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Uma interpretação que informa, interroga e instiga

Um dos mais renomados historiadores da Grã-Bretanha, Niall Ferguson foi considerado pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Especialista em economia, mercado financeiro e história econômica, lecionou em instituições como a Universidade de Harvard e a London School of Economics. Casado com a ativista Ayaan Hirsi Ali, que esteve no Fronteiras do Pensamento 2008, Ferguson caminha ao lado da esposa pela luta em nome dos direitos humanos, causa que já valeu, ao casal, prêmios por sua contribuição à sociedade.

NIALL FERGUSON está confirmado no Fronteiras do Pensamento 2017. O pesquisador sobe ao palco do projeto em outubro. Garanta sua presença nas conferências deste ano. Vendas abertas em Porto Alegre e São Paulo.

Conheça a obra de Ferguson no artigo exclusivo Uma interpretação que informa, interroga e instiga, de Felipe Pimentel, historiador, psicanalista e coordenador da Memória da Secretaria de Cultura de Porto Alegre. O texto abaixo foi originalmente escrito e publicado na Revista Fronteiras do Pensamento 2017.

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Por que deveríamos ler Niall Ferguson? Em primeiro lugar, por sua trajetória acadêmica esplendorosa: da sua laureada formação em História em Oxford, passando por seu doutorado em Filosofia, pesquisa e docência em História Política e Econômica em Cambridge, até suas cátedras na New York University e na London School of Economics (LSE), até sua atual docência na Harvard University e em Stanford.

Porém, poderíamos olhar para sua capacidade de divulgação científica consistente, mas também acessível nas áreas de história, política e economia: na década de 2000, seus livros receberam os mais diversos prêmios, e suas séries televisivas foram sucesso de público, primeiro na Inglaterra e depois na internet.

Uma terceira razão seria sua inclinação como “polemista": de debates públicos (razoavelmente intensos) com Paul Krugman (New York Review, 2009) e críticas ferozes a Vladimir Putin e à União Europeia (entre elas, uma defesa do Brexit), Ferguson avançou para elogios explícitos à ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher e Henry Kissinger (sobre quem escreve atualmente o segundo volume da biografia), pesou na balança prós e contras do imperialismo europeu dos séculos 19 e 20, além de arguir, de modo favorável, a algumas intervenções militares (desde a Guerra do Vietnã até a Guerra do Iraque). São opiniões polêmicas, especialmente quando advindas de um historiador – em cujo mainstream causou escândalo.

Contudo, não tomemos Ferguson como um mero polemista. Não só seus pontos de vista são fortemente embasados (segundo suas determinadas metodologias e, por óbvio, suas inclinações políticas e ideológicas, marcadamente conservadoras), como suas ideias – apresentadas em robustos livros – vão muito além da mera polêmica, explicitando uma capacidade analítica, descritiva e interpretativa da história do mundo, que ao mesmo tempo informam, instigam e interrogam.

Seu livro Civilização: o Ocidente e o resto (cuja nova edição no Brasil recebeu o título de Civilização: Ocidente x Oriente), extraído de uma série que apresentou na PBS e que evocava o clássico Civilização, de Kenneth Clark (dos anos 1960), busca expandir a defesa da civilização ocidental que Clark fizera décadas atrás (focado na “alta cultura visual", isto é, os aspectos artísticos, estéticos e culturais) para uma defesa ainda mais ampla, que englobasse também suas virtudes científicas, tecnológicas, políticas, sociais, intelectuais e econômicas.

É essa complexa e variegada sociedade que, a partir do século XVI, passou a conquistar corações e mentes pelo mundo (segundo Ferguson, ao fim e ao cabo, mais pela palavra que pela espada), baseada em traços singulares em relação ao Oriente, a saber: (a) a competição (aqui entendida como descentralização da vida política na Europa – argumento semelhante ao de seu biografado em Ordem Mundial); (b) a ciência; (c) os direitos de propriedade (o controle da lei como resolução pacífica de conflitos); (d) a medicina; (e) a sociedade de consumo; e (f) a ética do trabalho (um modo de atividade que fornece coesão à sociedade dinâmica e instável criada pelos outros fatores citados).

A partir daí, Ferguson analisa longa e profundamente toda a história do Ocidente para desenvolver tais virtudes, numa das mais agradáveis escritas sobre história moderna e contemporânea. Porém, o objetivo do historiador não se resume em historiar, mas prever e, também, precaver: Ferguson avalia que a civilização ocidental está em franco declínio e, por conseguinte, ameaçada em seus valores (pelas mais variadas razões, debatidas em vários de seus livros e artigos, que englobam desde aspectos culturais – o desinteresse da sociedade por sua história – até o estado estacionário das suas economias). Suas explicações e argumentações são complexas e profundas, jamais se resumindo a simplificações como o conflito democracia x fundamentalismo, capitalismo x socialismo chinês etc.

Ao longo de sua dissertação, vemos Ferguson trabalhar com os mais variados dados (de índices dos impactos demográficos das guerras do século 20 a tabelas de concentração de renda nas sociedades ricas do Ocidente) e transitar pelas mais diversas áreas (fluidamente, passa de análises políticas precisas da história chinesa ou americana para as refinadas análises do sistema financeiro diante da crise de 2008), sempre com uma capacidade aguda de análise e reflexão. A cada punhado de páginas, somos defrontados com um questionamento original lançado pelo autor e que praticamente já pululava em nossa mente diante de suas explicações.

A despeito de sua inclinação política visível, Ferguson jamais se furta a reconhecer as evidências que a negariam ou contradiriam, levando-nos, muitas vezes, a nos surpreender com os diagnósticos e prognósticos que apresenta. Não suficiente, consegue levar toda sua apresentação histórica (que podemos e devemos indicar como uma das melhores apresentações da história recente do Ocidente) para problemáticas atuais, que abrangem impasses do desenvolvimento econômico do Ocidente às ameaças da democracia e da liberdade nos países da Europa e da América.

Nós precisamos ler Niall Ferguson não somente pela leveza de sua escrita, pela mastodôntica fonte de informações ou a agudeza de suas análises; nós precisamos lê-lo por suas interpretações inovadoras e audazes, que, para além do viés ideológico que carrega e explicita sinceramente (e todos carregamos), interroga e desacomoda as nossas mais diversas hipóteses e convicções.