar essa segunda luta por libertação. É um mundo assim no qual quero que minhas crianças cresçam.

 Fonte: The Daily Maverick