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Youthonomics: para compreender a juventude global contemporânea

O que ocorreria se o conflito definidor do século XXI não fosse entre nações, mas sim entre gerações? Esta é a pergunta proposta pelo Youthonomics, novo think tank dedicado à compreensão da juventude contemporânea, criado por José Ramos-Horta e Felix Marquardt. A indagação talvez seja extrema. Entretanto, em artigo apresentando a iniciativa, os fundadores do Youthonomics levantam uma série de questões urgentes a respeito do futuro das novas gerações.

Além de uma decrescente transferência líquida global de riqueza entre gerações, Ramos-Horta – ex-presidente do Timor-Leste e prêmio Nobel da paz – e Marquardt, ativista e ex-diretor de comunicação do jornal International Herald Tribune – citam a crescente responsabilidade para com a aposentadoria das gerações mais velhas e a decrescente confiança em relação aos seus próprios anos dourados como os principais problemas econômicos enfrentados pela juventude.

Ramos-Horta e Marquardt alertam para o cenário: “espera-se que as novas gerações financiem a aposentadoria dos mais velhos sem um prospecto de terem suas próprias aposentadorias financiadas de volta. Para piorar, na esteira da crise hipotecária de alto risco, a geração dos baby boomers optou em tomar milhões de débito acumulados em fundos especulativos, fundos de pensão, bancos e outras instituições financeiras privadas e os converteram em dívida pública, dessa forma, efetivamente, transferindo seu fardo para seus netos e bisnetos."

Eles também questionam: “O que ocorreria se, pela primeira vez, uma geração optasse em não transmitir nada à próxima? O que pode acontecer quando os millennials entenderem o quanto seus pais e avós colocaram em risco os seus futuros?"

Após um extenso e profundo estudo global, o Youthonomics lançou um ranking de 64 países de acordo com o potencial para a prosperidade da juventude (entre 15 e 29 anos) dentro de suas fronteiras. O index é baseado em 59 critérios que incluem taxas de desemprego entre os jovens, qualidade e custo da educação, capacidade de moradia, déficit público, acesso à tecnologia, liberdade religiosa e política.

O Brasil aparece como o pior país das Américas para os jovens e como um dos piores do mundo – está em 60º de 64 países, estando à frente apenas de quatro países africanos: Uganda, Mali, África do Sul e Costa do Marfim.

Leia abaixo o artigo escrito pelo grupo, um ensaio sobre a condição da juventude contemporânea em diversos aspectos:

A crise dos refugiados na Europa é apenas a mais dramática ilustração de um fenômeno mais amplo de fluxos migratórios crescentes e acelerados. Em um mundo onde as 75 pessoas mais ricas da terra possuem tanta riqueza quanto toda a metade mais pobre da humanidade, o fato de que um número cada vez maior de pessoas queira uma fatia decente da torta global dificilmente deveria ser visto com surpresa. De fato, a insatisfação com as condições econômicas e políticas está na base da maioria dos movimentos migratórios através da história.

Ao fundar o Youthonomics, nos propomos a medir como os jovens estão se saindo em uma escala muito ampla. Usando 59 critérios diferentes, incluindo desemprego entre os jovens, qualidade e custo da educação, a habilidade dos jovens em adquirir moradia e economizar para o futuro, déficit público, acesso à tecnologia, liberdade política e religiosa, idade média dos cargos eletivos e muitos outros, criamos o Índice Global do Youthonomics, que lista 64 países de acordo com eles estarem ou não criando condições que permitirão aos jovens a se desenvolver e prosperar.

Nossas descobertas mostram uma assustadora despreocupação com relação às novas gerações, com muitos países desenvolvidos como a França, o Japão e a Itália mal classificados e outros, como os Estados Unidos e o Reino Unido, mostrando tristes prospectos para a juventude nos anos que virão.

Em um estudo de 2009, intitulado “Economia de gerações em um mundo em transformação", Ronald Lee e Andrew Mason afirmam que, em diversas regiões do planeta, pela primeira vez desde que os seres humanos eram na maioria caçadores/coletores (fora em tempos de fome, epidemias ou guerra), não existe mais uma transferência líquida de riqueza dos pais para os filhos.

Pior ainda, espera-se que as novas gerações financiem a aposentadoria dos mais velhos sem um prospecto de terem suas próprias aposentadorias financiadas de volta. Para piorar, na esteira da crise hipotecária de alto risco, a geração dos baby boomers optou em tomar milhões de débito acumulados em fundos especulativos, fundos de pensão, bancos e outras instituições financeiras privadas e os converteram em dívida pública, dessa forma, efetivamente, transferindo seu fardo para seus netos e bisnetos.

