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Valter Hugo Mãe, por Mia Couto

Encontro de Mia Couto e Valter Hugo Mãe com alunos da Escola Dr. Flávio Gonçalves, em Portugal (2008)
Encontro de Mia Couto e Valter Hugo Mãe com alunos da Escola Dr. Flávio Gonçalves, em Portugal (2008)

A mais recente obra do escritor português Valter Hugo Mãe foi lançada em Portugal em novembro de 2015, pela Porto Editora.

Intitulado Contos de cães e maus lobos, o livro inclui ilustrações de vários artistas, como Graça Morais, José Rodrigues, Paulo Damião, Nino Cais e prefácio de Mia Couto que, no texto introdutório, explica como conheceu o amigo e reflete sobre o reencantamento ao qual Mãe nos conduz em suas obras. Leia abaixo.

https://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/contos-de-caes-e-maus-lobos/16898020

MIA COUTO | A leitura profunda nos faz entender, nas palavras de outros, que o que chamamos de nossa identidade é um pedacinho ínfimo de um lugar perdido do universo.

Há anos, numa visita a Portugal, conheci Valter. Foi um encontro fugaz, nas margens de uma conferência. Ficou-me, desse breve encontro, o sentimento que ali estava alguém que se servia da timidez como um garimpeiro se serve do escuro. A partir desse acanhamento, Valter espreitava os mundos que há no mundo, as mil humanidades que há dentro de cada um de nós.

Anos depois, essa inicial impressão confirmou-se ao ler os seus livros. Ali estava a colheita desse olhar perscrutador, dessa atenta escuta que não ficava pelas vozes mas buscava as infinitas histórias em que a vida se eterniza.

Há na escrita de Valter Hugo Mãe algo que nos desconcerta e nos fragiliza. José Saramago percebeu e celebrou esse talento do escritor.

Tal como nos livros anteriores, há nesta antologia de contos o convite ao regresso a um recanto de que nunca saímos, um reencantamento de infância, uma cumplicidade de quem partilha vazios e silêncios.

Há nas suas histórias um redesenhar de fronteiras entre mundos, um gentil sismo na nossa condição de leitores de livros e do universo. A intenção de usar o livro como "máquina de fazer sentir" já tinha sido anunciada por Valter.

Nestas histórias, essa máquina opera dentro de nós sem outro material que não seja um modo de nos deslocarmos por dentro, um modo de nos descentrarmos e estarmos disponíveis a sermos outros. Está nestes contos aquilo que está em toda a sua obra: o questionar das nossas certezas mais fundas, uma visita às profundezas da alma.

A escrita de Valter sugere, a todo o momento, que os outros somos nós mesmos. Como o rapaz que habitava os livros, nós passamos a encontrar uma luz interior num acto de revelação que se diz nocturno.

Inverte-se então a relação entre a criatura e o criador: somos nós que somos lidos.

E é por isso que estes contos, mais do que gigantescos, não têm tamanho.