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Camille Paglia: “Acho importante que as mulheres redescubram a solidariedade entre elas”

Foto: Jerry Kiesewetter | Unsplash
Foto: Jerry Kiesewetter | Unsplash

Para Camille Paglia, duas épocas foram decisivas em sua vida. Nos anos 1960, descobriu a rebeldia da contracultura, do rock e do feminismo. Nos anos 1990, se descobriu do lado oposto de suas referências, quando deixou de calar as críticas que possuía tanto sobre esquerda quanto de direita, em especial o estado em que o feminismo se encontrava.

Nos anos 2010, Paglia, conferencista do Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre (2007), São Paulo (2015) e Salvador (2008 e 2017), segue com a língua afiada, provocando e criticando, adquirindo admiradores nos lugares mais improváveis e fazendo o que mais gosta de fazer: arrumar uma boa briga.

Nesta entrevista para a revista The Cut (parte do portal da New York Magazine), a jornalista Molly Fisher almoçou e jantou com Paglia em um restaurante grego, onde passaram quase cinco horas falando sobre suas obras, fama, Madonna, Hillary Clinton, feminismo, Donald Trump e, é claro, o politicamente correto.

A Temporada 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador encerra no dia 5/8, com a conferêmcia da ativista e política moçambicana Graça Machel

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No dia que almocei com Camille Paglia, cheguei cedo ao restaurante grego que ela havia escolhido e fui levada pela recepcionista para uma mesa nos fundos. Para mim, parecia um bom lugar. Paglia, que chegou alguns minutos depois, discordou.

Era uma cabine. E havia pessoas bem do nosso lado. Havia uma mesa perto da porta, disse Paglia, onde ela já havia feito reuniões; talvez pudéssemos nos sentar ali. Acompanhadas pela recepcionista, caminhamos até a nova mesa para ver. Paglia achou que a recepcionista provavelmente não poderia acomodar nós duas em uma mesa para seis. Precisávamos de uma mesa menor – mas uma que oferecesse silêncio e privacidade. Um segundo funcionário do restaurante se juntou a nós. Nos propuseram outra cabine, que também rejeitamos. Paglia achou que era necessário que sentássemos em cadeiras de verdade. Os assentos acolchoados da cabine poderiam nos deixar com sono, ela achou. Precisávamos ficar alertas.

Me senti levada pela sua vontade de dificultar, que não se manifestou como grosseria ou egocentrismo, mas como o perfeito e inviolável conforto de ir atrás do que se quer de verdade. Ela ia conseguir a mesa certa. E o que eu poderia fazer, pedir desculpas pela Camille Paglia? Se há alguém que é imune às expectativas não ditas do comportamento feminino – e de ser inabalável, a nível celular, à vontade do patriarcado (para usar um dos termos que ela menos gosta) – essa pessoa é Camille Paglia.

Acabamos nos sentando em uma pequena mesa próxima da primeira. Ficaríamos ali pelas próximas 4 horas e 45 minutos. Dentro do histórico de entrevistas com a pensadora, a minha é das mais curtas. Quando Francesca escreveu o seu perfil na matéria de capa da revista New Yorker em 1991, sua conversa durou dez horas, o suficiente para Paglia comer dois bifes: um no almoço e o outro no jantar.

“Normalmente eu peço carne, mas acho que vai interferir”, explicou Paglia enquanto lia o menu. “Porque assim vou ficar falando sem parar”. Ela mediu uma Moussaka e uma Corona, e começou.

Eis algumas coisas que Camille Paglia – talvez a mais famosa antifeminista declarada da história dos EUA – aprova: futebol, Bernie Sanders, Katharine Hepburn, Rihanna, os seriados da franquia Real Housewifes e o prato grego taramasala.  Eis algumas coisas que Camille Paglia desaprova, e caso você tenha algum problema com isso, saiba que ela gosta de uma briga: Michel Foucault, Doris Day, Lena Dunhan, Elena Ferrante e estudantes universitários que passam o tempo todo reclamando de abusos. Eis algumas coisas que Camille Paglia costumava aprovar, mas não aprova mais: Bill Clinton e Madonna. Ela segue acreditando tanto nos anos 1960 quanto no Rock and Roll.

