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Uma vida ordinariamente decente

Outdoor de Xiaoping em Shenzhen
Outdoor de Xiaoping em Shenzhen

Com o aumento das tensões entre Coreia do Norte e o Ocidente, a China tem estado sob suspeita global por seu olhar condescendente sobre o país de Kim Jong-un, com quem mantém intensas relações comerciais. Para compreender o modo de pensar dos chineses, há o bom e velho caminho: aprender sobre a história da nação transformada por Deng Xiaoping, neste artigo inédito do jornalista Jaime Spitzcovsky, que foi correspondente da Folha em Pequim.


Uma vida ordinariamente decente | O filósofo Kwame Anthony Appiah e o líder chinês Deng Xiaoping talvez nunca tenham se encontrado. Além da distância geográfica, o patriarca asiático morreu em 1997, tornando diminutas as possibilidades de uma tertúlia intelectual entre eles. 

Porém, ao degustar ideias que o pensador anglo-ganês expôs em sua passagem pelo Brasil, ao participar do Fronteiras do Pensamento, encontrei ponderações responsáveis por fazer frases denguistas ecoarem em minha mente. 

Sustentou Appiah: “Nunca achei que houvesse algo de errado com a vida burguesa, exceto que um número insuficiente de pessoas a vive. Não há nada de errado com uma vida ordinariamente decente. A não ser que ela signifique outra pessoa sem acesso a uma vida ordinariamente decente. Então precisamos garantir que todo mundo tenha a possibilidade de levar uma vida ordinariamente decente”. 

O pensamento poderia ser esmiuçado por diversas perspectivas, mas chamou-me a atenção sua proximidade com os resultados, não sem contradições ou fragilidades, colhidos na China das últimas décadas, sacudida pelas mudanças tectônicas impostas com a chegada de Deng Xiaoping ao poder, em 1977. 

Ao suceder a barbárie da Revolução Cultural e da ortodoxia maoísta, o novo líder assentou as 8 9 bases de um projeto transformador cujas consequências profundas se fazem sentir não apenas no país mais populoso do planeta, mas em escala global. 

Deng, sem jamais abandonar o Partido Comunista, esfacelou dogmas, colocou o gigante asiático numa rota de crescimento econômico cuja velocidade não tem paralelo na história e celebrizou aforismos como “enriquecer é glorioso” ou “não importa a cor do gato, o que importa é que mate o rato”. 

Para ele, o felino representava a economia de mercado, e o roedor, a pobreza e o subdesenvolvimento que assolaram, nos últimos séculos, a outrora poderosa China. Após o fracasso das experiências comunistas do século 20, Deng capitaneou um reordenamento ideológico que ele mesmo buscava escamotear, por meio de ginástica retórica, ao definir o novo regime como “socialismo com características chinesas”. 

A “vida burguesa ordinariamente decente” começou a florescer em espaços antes reservados à construção de “paraísos proletários”. Depois da China, outros países e outras forças políticas, amarrados a projetos com fracassos históricos nos campos dos direitos individuais e da prosperidade de sua população, abriram as portas para estratégias calcadas no crescimento econômico e na ampliação do consumo, com mudanças estruturais no tecido social global. 

A história passou a testemunhar uma ampliação sem precedentes do acesso ao consumo, para alcançar largas parcelas da população imersas anteriormente em pobreza abissal. Surgiram os chamados países emergentes, personagens de destaque no século 21, que se caracterizam, guardadas as devidas especificidades, por crescimento econômico, linear ou intermitente, e surgimento de consumidores, como se observa nos últimos anos em nações como China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, México, Turquia, entre outros. 

Para forças políticas à esquerda, a abertura denguista representou uma oportunidade de renovação da cartilha ideológica e capacidade de manutenção ou chegada ao poder, enquanto o capitalismo global passou a contar com novas fronteiras para expandir o consumo. 

Se coube ao proletariado uma espécie de protagonismo no século passado, podemos dizer que o atual período histórico conta com nascentes classes médias como novo ator de relevância, a influenciar cada vez mais os rumos da sociedade humana.


Pensar a Justiça - Fronteiras do Pensamento

O artigo Uma vida ordinariamente decente, foi originalmente escrito pelo jornalista Jaime Spitzcovsky como introdução da obra Pensar a Justiça, quarto volume da série Fronteiras do Pensamento, publicada pela Arquipélago Editorial. Leia o artigo completo no livro.

Confira os quatro volumes, que trazem textos integrais de conferências, além de entrevistas e artigos exclusivos.