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Bernard-Henri Lévy: "Os Estados democráticos avançam, mas na direção errada, do populismo e do niilismo"

(BHL por Sam Vanallemeersch)
(BHL por Sam Vanallemeersch)

Na França, a ascensão da extrema-direita face à crise das forças da direita e da esquerda tradicionais. No mundo, Estados democráticos rumam para o populismo e o niilismo, gerando tensões que lembram o clima às vésperas da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Este é o cenário descrito pelo preocupado filósofo Bernard-Henri Lévy (BHL).

Intelectual engajado, BHL dirigiu recentemente dois documentários em torno da luta dos combatentes curdos do Iraque, os peshmergas, contra o Estado Islâmico (EI). O primeiro foi exibido em Cannes, em 2016. O último, A batalha de Mossul, foi exibido pelo canal franco-alemão Arte. Lévy conversou com O Globo na biblioteca de um grande hotel parisiense, nas proximidades do Palácio do Eliseu. Confira abaixo:

Como o senhor analisa o estado atual da democracia no mundo?

Infelizmente, os Estados democráticos avançam, mas na direção errada. Avançam na direção do populismo, para o niilismo, para o que os vienenses de pré-1914 chamavam de “apocalipse alegre”. Há um romance de Hermann Broch que se chama “Os sonâmbulos”: as pessoas avançavam como sonâmbulas para a guerra de 1914. Estamos hoje em situação análoga. Muitas vezes se faz a comparação com os anos 1930. Mas a verdadeira comparação seja, talvez, com os anos anteriores a 1914. Porque o sonambulismo, este clima de hipnose coletiva, esta maneira como as grandes democracias rumam para sua destruição, estas ameaças sobre a segurança coletiva criadas por Vladimir Putin e Donald Trump, isso tudo é muito novo. E não há como não nos fazer lembrar do clima às vésperas de 1914.

Como o senhor explica o crescimento do populismo?

Há uma fadiga da democracia, um ódio das elites. Os gregos distinguiam dois povos, o povo cidadão e o povo da demagogia. Um era o demos, e o outro, o ochlos. O populismo é o fim do demos e a glória do ochlos. É o fim do populus e o triunfo da tourba.

No dia da posse de Donald Trump, em Washington, o senhor estava nos EUA, ao lado do escritor americano Philip Roth...

Presenciei o inauguration day junto com Philip Roth. E foi uma experiência muito estranha a de viver com o autor de "Complô contra a América" (2004) a concretização de seu pesadelo. Trump é um pesadelo de Philip Roth. Como estava ele? Como ficam todos os escritores quando veem sua ficção se tornar realidade: estupefato. E como todos os cidadãos decentes naquele dia: chocado.

O senhor também ficou chocado?

Sim, porque penso que Trump é uma catástrofe para os EUA e para o mundo. E também uma ameaça para o mundo. Penso que não se pode ter na liderança da primeira potência mundial este personagem instável, incerto de suas próprias convicções, pragmático, o que também quer dizer cínico. É muito inquietante. Os europeus, os sul-americanos, viviam até hoje na ideia de que o risco sistêmico para a democracia vinha do islamismo radical. Ou da Rússia. E, em outros tempos, do comunismo. E, de repente, o risco vem dos EUA. Há um risco sistêmico para o sistema político mundial que pode vir dos EUA, e essa é uma situação sem precedente.

O senhor definiu o decreto migratório de Trump como “perseguição obscena”.

Sim. Há algumas semanas, estava em Nova York para um festival de cinema com uma delegação de peshmergas, que são amigos dos EUA, foram formados em academias militares americanas e estão empenhados na mesma luta do Ocidente. Oito dias depois, eles teriam sido proibidos de entrar nos EUA, porque são iraquianos. Portanto, sim, há algo de horrível, de obsceno, neste decreto de Trump.

Como se explica a eleição de Trump?