Seu mais recente trabalho, Free Women, Free Men, foi lançado em 2017 e reúne material escrito ao longo de sua carreira abordando sexo, gênero e feminismo – em outras palavras, seus temas mais recorrentes e favoritos. A pensadora ficou famosa nos anos 1990 com sua obra Personas Sexuais. O livro, de 700 páginas, era baseado na sua tese de doutorado em Yale, é um raro trabalho acadêmico que pode ser descrito como ousado. Personas Sexuais traçou um caminho excêntrico e interdisciplinar através da cultura ocidental, desde a antiguidade até a contemporaneidade, recontando o que ela viu como uma batalha sem fim entre a natureza (que é violenta, irracional, indomável e feminina) e a cultura (que é estética, lógica, sempre tentando e falhando domesticar a natureza e, sim, masculina).

Em meio às guerras culturais do início dos anos 1990, ela representava uma sedutora alternativa às devoções liberais e uma academia com dificuldades com o desconstrucionismo e o multiculturalismo. Uma autodeclarada libertária defensora da liberdade sexual e de expressão, ela afirmava que a segunda onda feminista havia se tornado uma força homogeneizada e repressiva para fazer o mal (e, também, que estava intelectualmente falida). Ela questionava se a civilização ocidental e os homens brancos que a construíram não mereciam algum crédito e se as feministas não estavam ignorando tudo de importante a respeito não somente da arte, mas também do sexo. Quem sabe não era ela, Camille Paglia, a verdadeira feminista, pois não acreditava que as mulheres deveriam estar pedindo que grupos de apoio a vítimas de abuso as protegessem dos perigos do mundo? Em seu gosto pela cultura pop e em seu gosto espalhafatoso pela performance, ela se apresentava como o antídoto populista à elite liberal – ela era, por um tempo, irresistível para a imprensa, ganhando espaço no ar e em capas de revistas, tomando para si o trono da provocadora anti-politicamente correta por excelência. Ela fez seu nome pelo seu desprezo a tudo que a esquerda considerava sagrado. “Ela se chamar de feminista”, disse Gloria Steinem na época, “é como um nazista dizer que não é antissemita”.

Os últimos anos parecem ter trazido de volta as guerras de identidade política dos anos 1990, outro período no qual liberais (especialmente dentro da academia) passaram a ditar as regras de um discurso aceitável. Paglia sempre infringiu tais regras – e de certas formas ela parece ainda estar naqueles anos, quando sua personalidade foi forjada na contrariedade. Será que ela é teimosa, ou será que são os outros?

Paglia pode ter tido a intenção de revitalizar o feminismo – para restaurá-lo a uma era dourada de pensadores ousadas como Simone de Beauvoir – mas ela foi adotada pela força oposta como um todo. Blogueiros ativistas dos direitos masculinos, e conservadores da “nova direita” encontram verdades fundamentais no entendimento antigo da pensadora sobre os papéis de gênero: a noção de que as mulheres possuem poderes terríveis e misteriosos de sedução e reprodução e, portanto, os homens precisam provar seu valor conquistando, competindo e criando. Milo Yannopoulos, talvez o mais conhecido antifeminista da atualidade, declarou que Paglia é uma influência fundamental; o site de notícias de direita Breitbart seguidamente cita o seu trabalho de forma positiva.

Ela própria desconfia de qualquer alinhamento com a direita. Durante os anos 1990, ela se ofendia quando era taxada de conservadora, e respondia listando suas credenciais de rebeldia: saiu do armário no final da década de 1960, odeia censura, odeia puritanismo, apoia a legalização das drogas – como poderia ela ser uma conservadora? Entretanto, por uma lógica de compartilhamento de inimigos em comum, seus ataques ao liberalismo tornam seu trabalho uma munição útil (com a credibilidade aumentada por se tratar de alguém provinda do campo inimigo). Ela não deu muita atenção para a emergência da “nova direita”, mas, disse, “o discurso elitista sobre gênero perdeu o sentido e removeu da realidade o fato de que surtos turbulentos de resistência e rebelião não são surpreendentes”.

Apesar de Paglia escrever, de tempos em tempos, sobre política e cultura, ela se retirou, em grande parte, do centro do debate feminista. “Saliento que minha extravagante presença na mídia mal durou quatro anos e foi impulsionada por uma sequência de três best-sellers e suas respectivas turnês promocionais (1991-1994)”, escreve ela em seu último livro. “Depois disso, eu simplesmente segui em minha querida reclusão enquanto professora e autora. Como costumo dizer, sou apenas uma acadêmica”. Ela trabalha na Universidade das Artes, uma escola de artes visuais e performáticas na Filadélfia, há 33 anos. Na última década, realizou uma solitária pesquisa sobre as tribos americanas do sudeste da Pensilvânia, coletando artefatos e registrando formações rochosas que parecem ter sido esculpidas pela mão humana. Ela espera que essa pesquisa se torne um novo livro, mas diz que seu agente prevê um fraco apelo comercial na obra.

