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Eduardo Giannetti: "Valores éticos são a gramática da convivência"

Para viver em sociedade, precisamos compartilhar alguns valores básicos que guiam a forma como lidamos com as demandas e as subjetividades do outro. Estes valores morais não são os mesmos em todas as épocas, culturas e gerações, mas têm um caráter de longo prazo que faz com que os processos de assimilação de novos valores sejam lentos e, por vezes, tumultuados.

Surgem, nesse contexto, conflitos de gerações, choques culturais e uma certa resistência a essas mudanças. Quais paradigmas sociais devemos levar adiante, e quais outros devem ser repensados? A questão é sensível, e demanda a reflexão a partir de muitas vozes.

Em artigo para o especial Fronteiras do Pensamento na Folha de S.Paulo, o jornalista Walter Porto aborda a importância dos valores éticos para a vida em comunidade, e o processo de aprendizado destes valores. Para isso, ele recorre ao entendimento do economista brasileiro Eduardo Giannetti, autor de Trópicos Utópicos.

Giannetti e Lipovetsky participam de debate nos dias 5 e 7 de junho

Giannetti, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) em São Paulo, sobe ao palco do Fronteiras 2017 para debate com o filósofo francês Gilles Lipovetsky no início de junho. Confira abaixo:


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Valores éticos são a gramática da convivência | WALTER PORTO

Você já deve ter ouvido, mesmo que à boca miúda: se alguém tem uma conduta reprovável, é porque não aprendeu bons valores em casa.

Ética, respeito e honestidade são qualidades enaltecidas e alvo de preocupação de pais e escolas, mas desvios são tão frequentes que levam à pergunta: é possível ensinar princípios a outra pessoa?

O economista e ensaísta Eduardo Giannetti compara a assimilação de valores ao aprendizado da linguagem. É difícil dizer quem nos ensinou a falar, mas ninguém nasceu sabendo e todos aprenderam.

"Valores éticos são uma espécie de gramática da convivência. Sem a gramática, não há língua, do mesmo modo como a virtude dá o estilo do convívio", diz Giannetti.

Ele lembra o diálogo entre Platão e Protágoras, no qual esse último argumenta que a consciência e a noção de justiça são traços conquistados a duras penas pela humanidade, que devem ser reaprendidos a cada geração; o ensino começa no colo das mães, passa pela escola e continua por toda a vida em comunidade, com a ajuda da punição dos transgressores.

O educador Mario Sergio Cortella aponta a exemplaridade como melhor maneira de ensinar ética. "É claro que valores podem ser transmitidos pelos pais, mas não com a automaticidade que alguns desejam. Até porque parte da força de uma nova geração vem da oposição à anterior."

Giannetti afirma que a adesão às normas depende de internalização: é preciso entender por si mesmo que a regra é importante para a vida em sociedade, e não ser coagido por castigos ou vergonha.

"Passa por uma educação formal, que ajude a entender a existência de normas não para tolher pessoas, mas permitir que compartilhem o espaço de forma harmoniosa."

Leia também: Eduardo Giannetti lança Trópicos Utópicos em Porto Alegre

Luciene Tognetta, da Unesp, coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral, que reúne membros de várias universidades atentos ao ensino da ética nas escolas. Pesquisa do grupo analisou projetos de educação moral de 1.100 escolas públicas e considerou só 2% completos, já que a maioria se resumia em preleções verbais, tarefas e iniciativas isoladas de professores.

No aconselhamento que o grupo promove em colégios, a instrução é criar um ambiente que estimule a autonomia e a autorregulação. "O professor deve dar às crianças condições de resolver problemas pela conversa, deixar que, num conflito, saiam de seu ponto de vista e percebam o do outro. Só assim se desenvolve a autonomia do dever moral", diz a professora.

O colégio Bandeirantes, de São Paulo, dá curso de formação em ética para professores e funcionários e, nas salas de aula, mantém a disciplina Convivência em Processo de Grupo, que ocupa uma hora por semana do sexto ano ao fim do ensino médio, apresentando dilemas morais.

"A ideia é, sem mencionar a palavra ética ou moral, permitir que problemas relacionados apareçam naturalmente", diz a coordenadora, Maria Estela Zanini.

(via Folha)