Devido à novidade dessa situação, as suas consequências a longo prazo ainda não foram completamente entendidas. No século passado, o filósofo franco-lituano Emmanuel Levinas teorizou acerca da importância de transmitir conhecimento e valores de uma geração para a próxima. De fato, ele viu a transferência como uma das diferenças chave de comportamento entre os homens e os outros animais.

Mas, e quanto a importância de se transferir riqueza? O que aconteceria quando, pela primeira vez, uma geração optasse em não transmitir nada à próxima? O que pode acontecer quando os millennials entenderem o quanto seus pais e avós colocaram em risco os seus futuros?

Muito foi dito a respeito do risco de um conflito entre civilizações, entre culturas, entre as religiões que se segue no século XXI. E se a maior ameaça que enfrentamos for, de fato, um conflito entre as gerações?

Os políticos tendem a tratar os jovens sem se preocupar: jovens não votam, eles são (os novos) pobres – em média a crise hipotecária os tornou ainda mais pobres enquanto muitos aposentados ficaram ainda mais ricos – e, na maioria dos países desenvolvidos, eles representam uma porção em contração da população. Esses políticos parecem ter esquecido de que oportunidades sem precedentes de mobilidade internacional significam que a juventude possui uma influência sem precedentes para finalmente obterem a consideração que merecem.

Se os jovens não forem ouvidos, se suas necessidades básicas não forem atendidas, eles vão cada vez mais fazer suas malas e partir. Já estamos vendo os filhos e netos dos imigrantes na Europa e nos EUA retornando aos seus países de origem para abrir negócios e procurar melhores oportunidades.

Países e governos que introduzem políticas que elevam as possibilidades de seus jovens e permitem que eles se desenvolvam devem ser elogiados no palco global por fazê-lo, estimulando que a juventude de outros lugares cobre de seus governos a introdução de práticas mais eficazes.

Um visto de trabalho global para jovens ajudaria muito a reequilibrar as coisas em favor de uma geração que ainda está cambaleando com as consequências da crise financeira através de um nivelamento do campo global. Isso permitiria que os jovens do mundo utilizassem o mais amplo meio de voto conhecido até hoje: seus pés.

A equipe do Youthonomics passou mais de um ano compilando dados de 64 países, baseada em uma ampla gama de indicadores, de forma a entender o quanto cada país é amistoso com os jovens. A posição de cada nação é determinada de acordo com as condições atuais e se o país está investindo no futuro dos seus jovens. Nosso objetivo é dar às pessoas a informação que necessitam para tomarem melhores decisões – quer eles desejem ficar onde estão ou procurarem um futuro mais esperançoso em outro lugar.


Clique na capa do relatório do Youthonomics para ter acesso ao estudo completo, que inclui outros índices, como o otimismo dos jovens e a visão das novas gerações sobre o presente, bem como textos sobre as conclusões da pesquisa e sobre especificidades dos países.

Leia abaixo o ranking dos países, começando pelos mais bem posicionados:

1.Noruega
2.Suíça
3.Dinamarca
4.Suécia
5.Países Baixos
6.Austrália
7.Alemanha
8.Finlândia
9.Áustria
10.Canadá
11.Luxemburgo
12.Nova Zelândia
13.Estados Unidos
14.Irlanda
15.Israel
16.Reino Unido

17.Bélgica
18.Estônia
19.França
20.República Tcheca
21.Eslovênia
22.Coreia do Sul
23.Malásia
24.Chile
25.Látvia
26.Japão
27.Polônia
28.Casaquistão
29.Eslováquia
30.Portugal
31.China
32.Itália

33.Lituânia
34.Turquia
35.Uruguai
36.Grécia
37.Espanha
38.Hungria
39.Filipinas
40.México
41.Peru
42.Tailândia
43.Argentina
44.Indonésia
45.Nepal
46.Ucrânia
47.Honduras
48.Gana

49.Índia
50.Colômbia
51.Croácia
52.Ruanda
53.Vietnã
54.Sri Lanka
55.Bangladesh
56.Paquistão
57.Rússia
58.Quênia
59.Egito
60.Brasil
61.Uganda
62.Mali
63.África do Sul
64.Costa do Marfim