Paglia se apresenta como uma pária acadêmica voluntária. A Universidade das Artes proporciona a ela um “emprego de verdade”, ela diz, um calcado em uma “realidade cotidiana e mundana”. “Isso é algo que Susan Sontag nunca fez”, ela me conta e acrescenta que “intelectuais precisam disso”.  Mas uma fascinação com a fama, dela e de outras, vai contra sua insistência de que ama o anonimato. “Tenho sorte”, ela me fala, “Não sou nada importante. De vez em quando, algum aluno me procura depois da aula para dizer, ‘meu pai é seu fã e me falou que você escreveu alguns livros’. Eu respondo, ‘Obrigada, mande lembranças para seu pai’. Portanto eles não fazem ideia que eu escrevo livros ou qualquer outra coisa. Talvez estejam começando a notar, por causa da internet – eles estão começando a encontrar entrevistas minhas no YouTube e coisas do tipo”.

Paglia tem baixa estatura e, aos 69 anos, tem as costas levemente curvadas. O estilo severo e elegante que mantinha nos anos 1990 – sobrancelhas escuras, maças do rosto pontiagudas e um cabelo claro – diminuíram um pouco com o tempo. Ultimamente, usa seu cabelo castanho-claro, que ela fez depois de levar uma foto de Jane Fonda para seu cabelereiro. Sua ex-companheira, Alison Maddex (uma co-fundadora do Museu do Sexo de Nova York) vive próxima dela, e as duas são mães de um filho de 14 anos. “Não saberia como criar uma menina”, diz Paglia, “A ideia de ter que lidar com coisas como esmalte rosa, ai meu Deus, não saberia como fazer isso”. Na televisão, ela assiste apenas filmes clássicos e as séries da franquia Real Housewifes. Ela não se interessa por Facebook, Twitter ou pelas Kardashians.

Certos detalhes biográficos, apresentados regularmente nos textos e entrevistas da autora, se parecem carregadas de uma mítica significância de uma história de origem de um super-herói. Ela gosta de contar a história da vez que foi literalmente chutada no traseiro por um estudante quando começou a dar aulas em Bennington, “estava usando minhas enormes botas da marca Frye”, ela me informa. Sua família é italiana, daí o seu intenso apreço pela beleza e outros prazeres sensoriais, e católica, o que a introduziu aos elementos selvagens e pagãos da tradição ocidental negligenciados entre a elite branca norte-americana (sua vontade de pintar tradições culturais em amplas pinceladas combina com seu desdém pela delicadeza do politicamente correto; sua vontade de atribuir significância para origens familiares é apropriada para alguém que pensa que Freud é desvalorizado hoje em dia). Quando era criança, se vestia em uma sucessão de trajes de dia das bruxas “transgêneros” – Robin Hood, Napoleão, Hamlet – pois esses eram os personagens com os quais se identificava. “Mas nunca, em minha passional identificação com figuras heroicas masculinas, eu fui encorajada por adultos preocupados, porém equivocados para crer que eu era na verdade um menino e que intervenções médicas poderiam trazer verdade em minha vida”, ela escreve na introdução de seu último livro. Entretanto, ela se denomina uma “entidade sem gênero”.

Ela tende a descrever os anos entre a faculdade e a publicação de Personas Sexuais como um período de labuta solitária no interior acadêmico. Mas a infâmia ocorreu rapidamente depois do seu lançamento. Em um espaço de aproximadamente um ano depois do livro sair, Paglia escreveu um punhado de artigos altamente discutidos e republicados na grande mídia – que incluíram um editorial sobre abuso no qual ela criticava “mulheres imaturas e auto-piedosas caminhando como barras de manteiga derretida”; e um editorial para o The Times (que a tornou instantaneamente notória, segundo ela) no qual chamou Madonna de “o futuro do feminismo”.

Seu último livro traz uma breve introdução à Paglia que habitou a imprensa popular dos anos 1990. Há uma seleção de clipagens que incluem uma caricatura com as frases da autora; capas de revista e ensaios fotográficos; e uma ilustração com Paglia, Gloria Steinem e Betty Friedman publicada na revista Vanity Fair em 1998 com a manchete “As mulheres mais influentes dos Estados Unidos” – uma ilustração em vez de uma foto, pois Steinem supostamente se recusou a posar do lado de Paglia.