Há muitas explicações. Mas há uma espécie de revolução mundial que está em marcha, que é a revolução das ideias simples, dos que buscam bodes expiatórios, dos racistas, das pessoas que desprezam a democracia. É um movimento de caráter mundial e que se desenvolve também nos EUA. E há razões quase técnicas: a forma como as redes sociais tratam a noção de verdade; esta história de "fatos alternativos", que não é somente uma loucura de Trump, pois tem a ver com o regime de circulação da informação etc. Muitas pessoas votaram em Trump persuadidas que Obama era muçulmano, que Hillary Clinton era corrupta, que os EUA só dariam certo se bloqueassem a porta à América do Sul. Hoje, a mentira e a verdade têm o mesmo status, e é muito difícil distinguir uma da outra. É uma situação filosófica totalmente nova.

O senhor acusa o crescimento do sentimento antissemita na Europa, mas também nos EUA.

Os EUA foram um lugar de abrigo para os judeus do mundo, mas hoje o surto antissemita atinge o país de duas formas, nas duas bordas do tabuleiro, à direita e à esquerda. À esquerda, com um aumento do antissemitismo em sua versão antissionista e pró-palestina. Afinal, o país hoje no mundo em que o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) alcança seu apogeu são os Estados Unidos. À direita, o velho antissemitismo tradicional, racista, assimilando os judeus ao mundo do dinheiro etc, se expressou nas fileiras dos apoiadores de Trump com uma violência inesperada. Dos dois lados do espectro ideológico americano, houve um forte crescimento do antissemitismo. O slogan de Donald Trump "Estados Unidos primeiro" é um slogan fascista. Houve um movimento fascista nos EUA, em 1940, que se chamava "Estados Unidos primeiro", do qual a figura proeminente era o célebre aviador Charles Lindbergh. Donald Trump sabia disso, e em plena consciência adotou este slogan ligado à história do fascismo americano.

Putin também é uma ameaça?

Putin é uma ameaça explícita. Sabemos que ele quer desestabilizar a Europa, acentuar a crise das democracias, e que apoia e financia todos os partidos de extrema-direita na Europa. Sabemos também que em todos os lugares em que se trava a batalha entre a barbárie e a civilização, como na Síria e na Ucrânia, ele está do lado errado, ao lado dos bárbaros. Aí está uma verdadeira e grande ameaça.

Qual a solução para o conflito sírio?

Na Síria, há quatro anos deveria ter sido criado uma zona de exclusão aérea, no move roads, e também zonas tampão. Teriam sido necessárias, no mínimo, essas três coisas para proteger os civis: impedir os aviões de voar, os tanques de circular, e criar zonas seguras para os refugiados. Deveriam ter sido impostos limites a (ditador sírio) Bashar al-Assad, e sancioná-lo a cada vez que ele os desrespeitasse. Nada disso foi feito. Deixou-se as mãos livres a Assad e a seus aliados russos e iranianos. Enfim, teria sido preciso apoiar a oposição democrática. Hoje, estamos na situação que provavelmente queria Putin. Ou seja, um cara a cara entre o Estado Islâmico (EI) e Assad, entre a lepra e a cólera. O que se deve fazer a partir de agora? É preciso obrigar Assad a partir. É preciso ter em Damasco um regime verdadeiramente decidido a lutar contra o EI. Ora, Assad criou o EI, ele não o destruiu.

Como combater hoje o terrorismo?

Face ao EI, há duas atitudes possíveis. Há a atitude que consiste em compreender, desculpar, encontrar razões, atribuir esta violência niilista ao empobrecimento, à desesperança, tudo isso. Essa é a melhor maneira de alimentar o EI. E há a forma de responder à guerra niilista que nos é declarada com uma atitude muito mais firme. Essa é a boa atitude. Penso que a França de hoje tem a boa abordagem, não é o caso de outros países da Europa.

O senhor aponta um clima hoje de “desconfiança dos povos”.

Sim, há uma tal desconfiança dos povos em relação aos sábios, aos atores políticos, aos partidos, que o fato de rejeitar isso tudo se tornou um objetivo em si. Entramos em uma época em que repudiar as elites pode se tornar mais desejável para um povo do que assegurar sua prosperidade. É uma nova variante do "Discurso da Servidão Voluntária", de Étienne de La Boétie. Uma outra forma de fazer passar sua sobrevivência e seu bem estar depois desta frenética paixão que é o ódio das elites, das mediações e das instituições.

O senhor mantém ainda otimismo?

Não faria o que faço, não iria prejudicar minha saúde no Iraque e em outros lugares, durante várias semanas, se não guardasse uma parte de esperança.


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