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Asne Seierstad: “Que país seríamos só com pessoas de olhos azuis?”

Ilustração: Alessandra Genualdo
Ilustração: Alessandra Genualdo

Os conflitos mais complexos de se resolver são aqueles em que não há um lado certo e outro errado, mas inúmeras variáveis que envolvem política e ideologia, mas também sentimentos e experiências profundamente humanas. Nessas situações, quando se insiste em lógicas dualistas, acabam surgindo manifestações de extremismo e intolerância em todos os lados do problema.

São exemplos de extremismo a xenofobia e o terrorismo, duas questões ligadas à situação de guerra no Oriente Médio e de migração de refugiados sírios para países europeus. Tais aspectos compõem uma das problemáticas mais centrais nas discussões diplomáticas internacionais da atualidade.

Fugindo de dualismos, e com a proposta de realmente compreender um capítulo trágico da história de seu país, a jornalista norueguesa Asne Seierstad escreveu o livro Um de nós (2015), publicado no Brasil em 2016. A obra conta a história do maior atentado já ocorrido na Noruega, quando Anders Breikvik matou 77 pessoas em um acampamento de jovens em 2011. Após acompanhar o julgamento do criminoso, pesquisar registros policiais e entrevistas pessoas envolvidas no massacre, assim como familiares e amigos das vítimas, a escritora publicou o livro.

O responsável pelo ataque, Breikvik, era norueguês e se definia como nacional-socialista. Sua ação violenta foi justificada por ele como um ato para prevenir a “islamização da Europa”.

Asne Seierstad foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2007.

Em entrevista ao jornal O Globo, a autora do best-seller O livreiro de Cabul (2006), fala sobre a experiência de escrever sobre o próprio país, e trata também da questão mais ampla dos refugiados na Europa e da xenofobia.


Como a crise de refugiados é tratada no país atualmente?

Todos na Europa agora estão atentos a esta questão, sejam ou não extremistas. Existem muitos refugiados, e os europeus parecem não estar preparados para isso. Mas a Noruega não mudou tanto sua percepção sobre o assunto. O país não muda somente por causa da ação de um homem. Foi um momento trágico para a nação, fomos feridos e percebemos que também somos vulneráveis, mas não nos tornamos daquele jeito, não tivemos um debate profundo sobre o tema. O debate, aliás, está acontecendo agora por causa da crise de refugiados e dos imigrantes.

O ataque foi feito em um acampamento de jovens do Partido Trabalhista. A legenda continua sendo uma das mais fortes no país?

Assim como em muitos países, quando um partido fica muito tempo no poder, as pessoas acabam querendo uma mudança. Mas acho que o Partido Trabalhista ainda pode voltar ao poder em alguns anos. No caso da tragédia, ninguém usou o nome de Breivik nos debates políticos, ninguém queria colocá-lo em um tapete vermelho ou usá-lo para defender qualquer ponto de vista político. A Noruega se uniu contra ele. Você pode ser esquerda ou direita, querer mudanças no sistema parlamentar ou político, mas você não mata pessoas, não comete terrorismo com adolescentes. É totalmente inaceitável matar por objetivos políticos. Ele realmente não tem nenhum apoiador na Noruega.

Um dos temas do manifesto que Breivik escreveu era a islamização, que ele considerava grande. Como é a realidade do país neste aspecto?

A Noruega é um país que recebe imigrantes, mas eles representam 3% da população. Como eles iriam “islamizar” o país? Ele dizia coisas como “os imigrantes têm muitos filhos, podem ter quatro ou até seis”, mas não mencionava dados, não tinha nenhum exemplo. Era uma teoria que ele leu sobre a Europa, mas ele não mostrava “olha aqui, são muitos”. Claro que em alguns bairros de Oslo podemos dizer que há muitos imigrantes, eles estão concentrados em alguns locais, mas há grandes áreas sem nenhum. A mim não incomodam imigrantes no bairro, nem o fato de usarem véu. Que tipo de país seríamos se tivéssemos apenas pessoas de olhos azuis? O mundo é global agora. Breivik disse que fez aquilo para alertar os noruegueses, que em 20 anos a islamização teria tomado a Europa.

A xenofobia cresceu na Europa nos últimos anos, principalmente com a crise de refugiados. Como as pessoas veem isso na Noruega?

Há debate, há uma grande discussão sobre patriotismo. Mas nunca vi nenhum ataque contra qualquer imigrante, embora não possa dizer que não ocorra. Claro que deve haver pessoas que podem achar que há muitos imigrantes. Alguns mais velhos dizem isso, e é um pouco chocante, mas eu não estou preparada para chamá-los de xenófobos enquanto não partirem para alguma ação real.

O país vem fazendo sua parte?

Eu acho realmente que devemos fazer mais, a parte que nos cabe em relação a essa crise, mas não acho que este seja um pais xenófobo, como alguns do Leste Europeu, como a Hungria ou a República Tcheca, que dizem: “O.k., vamos receber refugiados, mas apenas os cristãos.” Isso é uma ação xenófoba.

E os Soldados de Odin (grupo de extrema-direita)?

É um problema em potencial, mas hoje estão mais próximos do ridículo. Um grupo de ex-criminosos que dizem que querem proteger a Noruega dos imigrantes. Então esses skinheads saem por aí dizendo às mulheres: “Se tiverem problemas, nos chamem.” Mas não são bem-vindos e nem foram convidados. Chamam grande atenção da mídia, e a parte ridícula é que esses caras que se dizem tão puros e honrados têm histórico criminal em muitos casos. Mas são 20 ou 30, não chegam a 50 pessoas. Um grupo muito pequeno.

É a primeira vez que você escreve sobre seu próprio país. Foi diferente?

De um lado, a pesquisa para este livro foi algo que eu mesma vivi, já que ele é também sobre a Noruega, sobre tudo que nos rodeia. Visitei cidades comuns, que estavam em choque e em luto, e percebi que era sobre essas coisas que eu deveria escrever. Decidi que deveria ir a fundo nisso, porque, como diz o nome do livro, ele é um de nós. Ele, inclusive, morava na minha rua, bem perto da minha casa. Quando você pesquisa sobre seu próprio país, sabe muito sobre aquilo, mas em compensação é difícil se afastar dos fatos. Eu tentei começar a ver a Noruega do ponto zero, sem dar nada como certo, de um jeito novo. Era preciso fazer isso para entender todo aquele caos, ou por que aquilo aconteceu.

Qual foi a pior parte do processo?

Foi um livro difícil de escrever porque cobriu muitos aspectos. Se, por um lado, temos uma pessoa muito fria, um terrorista político e criminoso, que é a parte dele que é má, de outro temos o lado humano. E eu tive que misturar tudo isso com todas aquelas vidas que tiveram que ser interrompidas aos 16, 17, 18 anos para tentar transformá-lo em um livro que fosse também sobre a Noruega. Acho que o processo todo foi difícil, todos os detalhes que eu tive que escrever, do crime, das pesquisas... Queríamos que tudo estivesse correto. Mas é claro que também chorei escrevendo. É um livro em que eu coloquei muita emoção.

(Via O Globo)