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Ayaan Hirsi Ali: Os muçulmanos precisam repensar o sexo, o dinheiro, a violência, e o conceito de tempo

Crédito: NeONBRAND | Unsplash.com
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Ayaan Hirsi Ali, conferencista da temporada 2008 Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador, é uma escritora somali, autora do best-seller Infiel: a história de uma mulher que desafiou o Islã. Ela é hoje uma das mais fortes e provocativas feministas criticando o Islã.

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Ameaçada de morte, Ayaan Hirsi Ali vive escondida. Em um local não revelado, o jornalista Andy Martin encontrou uma mulher em uma missão, uma mulher que descobriu o poder de dizer “não”, e a liberdade que isso lhe deu. Confira abaixo essa entrevista:

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Depois de “mãe” e “pai”, qual a primeira palavra que uma criança aprende a falar? Em muitos casos, a primeira palavra séria dita é o “não”. A opção “sim” vem apenas depois. Talvez seja mais difícil formá-la foneticamente. Mas intelectualmente, o “sim” é um pouco problemático. Quem quer dizer sim para tudo? Isso não é ser submisso? Seres humanos são definidos pela oposição, pela habilidade de dizer não, que algo não vem ao caso, que “eu não sou uma coisa”.

Ayaan Hirsi Ali foi a roteirista e narradora do curta Submission, que desconstruiu a maneira como as mulheres muçulmanas são tratadas na Holanda, que levou ao assassinato do diretor Theo van Gogh em 2004. Seu assassino pregou um bilhete no peito do diretor, dizendo que Ayaan Hirsi Ali seria a próxima. Por isso ela se esconde.

Ela nasceu de uma família muçulmana na Somália, cresceu entre o Quênia, Etiópia, e Arábia Saudita e, aos 22 anos, foi forçada a se casar com um homem que seu pai considerava ideal para ela, no Canadá. Mas ela não gostou dele, e pegou um avião para a Alemanha, e acabou conseguindo visto de refugiada na Holanda, onde abandonou a fé islâmica e se tornou congressista no parlamento. De lá, foi para a costa oeste norte-americana onde casou-se com um historiador, com quem tem um filho de cinco anos.

Acusada de ser porta-voz de uma rede de Islamofobia, Ayaan Hirsi Ali se defende: “Não há nenhuma conspiração. Infelizmente. Mas se você abandona a fé islâmica, haverá pessoas querendo matar você por lhe considerar desertora. Faz sentido eu me preocupar. Não é fobia, é um medo racional”.

Ela já havia dito “não” para se casar com uma pessoa que ela não havia escolhido quando chegou na Europa – um esforço heroico, uma vez que toda sua criação e educação foi elaborada para persuadi-la a dizer “sim”. Em uma passagem de seu livro Nômade, ela descreve sua dificuldade em economizar: “Como eu fui educada para dizer sim, não consigo dizer não para vendedoras”, o que explica por que, de forma similar, seu pai ficou chocado quando ela recusou a se casar: “Eu não posso aceitar um não seu”, disse ele. Seu pai fez a festa de casamento sem ela. Ela não precisava estar lá. Era mais fácil sem ela. Ninguém sentiu sua falta. Os convidados estavam tranquilos com isso. Era tudo arranjado. Sem problemas. Ela apenas complicaria as coisas se estivesse lá.

Ayaan Hirsi Ali afirma que “Islã” significa submissão ou obediência, não apenas das mulheres, mas também dos homens. “Para quem vê de fora, pode parecer que os homens têm mais liberdade que as mulheres, mas não é verdade”. Entretanto, quando era criança, ela tinha que lidar com uma enorme hierarquia, de pais, e clãs, e do que ela chama de “homens barbudos pregando leis do século VII”. Ela teve que se adaptar de uma “sociedade coletivista” para uma “sociedade individualista” quando se mudou para a Holanda. “Descobrir minha habilidade de dizer ‘não’ e ficar com a consciência tranquila foi uma enorme emancipação para mim”.

Desde então, ela segue dizendo não. Parece que isso é o que significa ser uma “Herege”, o título de seu livro de 2015. Não é surpresa ela ter ganho o Prêmio Richard Dawkins da Aliança Ateísta Internacional. Ela também foi agraciada com o Prêmio Simone de Beauvoir por defender a liberdade das mulheres. Como ativista, ela defende que todos devem ter o direito de dizer não se assim o quiserem, especialmente as mulheres, seja para os homens ou para deus. E sem se sentirem torturadas. Ou serem de fato torturadas.

Em Herege, a autora afirma que há três coisas que os muçulmanos precisam repensar: sexo, dinheiro e violência. “Eu quero adicionar mais uma coisa nesta lista: tempo”, ela diz. “Quando eu vivia na Somália, ninguém chegava na hora marcada. Portanto foi um choque quando cheguei na Holanda, tive que me ajustar. E quando comecei a dar aula, alguns estudantes que eram como eu tinha sido chegavam 30 minutos ou até uma hora atrasados. Eu tinha que explicar que não adiantava aparecer tão tarde, já que eu não estaria mais lá. A aula durava apenas 60 minutos”.

Suas maiores ideias se baseiam em pequenas experiências como essa. O problema da concepção islâmica de tempo é que a cronologia, o passar do tempo que mantém tudo em ordem, é irrelevante em relação com o sentido teológico de eternidade, no qual o tempo é efetivamente abolido. O que importa, ela afirma, nessa maneira de pensar, é apenas a vida além da morte e, consequentemente, o céu ou o inferno. O tempo terrestre é visto como limitado, ou relativamente insignificante, apenas um obstáculo no caminho ao infinito. Isso, segundo ela, é o “cerne” do Islã.  “Portanto, trabalhar duro e ganhar dinheiro, ou fazer coisas recreativas como ir a um pub, assistir futebol ou ir ao cinema são coisas consideradas pecaminosas ou fúteis”.

Ela se pergunta se “privar jovens homens impressionáveis de entretenimento e companhia feminina não os torna mais suscetíveis ao se sacrificar”.

Ayaan Hirsi Ali pode ser uma mulher com uma missão, mas o que impressiona na forma que fala é que ela conseguiu escapar de pensar o Islã como algo peculiar e particular, uma coisa de fora. Ela está “desmarginalizando” o assunto. Se o Islã é parte da cultura e história humana, então ele potencialmente pode ser submetido aos mesmos tipos de análises de outros elementos culturais. Segundo ela, o “Islã não é uma etnia ou orientação sexual, mas um conjunto de ideias”.

Ao fim dessa entrevista, Ayaan Hirsi Ali disse que não seria necessário checar suas citações, como muitos em sua posição o fariam. Ela disse que não precisava, que tinha confiança. Talvez esse seja o problema fundamental de todas as religiões, elas não confiam o suficiente no ser humano, então trazem o Todo-Poderoso para ser um árbitro moral – para tomar a decisão no seu lugar. 

Fonte: The Independent