Apesar de seu visual agressivo (ela gostava de fazer ensaios fotográficos segurando espadas e chicotes) e sua autoconfiança, Paglia seria rejeitada pelo establishment intelectual e feminista, além de outros que ela via como aliados naturais. Como o jornal Village Voice – “sou uma FILHA do Village Voice”, escreveu ela por e-mail – que a descreveu como uma conservadora e uma “fraude intelectual” em uma matéria de capa em 1991, e o qual ela eventualmente ameaçou de processo por seu “padrão de conduta malicioso”. E como Madonna, a quem ela elogiou em 1990 por ensinar “as jovens a saberem que podem ser completamente femininas e sensuais enquanto ainda mantém o controle de suas vidas”. “Para depois ela reclamar que não tinha outras figuras femininas similares a ela, enquanto eu estava lá e pronta”, diz Paglia, melancolicamente. Ela ainda acha que poderia ter contribuído para o livro Sex de Madonna, se tivesse tido a chance. “Sou apenas outra ítalo-americana como ela.”

“Eu tinha 43 anos”, ela diz, lembrando da resposta que Personas Sexuais recebeu. “Uma mulher de meia idade, entenda, que batalhou por 20 anos para escrever um livro de 700 páginas, e é assim que eu sou tratada? Como uma inimiga da raça humana? É inacreditável. Então, foi por isso que me tornei popular. Recebi uma enxurrada de correspondências de pessoas que haviam sido tratadas como eu pelas feministas”.

Hoje, Paglia é uma preferência cult. Feministas heterodoxas, ocasionalmente, admitem que tiveram uma fase Paglia, como uma espécie de confissão de indulgente de mau gosto. Seu estilo confrontante, insaciável, com uma aparência retrô anos 1990 – se parece estranhamente fora de moda. Você pode imaginar “Camille Paglia” ao lado de “Fran Drescher” nos lápis que celebram “mulheres que desafiam as expectativas” vendidos pela marca The Wing. Mas ela tem pouca afinidade com as feministas de hoje quanto sentia pelas dos anos 1990. “Eu estava com medo de falar com você, de fato”, ela me conta, durante nosso almoço, enquanto víamos as equipes trocarem de turno e as luzes sendo ligadas, e depois diminuídas novamente para o jantar. “Não imaginava que você seria uma ideóloga política”. Me formei há muitos anos em uma faculdade liberal da costa leste dos Estados Unidos, e trabalhei na mídia liberal nova-iorquina: para Paglia, tudo isso era ameaçador.

Paglia não se surpreendeu com os resultados das eleições presidenciais norte-americanas. “Já sentia que Trump venceria há um bom tempo”, ela conta. Em um texto de 2016, ela chamou Trump de “bruto, grosseiro e desinformado”, mas também “esperto, intuitivo e rápido em aprender”, ela elogiou sua “pretenciosa exuberância e seu humor afiado” (e sentiu um certo prazer em vê-lo envergonhar o Partido Republicano). Falando duas semanas depois de sua posse, ela parecia menos perturbada pelo presidente do que qualquer outra autodenominada feminista que eu encontrei desde então: “Ele tem o apoio de metade do país, alô! E também, essa eticamente indefensável desculpa que todos os eleitores de Trump são racistas, sexistas, misóginos, etc. – a democracia norte-americana não pode seguir assim, insultando metade da população”.

De fato, ela teve que se segurar para evitar concordar com presidente, ao menos em certos assuntos. “Eu tenho estado em campanha anti-Meryl Streep por perto de 30 anos”, ela diz. Quando Trump chamou a atriz de “superestimada” pelo Twitter em janeiro ela “queria escrever um artigo e usar essa frase, mas não podia, pois Trump a havia dito”.

É verdade que não é pouco frequente que haja algo de Trump na cadência de Paglia (muitos pontos de exclamação – “essa infantilização tirânica dos jovens norte-americanos precisa parar!”), assim como a sua compulsão irresistível em fazer inimigos, desentendimentos e ideias fixas. E, então, quem sabe o mais importante: ela, assim como Trump, dá ao seu público a emoção vicária de ver alguém que aparentemente está dizendo o que diabos lhe venha na cabeça. Ler Paglia é um pouco como deve ter sido ser um participante entusiástico em um comício de Trump: não pode ser que ela queira dizer isso REALMENTE, você pensa, e ri, perplexo – mas você consegue imaginar o quanto isso deixa as pessoas irritadas?

