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A árdua sinfonia de vida de Amós Oz

"Sonhos e fantasias, quando se tornam realidade, são decepcionantes. Israel é um sonho que se tornou realidade."

Mais conhecido escritor israelense da atualidade, Amós Oz nasceu em Jerusalém, em 1939, no seio de uma família judaica. Aos 15 anos, enfrentou o pai para viver em um kibutz, onde completou o ensino secundário. Após o serviço militar, em 1961, voltou ao kibutz para trabalhar nos campos de algodão.

Com apenas 20 anos publicou o seu primeiro conto. A partir daí, convenceu a liderança do kibutz a isentá-lo de três dias de trabalho por semana para dedicar-se às letras, iniciando uma extensa produção literária, que inclui romances, ensaios e críticas.

Além de grande escritor, Oz é um eloquente defensor da divisão do país em dois Estados, um judeu e o outro árabe, como a única alternativa para a paz. Ao lado de David Grossman, Amós Oz é um dos israelenses mais traduzidos no mundo - sua obra chegou a mais de 40 línguas e 40 países. Ambos os escritores estão entre os 13 finalistas do prêmio The Man Booker International 2017.

AMÓS OZ é um dos destaques desta temporada de conferências do Fronteiras do Pensamento. O escritor sobe ao palco do projeto no mês de junho (SP, 26; POA, 28). Confira a programação completa do Fronteiras em São Paulo e Porto Alegre e garanta sua presença na capital gaúcha e paulista.

de amor e trevas amos oz

A vida da família de Oz foi retratada em um de seus mais conhecidos livros, De amor e trevas, que voltou a receber destaque no ano passado, a partir da adaptação para o cinema feita por sua conterrânea, a atriz Natalie Portman.

Lançado no Brasil em 2005, pela Companhia das Letras, De amor e trevas mistura romance e autobiografia e é escrito de maneira não-linear, numa linha do tempo que volta até as raízes dos ancestrais judeus de Amós Oz na Ucrânia do século 19.

O autor descreve a vida no exílio e mostra como o antissemitismo e o sionismo levam seus parentes a fazer o caminho de volta para a Palestina. A infância e a juventude do autor em Jerusalém toma a maior parte do livro. A descrição da casa onde cresceu, da tensão entre seu pai disciplinador e sua mãe distante, da convivência com os "pioneiros" de Israel e com os sobreviventes do Holocausto se funde aos acontecimentos que fizeram a conturbada história de Israel.

Já o filme, primeiro a ser dirigido por Portman, estreou nas salas de cinema do Brasil em maio de 2016, e desliza pela feliz juventude de Fania, mãe de Oz, em Rivne (atual Ucrânia). O longa se concentra no período de 1945-1953, um ano após o suicídio de Fania aos 39 anos, quando Amos tinha apenas 12.

Mulher e mãe amorosa, Fania afunda na depressão, uma vez que "a vida não cumpriu nenhuma das promessas de sua juventude", segundo disse o próprio Oz. Adolescente, Amos deixa seu pai pelo kibutz e troca seu sobrenome paterno, Klausner, adotando "Oz", que significa "coragem" e "força" em hebraico.

- Em entrevista, Oz fala sobre o livro, sobre sua história e sobre a relação que tinha com sua mãe -

"Não é um ensaio dissimulado, não é um livro polêmico: é uma história que o mundo está prestes a esquecer."

Estava pensando no motivo que o levou a escrever a autobiografia, De amor e de trevas, no momento em que o fez. É uma obra literária que também tem um interesse histórico. O senhor sentiu necessidade de contar tudo isso para si mesmo, ou quis se aprofundar na posição do povo judeu, colocando-os em plano de igualdade com os palestinos, como vítimas?
Amós Oz:
Precisava contar a história porque tenho filhos que não conheceram meus pais, e agora tenho até netos que talvez nunca saberão porque nasceram em Israel. No bairro de Jerusalém em que me criei, havia um carteiro engraçado. Tinha o costume de escrever nos envelopes suas próprias cartas, antes de depositá-las nas caixas; nunca abria um envelope, mas escrevia coisas como “não crie mal seus filhos, não lhes faz favor nenhum" ou “sua roupa está há três dias pendurada no varal, e as pombas...". Mas, não quero mudar de assunto.

Quando estava escrevendo esse livro, me senti muitas vezes como aquele carteiro, com uma carta de meus pais para meus filhos, de meus avós para meus netos, dos que nos antecederam aos que talvez ainda não tenham nascido, e no envelope escrevia coisas de minha vida, minhas ideias e meus avisos sobre as pombas.

Os europeus a estão esquecendo. Os israelenses a estão esquecendo. E os palestinos nunca a escutaram. Eu tinha necessidade de contá-la. Para mim, contar histórias é como a comida, o sono ou o sexo; preciso dar e receber.

Parece que quis contar sua história de uma vez por todas, o que transparece em uma escrita sincera, sobretudo nas páginas sobre sua mãe, que é o fio condutor.
Amós Oz: Ela é a heroína do livro, e não eu. Por isso resisto a chamá-lo de autobiografia ou memórias. Eu não passo de um personagem secundário, os protagonistas são meus pais.

