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Alberto Manguel: "Somos os livros que já lemos"

Zero Hora: O senhor escreveu, em Uma História da Leitura, que com a mudança dos suportes para o texto escrito mudou também a própria forma de ler. Que tipo de leitura o senhor crê que teremos em uma época em que a leitura se realiza com dispositivos digitais, pela primeira vez sem contato com os suportes concretos de sempre, da argila ao papel?
Alberto Manguel: Cada suporte exige métodos diferentes para seu uso. Os pés que usamos para nos transportar exigem de nós um aprendizado diferente do automóvel. Do mesmo modo, uma tecnologia baseada nos atributos da imprensa exige métodos distintos que os demandados por uma tecnologia eletrônica. Sabemos que os caminhos neurais que servem à leitura de um texto impresso não são os mesmos que servem para uma leitura na tela. Mas não sabemos ainda exatamente como essas mudanças fisiológicas influem sobre nossa compreensão e elaboração de um texto. Conhecíamos as diferenças entre uma transmissão oral e uma escrita; temos que descobrir em que consistem as futuras, entre o impresso e o digital.

Zero Hora: O neurocientista Antônio Damásio já disse que o grande número de estímulos externos que requerem a atenção na atual sociedade urbana contemporânea deve mudar, a longo prazo, a própria arquitetura do cérebro, reduzindo, em consequência, nossos períodos de concentração e foco em favor de um perfil “multitarefa". Que efeitos isso pode ter na capacidade humana para ler e decifrar o texto escrito?
Alberto Manguel: É muito cedo para saber, mas temos algumas chaves no fato de que os jovens que aprenderam a ler na tela não aprenderam a ler no sentido clássico: têm dificuldade em analisar, recriar, comparar o texto com outros textos, identificar experiências narrativas com as suas próprias, construindo uma espécie de glosa do texto original à medida que vão lendo. A leitura virtual propõe uma leitura “cut and paste", ou seja, pegar fragmentos dos textos propostos na tela e juntá-los a outros, sem construir pontes contextuais próprias. Tampouco exercitam a memória, que é confiada a uma máquina. Isto faz com que supervalorizem o momento presente e não tenham consciência da experiência passada, que deve ser memorizada e reelaborada para servir à ação presente. Não sei como serão resolvidos esses problemas fundamentais.

Zero Hora: O senhor já comparou em conferências e entrevistas a leitura com a sexualidade – duas atividades muito pessoais e subversivas, e cujo ensino é mais complexo do que muitos pensam. Quais são os principais desafios contemporâneos ao ensino pleno da leitura?
Alberto Manguel: Não se pode ensinar a ler no sentido mais amplo, mais profundo, sem ensinar-se valores sociais que nosso mundo atual rechaça. Se valorizarmos o rápido e o fácil sobre o difícil e o lento, como convencer alguém do valor da leitura?

Zero Hora: O senhor usa uma linguagem acessível, democrática, quando escreve sobre literatura e arte. Na sua opinião, qual o veículo ideal para textos críticos assim? Revistas, jornais, livros, internet?
Alberto Manguel: Qualquer um deles, desde que respeitem a inteligência do leitor. Em geral, não respeitamos a inteligência do público, não cremos que “os outros" mereçam as coisas que “nós" merecemos. É certo que, em geral, a maioria não tem razão, se deixa convencer por demagogos e falsos profetas. Mas até mesmo a maioria depende, para sobreviver, dos questionamentos de uma minoria, depende de uns poucos indivíduos que sabem refletir, imaginar – no sentimento mais profundo, ler.

Zero Hora: Zero Hora: O senhor acredita que a alta circulação de imagens, em velocidade, pode fazer com que as pessoas percam a capacidade de contemplar? A arte ainda é o refúgio do olhar reflexivo?
Alberto Manguel: Não necessariamente. Hannah Arendt definiu a cultura como “a aprendizagem da atenção". Em uma sociedade onde valorizamos acima de tudo a velocidade, e acalentamos uma tecnologia acima de tudo impaciente, a atenção não se aprende facilmente, nem mesmo contemplando obras de arte.

Zero Hora: Quais são as diferentes habilidades necessárias para ler uma imagem e um texto? É mais fácil ler uma ou outro?
Alberto Manguel: Ambas as atividades estão sujeitas a nosso impulso natural de interpretação, ainda que a leitura requeira procedimentos fisiológicos do cérebro diferentes daqueles requeridos pela leitura de imagens. Às vezes, uma se traduz na outra, mas estas são questões que exigem um espaço maior para discutirmos.

Zero Hora: Em 2011, durante a Jornada de Literatura de Passo Fundo, o senhor se envolveu em uma discussão sobre leitura e aplicativos digitais com a editora escocesa Kate Wilson. Ela apresentou um projeto de um livro semelhante a um jogo eletrônico e o senhor criticou o projeto dizendo que “a leitura não é comércio." Qual é a sua opinião sobre esse debate hoje, uma vez que as iniciativas do mercado de dispositivos digitais se ampliaram tanto?
Alberto Manguel: Sigo pensando o mesmo. Uma criança deve aprender a existir no mundo através de relações humanas concretas: através do contato com outros seres humanos, e não com máquinas. Nos anos 1960, foram feitas experiências com filhotes de macacos, afastando-os do contato com as mães e pondo-os em contato com robôs que os alimentavam e os protegiam. Os bebês morreram. Se permitirmos que o aprendizado da leitura, da linguagem, dos meios convencionais de comunicação se faça através de tecnologias, por mais refinadas que sejam, e não de ser humano para ser humano, seremos culpados de infanticídio. Aprendemos a sorrir porque vemos um sorriso, aprendemos a chorar porque um gesto nos assusta, aprendemos palavras porque vemos outros lábios moverem-se e ouvimos os sons produzidos por esses lábios, e tudo isso acompanhado por uma infinidade de gestos, sons, aromas, sensações táteis que nos fazem saber que somos parte da família humana.