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A morte é opcional: Daniel Kahneman entrevista Yuval Noah Harari

Yuval Noah Harari e Daniel Kahneman (Edge.org)
Yuval Noah Harari e Daniel Kahneman (Edge.org)

A aliança entre medicina e tecnologia tem modificado a percepção da vida de forma muito mais profunda do que pensamos. Não se trata apenas da cura de doenças ou de novos tratamentos, mas a própria morte saiu da esfera filosófica e entrou no campo técnico. Não há mais um Deus que virá quando sua hora chegar. Hoje, a morte se trata de problemas no fígado ou em alguma válvula do coração. Esta mudança do metafísico para o técnico tem um impacto sem precedentes na história de acordo com historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do best-seller Sapiens: uma breve história da humanidade.

Em entrevista ao Nobel de Economia, Daniel Kahneman, Harari reflete sobre muitas outras transformações geradas pela tecnologia e como elas modificaram não apenas a vida na sociedade, mas como a própria ideia de sociedade. Leia abaixo um excerto da entrevista:

Daniel Kahneman: o que você está descrevendo, o cenário para o qual vocês está apontando, é um de progresso tecnológico muito rápido, e não importa se estamos falando de 50 ou 150 anos. Há um arranjo social que está aí por algum tempo, por décadas ou séculos. E eles mudam de forma relativamente devagar. Então, o que você está me sugerindo, enquanto lhe ouço, é que existe uma grande desconexão entre a veloz mudança tecnológica e os arranjos culturais e sociais rígidos que não conseguem acompanhar.

Yuval Harari: Sim, este é um dos grandes perigos, um dos maiores problemas da tecnologia. Ela se desenvolve muito mais rapidamente do que a sociedade e a moralidade humana e isso cria muita tensão. Mas, claro, novamente, podemos tentar aprender algo de nossas experiências prévias na Revolução Industrial do século 19, quando vimos mudanças rápidas na sociedade, não tão rápidas quanto as mudanças na tecnologia, mas, mesmo assim, surpreendentemente rápidas.

O exemplo mais óbvio é o colapso da família e da comunidade íntima e sua substituição pelo Estado e pelo mercado. Basicamente, ao longo de toda história, seres humanos viveram como membros destas pequenas e importantes unidades, a família e a comunidade íntima, algo como 200 pessoas, que são sua vila, sua tribo, sua vizinhança. Você conhece todos; todos lhe conhecem. Você pode não gostar deles, mas sua vida depende deles. Eles lhe fornecem quase tudo que você precisa para sobreviver. Eles são cuidam da sua saúde. Não há fundos de pensão; você tem filhos, eles são seus fundos de pensão. Eles são seu banco, sua escola, sua polícia, tudo. Se você perde sua família e a comunidade íntima, você está morto ou precisa encontrar uma família substituta.

E esta foi a situação por centenas de milhares de anos de evolução. Até mesmo quando a história começou, digamos que há 70 mil anos, quando você vê todas estas mudanças na agricultura, nas cidades, nos impérios e nas religiões, você não vê mudanças significativas neste nível. Mesmo no ano de, por exemplo, 1700, a maior parte das pessoas ainda vive como parte de famílias e comunidades, que fornecem a maioria das coisas que precisam para sobreviver. E você poderia ter facilmente imaginado, no início da Revolução Industrial, que esta situação se manteria.

Se você fosse, digamos, um psicólogo evolucionista em 1800 e visse o início da Revolução Industrial, você teria bastante confiança em dizer que estas mudanças na tecnologia são boas, mas que não mudariam a estrutura básica da sociedade humana. A sociedade humana é construída a partir destes pequenos blocos de construção, a família e as comunidades íntimas, porque isso é como uma herança da evolução. Humanos precisam ser assim. Eles não podem viver de outra maneira.

Daí, você olha para os últimos 200 anos e você vê o colapso de milhões de anos de evolução. De repente, em 200 anos, a família e as comunidades íntimas se quebram, colapsam. A maior parte dos papeis preenchidos pela família e pela comunidade por milhares, por dezenas de milhares de anos, são rapidamente transferidos para redes providas pelo Estado e pelo mercado. Você não precisa de filhos, você pode ter um fundo de pensão. Você não precisa de alguém que cuide de você. Você não precisa de vizinhos, de irmãos e irmãs para cuidarem de você quando estiver doente. O Estado cuida de você. O Estado lhe fornece polícia, educação, saúde, tudo.

Você pode dizer que a vida contemporânea é, de algumas formas, pior do que era em 1700, porque perdemos tanto dessa conexão com a comunidade ao nosso redor... É um grande argumento... Mas aconteceu. As pessoas encontraram uma maneira de viver, muitas pessoas, isoladas, indivíduos alienados. Nas sociedades mais avançadas, as pessoas vivem como indivíduos alienados, sem uma comunidade para conversas, com famílias muito pequenas. Não há mais uma grande família. Agora, é muito pequena, talvez com apenas uma esposa, talvez dois filhos e até mesmo eles podem viver em outra cidade ou país e você os verá uma vez em alguns meses e é isso. E o surpreendente disso é que as pessoas vivem assim. E isso em questão de 200 anos. O que pode acontecer nos próximos 100 anos no âmbito da vida cotidiana, das relações íntimas? Tudo é possível.

Acesse o Edge.org para assistir ao vídeo e/ou ler a transcrição integrais. Ao concluir a leitura, não deixe de ver os comentários feitos por Steven Pinker, Nicholas Carr, Kevin Kelly e pelo próprio Yuval Harari.