Há um trecho precioso, que não sei se é exatamente biográfico. Quando menino, está com sua tia numa loja de roupas. Vai para os fundos da loja e se encontra numa espécie de labirinto de caixas e vestidos. Ali, há uma menina linda que você persegue até ver que é uma velhinha monstruosa, e você acaba se escondendo num armário. E de lá é resgatado por um velho árabe que o devolve a sua tia. É um símbolo?Amós Oz: É tudo autêntico, mas nem tudo é uma confissão. Cuidado. A metade do que sabemos sobre os outros é imaginação. Não me refiro à literatura. Falo de minha mulher, meus filhos: a metade do que sei sobre eles é imaginação.

Por isso, ao ler este livro, deve-se levar em conta que a linha entre fantasia e realidade não existe. A fantasia é muito real. Por exemplo, quando escrevi sobre o que acontecia no quarto entre meus avós não pude consultá-los, apenas a meus próprios genes. E eles me contam, porque estão dentro de mim.

A falta de rancor que há em todos os personagens é muito reconfortante...
Amós Oz: Esse livro foi escrito quando eu já não sentia mais ódio. Durante muitos anos, odiei minha mãe por ter abandonado um marido e um filho tão maravilhosos, como se tivesse fugido com um amante. Odiei meu pai por ser um idiota que deixou escapar uma esposa maravilhosa. Odiei a mim mesmo porque devia ser um monstro para que minha mãe me deixasse. “Se tivesse feito meus deveres e ajudado com a louça, ela ainda estaria viva."

Mas escrevi o livro quando a raiva e o ódio já tinham passado. Quando senti que podia convidar os mortos para tomar um café comigo. Meu pai, minha mãe, meus avós, meus vizinhos... Convidá-los a sentar-se para falar. Há muitas coisas das quais nunca falaram comigo, então agora havia chegado o momento de eu falar com eles. E de lhes apresentar minha mulher e meus filhos. Foi nesse espírito que escrevi.

Mas também levando em conta o valor que tinha como testemunho a perseguição de sua própria família. Afinal, é um escritor engajado.
Amós Oz: Em nosso caso, o pessoal e o histórico não são duas coisas tão diferentes. A história é pessoal. Mas a divisão não é clara. Quando minha mãe passava suas noites de insônia, certamente também se lembrava de seu povoado, no qual todos haviam sido assassinados. E ela, em Jerusalém, lembrava-se deles. Isso é histórico ou pessoal?

Em seu livro, fala-se com nostalgia das intenções dos primeiros judeus que povoaram Israel, quando chegaram seus avós e todos os que queriam implantar o socialismo, quando seu pai, no momento em que o Estado de Israel é reconhecido, chora e diz: “Finalmente temos uma terra, um Estado onde morar". Aquele sonho foi sendo destruído com o passar do tempo?
Amós Oz: Há uma verdade que é universal, não só israelense: sonhos e fantasias, quando se tornam realidade, são decepcionantes. Israel é um sonho que se tornou realidade: um pouco cinzento, um pouco sujo, um pouco gasto e, às vezes, nem mesmo cheira bem.

Mas, é o que acontece com qualquer sonho. Acontece quando alguém escreve um romance. O romance que temos na cabeça é muito melhor do que o que acabamos fazendo. Ou quando se planta um jardim, ou se realiza uma fantasia sexual.

O sonho de meus pais era um sonho messiânico: criar um paraíso ético, como o sonho dos profetas. Mas, na manhã seguinte, há problemas com o encanamento, e acontece que nosso amante ronca quando dorme.

A diferença entre minha mãe e eu é que ela cresceu com um cardápio muito romântico - grandes sonhos, um grande amor, uma grande vida poética -, e essa dieta a matou.

É muito perigoso, sobretudo quando a pessoa fica viciada em diversos tipos de idealismo. Pode-se morrer de uma overdose de sonhos românticos. São como uma droga. Por outro lado, eu sou um homem prosaico.

Eu gostaria muito de ler as histórias que sua mãe lhe contava quando menino.
Amós Oz: Minha mãe era melhor escritora que eu, mas, em certo sentido, escreveu através de mim. A isso me referi quando disse que hoje convido os mortos à minha casa.

No livro, há um núcleo irradiador que é a morte dela. Todo o relato se move em círculos ao redor de sua morte. Às vezes, se aproxima e, às vezes, se distancia, até as últimas páginas. Foi muito difícil para mim criar essa estrutura.

Como fazer as modulações entre uma conversa com Ben Gurion, as fantasias e histórias de minha mãe, a vida em Israel há 90 anos, a cultura do kibutz e minha vida atual em Arad, além da mulher que me ensinou o que é o sexo? Como orquestrar tudo isso? Foi um enorme problema musical.

As pessoas me perguntam se foi muito difícil fazer uma confissão. Confessar não é nada ao lado de criar uma estrutura e a combinação artística capaz de harmonizar todas as coisas.

O senhor deve ter ficado satisfeito ao terminar.
Amós Oz: Isso é pouco. Quando estava escrevendo, pensava que não ia conseguir, que ia acabar comigo. Tive enormes dificuldades com a composição. E é um livro escrito por um romancista, não é uma memória cronológica. Eu o construí como uma sinfonia.


LEMBRE-SE: AMÓS OZ é o convidado do Fronteiras do Pensamento no mês de junho (SP, 26; POA, 28). Garanta sua presença nas conferências de Porto Alegre e São Paulo.