Ela não parece estar nem um pouco perturbada pelo aumento de um ódio estranho na direita. Quando perguntei a ela sobre Yiannopoulos ela respondeu: “Muitos homens gays perderam a mordaz e cruel sagacidade pela qual eram famosos na era que precedeu os protestos em Stonewall, no final dos anos 1960. Nenhuma de suas piadas sarcásticas me parecem piores que os insultos exagerados feitos pelo grande imitador de mulheres Charles Pierce, quando imitava Bette Davis e Joan Crawford. Entretanto, verdadeiros reformistas devem construir além de atacar. Quando fiquei famosa, tinha por trás de mim um livro de 700 páginas e trabalhei uma detalhada agenda criticando tanto esquerda quanto direita”.

O descontentamento de Paglia quanto à eleição foi em maior parte destinado ao Establishment liberal, e a Hillary Clinton, quem ela criticou seguidamente durante os últimos 20 anos. “Eu gosto da Hillary porque ela é meio cadela”, disse Paglia em uma entrevista em 1993, mas sua opinião evoluiu desde então. Ela agora chama Clinton de uma “neurose ambulante”. Durante as primárias, Paglia preferiu Bernie Sanders – “um esquerdista autêntico”, que a levou de volta aos anos 1960. “Era assim que os verdadeiros esquerdistas eram”, ela me conta. “Eles não eram pós-estruturalistas com o seu jargão elitista e falso”. Nas eleições gerais, como residente da Pensilvânia, ela votou em Jill Stein.

Ela aprovou – entretanto– a Marcha das Mulheres. “Acho que é importante que as mulheres redescubram a solidariedade entre elas”, ela diz. “Não era sobre feminismo. Não era realmente sobre Trump. Não era sobre nada disso. Era porque, de repente, nossa, todas as mulheres estão juntas nisso.

Ainda assim, as tocas de gatinho cor-de-rosa [utilizadas no protesto como parte de uma campanha de solidariedade entre as manifestantes] fizeram Paglia esconder o rosto entre as mãos quando falamos nelas. “Eu fiquei horrorizada pelas tocas de gatinho cor-de-rosa”, ela diz; as tocas são “uma enorme vergonha para o feminismo contemporâneo”.

“Eu quero a dignidade e autoridade para as mulheres”, ela diz. “Meu código é o das Amazonas. Eu quero armas”.

No mais, ela estava irritada com o sentimento geral de revolta que dominou os meses recentes. “Nada disso faz sentido”, ela fala. “Às vezes é como, ai meu Deus, as notícias, então eu pego um livro e estou lendo sobre 10 mil anos atrás e, novamente, nossa, isso traz para você uma perspectiva”. Isso é o que a atrai em estudar os nativos norte-americanos.

Não faz muito tempo, Paglia entrou para a Sociedade de Arqueologia da Pensilvânia. Quando ela era criança, sua primeira ambição foi ser uma arqueóloga, e ela considera voltar a essa busca quando adulta altamente gratificante. E também oferece novos desafios. Durante uma palestra dada em uma conferência de um curador de museu, Paglia ergueu a mão e levou as ferramentas de pedra que encontrou, que ela acredita que eram usadas para retirar carne e peles das caças. Ela se acostumou a reconhecê-las pela maneira que podem ser seguradas. “Você fica girando elas e, de repente, elas encaixam em sua mão perfeitamente”. Ela imita isso: a satisfação de segurar algo bem feito e potencialmente perigoso.

“Então levantei o braço querendo fazer um comentário sobre o quanto achava incrível esse encaixe, e o sujeito me interrompeu dizendo, ‘não, essas ferramentas possuíam punhos de madeira’. Eu respondi, ‘bem, pode ser que algumas tenham tido punhos de madeira, mas muitas delas têm o formato dos dedos’. Ele respondeu que não e fiquei realmente ofendida.

Foi apenas mais tarde que ela percebeu porque havia visto algo, mas ele não. “Os homens nunca descobriram isso, pois quando seguravam essas coisas, seus dedos não encaixavam”, ela explica. “Minhas mãos se encaixam perfeitamente, pois são do tamanho das mãos das mulheres nativas”. Paglia viu a promessa de um novo conflito no horizonte.

Fonte: The Cut